Archive for the ‘Uncategorized’ Category

Caia Fora, Lawrence O’Donnell

domingo, outubro 30th, 2011

http://c4ss.org/content/8193

Afixado por Kevin Carson em 10 de setembro de 2011 em Artigos em Destaque

Michael Lind, em Salon (“Por que os libertários se desculpam pela autocracia,” 30 de agosto,) acusa os libertários de afinidade com regimes autoritários quando se trate de implementar “reforma de livre mercado.”

Obviamente ele faz a citação obrigatória de Mises a respeito de Mussolini ter “salvo a civilização europeia,” juntamente com as historietas padrão dos Rapazes de Chicago de Hayek e de Pinochet. Enfatiza, em especial, o Secretário do Trabalho e Previdência Social de Pinochet  — agora associado do Cato — Jose Piñera, que privatizou o sistema de aposentadoria do estado e “delineou as leis do trabalho que trouxeram flexibilidade ao mercado de trabalho chileno…”

Nem tratarei da questão da cumplicidade de Hayek em políticas específicas, porque esse é tópico para uma monografia inteira. Basta dizer que sou cético acerca da extensão na qual ele possa ser responsabilizado por endossar quaisquer medidas específicas.

Mais importante é que as assim chamadas “reformas de livre mercado” de Pinochet em sua maioria não conseguem passar por um teste de cheiro(*) libertário, e guardam pouca semelhança com qualquer coisa tal como genuína reforma de livre mercado. Há bastantes de nós libertários de esquerda de livre mercado, no Centro por uma Sociedade sem Estado e na Aliança da Esquerda Libertária, que só sentimos indignação e desprezo por Pinochet.

(*) Teste de vazamento num cano de escoamento; é introduzido no cano material com forte cheiro e os vazamentos são detectados mediante rastreamento do cheiro até sua origem. Ver http://www.answers.com/topic/smell-test

Alguns “libertários” de direita, que mais cuidam de defender os interesses das grandes empresas do que princípios de livre mercado enquanto tais, gostam de dizer que Pinochet era “economicamente libertário mas politicamente autoritário.” Bobagem!

As políticas econômicas de Pinochet foram mais capitalistas de estado do que libertárias.

Não duvido nem um pouco de que as novas leis do trabalho de Pinochet “trouxeram flexibilidade ao mercado de trabalho chileno.” Todo aquele pessoal pendurado em ganchos, e diversas outras formas de imposição de desconforto, seguramente tornariam aqueles trabalhadores arrogantes tão dóceis quanto alguém pudesse desejar. É bom não esquecer, até o mais ortodoxo dos economistas marginalistas considera o trabalho como “fator de produção” em nível de igualdade. No Chile, os donos desse “fator de produção” específico que tentaram organizar-se e negociar melhor índice para seus serviços frequentemente vieram parar em fossos com a cara retalhada. Gerentes de fábricas conduziam membros da polícia até o chão de fábrica para apontar para organizadores do trabalho e agitadores, para eles serem subsequentemente “desaparecidos,” torturados e assassinados — com as barrigas, como Lind destaca, rasgadas abertas antes de eles serem lançados ao oceano a partir de helicópteros. Acham vocês que se um ditador de esquerda tivesse tomado medidas semelhantes contra os donos do capital, para reduzir-lhes o poder de barganha, isso seria descrito como “politicamente autoritário mas economicamente libertário”?

Libertários genuínos opõem-se à concessão de títulos artificiais de terra não ocupada e não melhorada, por meio dos quais a aristocracia rural consegue manter a propriedade de terra sem uso ou cobrar tributo daqueles que nela se instalem ou a cultivem. Segundo esse padrão libertário, todo o sistema quase-feudal de hacienda que prevalece na América Latina é completamente ilegítimo. Até oitenta por cento da terra de uma hacienda são não desenvolvidos, enquanto pobres camponeses vizinhos trabalham como trabalhadores agrícolas na propriedade do dono — terra que seus ancestrais provavelmente partilhavam para cultivo. Por qualquer princípio legítimo de libertarismo de livre mercado, essa terra pertenceria aos camponeses. A revogação parcial da reforma agrária de Allende por Pinochet foi furto, pelos padrões libertários, tanto quanto os Cercados [Enclosures] na Inglaterra ou a coletivização forçada na URSS.

O programa de “privatização” de Pinochet, como a maioria dos outros exemplos de tais políticas implementados em todo o mundo sob o Consenso de Washington, foi na realidade pilhagem corporativa. O ciclo típico de “privatização” é o seguinte: tecnocratas do Banco Mundial, em conluio com seus similares nativos na burocracia do estado, persuadem um regime completamente acima de qualquer prestação de contas a seu povo a ir fundo no endividamente para financiar infraestrutura pública — principalmente serviços públicos e infraestrutura rodoviária, para subsidiar investimento de capital estrangeiro e torná-lo mais lucrativo. Uma vez o regime tornado devedor, o Banco Mundial e o FMI agem como uma “loja da empresa(*)” para extorquir comportamentos desejados do regime. Além de ratificarem o protecionismo da “propriedade intelectual,” tais medidas usualmente implicam em políticas de “ajuste estrutural” tais como “privatização” da infraestrutura, amiúde com venda dela, para começo de conversa aos mesmos investidores globais para subsídio aos quais ela havia sido construída, a preços de liquidação para fechamento da loja. A venda é amiúde precedida de enorme montante de gastos do governo para tornar os ativos atraentes o suficiente para ser vendidos. A primeira ordem do dia do novo proprietário, naturalmente, é vender os ativos individualmente, ganhando geralmente muito mais do que o preço de compra. E os recentemente privatizados serviços do estado continuam a funcionar dentro de uma teia de proteções corporatistas feitas cumprir pelo estado, de tal maneira que os serviços estatais “privados” não tenham de competir num livre mercado.

(*) Parte do chamado truck system, no qual os trabalhadores eram pagos em mercadorias ou em alguma moeda interna à empresa, sendo assim forçados a fazer suas compras na loja da empresa, onde os preços eram mantidos artificialmente altos. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Truck_system

A maioria dos “Acordos de Livre Comércio” são em realidade medidas protecionistas corporativas que têm tanto a ver com livre comércio quanto o Ministério da Verdade tem a ver com a verdade. O mesmo pode ser dito da extensão na qual a maior parte das “reformas de livre mercado” têm que ver com reforma de livre mercado.

A crítica de Lind incorre em dose extra de ironia quando consideramos o papel de Franklin Delano Roosevelt e Truman na criação do Império Estadunidense global pós-guerra, e o papel dos liberais da Guerra Fria na elevação ao poder de ditadores reacionários quando “comunistas” como Arbenz ameaçaram a santidade moral das bananas da United Fruit. Sukarno e Diem foram derrubados como parte da política de contrainsurgência de “arcar com qualquer ônus, pagar qualquer preço” de Santo Kennedy, a qual foi levada a efeito por liberais idealistas de Harvard e Georgetown.

Os cleptocratas de Boris Yeltsin levaram a efeito, na Rússia, políticas muito similares às da “reforma de livre mercado” de Pinochet no Chile. E Jeffrey Sachs — vocês sabem, o mesmo sujeito progressista que confraterniza hoje em dia com Bono e Warren Buffet — foi pelo menos tão merecedor de reprovação no processo quanto Friedman jamais foi.

Lind cita extensamente de uma carta de 1857 de Macaulay:

Está bastante claro que o Governo de vocês nunca conseguirá conter uma maioria desiludida e descontente. Pois com vocês a maioria está o Governo, que tem os ricos, que são sempre minoria, absolutamente à sua mercê. Dia virá quando, no Estado de New-York, uma multidão de pessoas, nenhuma das quais terá comido mais do que meio café da manhã, nem terá esperança de ter algum dia mais de meio jantar, escolherá um Legislativo. Será possível ter dúvida quanto ao tipo de Legislativo que será escolhido? De um lado haverá um estadista pregando paciência, respeito pelos direitos adquirdos, estrito respeito à confiança do público. Do outro lado estará um demagogo verberando contra a tirania dos capitalistas e usurários, e perguntando por que se deveria permitir a alguém beber champagne e andar de carruagem enquanto milhares de pessoas honestas não têm o necessário básico. Qual dos dois candidatos será provavelmente preferido por um trabalhador que ouve seus filhos chorarem pedindo mais pão?

O problema de Lind é ele ter uma visão de imagem no espelho de todos os “simpatizantes da autocracia” que critica: as intervenções “progressistas” do estado resultam do poder da maioria sobre a minoria. Ele ignora a possibilidade de o motivo pelo qual todas essas pessoas tinhan apenas meio café da manhã era o estado estar intervindo ativamente para promover os interesses da minoria contra os da maioria, e não haver muito de libertário nos “direitos adquiridos” de Macaulay.

A polarização de classes na Inglaterra de Macaulay foi a culminância de uma série de eventos que incluíram os Cercados dos Tudor e do Parlamento, a nulificação da posse por enfiteuse, a Lei Antissindicatos/Antinegociações Trabalhistas e as Leis do Assentamento. Na Inglaterra, nas palavras de J.L. e Barbara Hammond, o governo desmontou a sociedade e a montou de novo de modo muito parecido com aquele pelo qual um ocupador estrangeiro a montaria num país conquistado. A revolução industrial, do modo como aconteceu, foi um golpe de estado contra a sociedade, por meio do qual a maioria da população trabalhadora teve roubada sua propriedade da terra, foi transformada pela força num proletariado sem propriedades, restringida quanto à livre associação e constrangida em seus movimentos por um sistema de passaporte interno. A principal função do estado, em outras palavras, era capacitar uma classe privilegiada a viver dos rendimentos de direitos artificiais de propriedade e de escassez artificial.

Embora os direitistas gostem de apresentar a questão como dizendo respeito a impedimento de o estado redistribuir a riqueza para baixo, a real questão diz respeito a conter a redistribuição da riqueza para cima pelo estado.

Como os pretensos amigos da autocracia que Lind critica, o próprio Lind parece acreditar que uma aparente “democracia representativa” possa funcionar como governo genuinamente popular, e represente ameaça real ao privilégio arraigado. Um século do que Noam Chomsky chama de “democracia formal” ou “democracia de espectador,” contudo, já mostrou os experimentos em governo representativo serem governados pela Lei Férrea da Oligarquia de Robert Michels:  “É organização que dá origem ao domínio dos eleitos sobre os eleitores, dos mandatários sobre os mandantes, dos delegados sobre os delegantes.”

O anarquista P. J. Proudhon comparou a democracia representativa com a monarquia constitucional: “Em vez de dizer, como o fez M. Thiers, o Rei reina e não governa, a democracia diz o Povo reina e não governa, o que é negar a Revolução…”

As assim chamadas políticas “progressistas” do estado assistencialista-regulamentador do século 20, quando examinadas mais de perto, revelam-se ser medidas adotadas pelo estado como “comissão executiva da classe dominante (corporativa).” Sua finalidade precípua foi a de estabilizar a economia corporativa e garantir taxa previsível de lucro mediante restrição à competição, garantindo demanda agregada suficiente para utilização plena da capacidade industrial, e para impedir níveis desestabilizadores de destituição. Como mostrado por Gabriel Kolko em O Triunfo do Conservadorismo, os atores principais por trás do regime regulamentador da Era Progressista eram as indústrias regulamentadas, que buscavam cartelizar seus respectivos mercados por meio do estado. G. William Domhoff já mostrou, numa série de estudos de política maciçamente documentada, que as políticas econômicas do Novo Pacto de Franklin Delano Roosevelt refletiam os interesses de apenas uma ala do capital organizado. Quaisquer benefícios incidentais que essas políticas tenham acarretado para a pessoa média não foram precipuamente resultado de pressão democrática vinda de baixo, e sim um efeito secundário da promoção, pela classe dominante corporativa, de seu interesse próprio.

Em outras palavars, o estímulo político por trás do programa de Vales Alimentação teve muito mais a ver com os interesses do agronegócio do eleitorado de Bob Dole do que com o imensamente poderoso bloco votante das mães solteiras desempregadas.

Roderick Long, numa postagem de Libertários de Coração Dilacerado (“Libertários Calçando Botas de Cano Alto?” 30 de agosto), questiona a “generosa assunção”

de que as democracias existentes sejam realmente majoritárias. Como muitos libertários já argumentaram, a lógica do governo monopolista e da captura dos interesses especiais explica por que as “democracias” da vida real tendem a ser oligarquias plutocráticas com aspecto exterior democrático.

Por cima de tudo Lind repete a tolice de Lawrence O’Donnel’ acerca do alegado silêncio dos libertários acerca de “abusos da política e da instituição militar.” Ele seriamente nunca ouviu falar de Radley Balko? Liberais do The Nation em verdade têm tratado as críticas libertárias acerca do regime da Administração da Segurança do Transporte – TSA de “seus documentos, por favor” como conspiração insincera da direita para desacreditar o governo. Se Lind honestamente não está ciente de o quanto são realmente disseminadas as críticas dos libertários ao estado policial e ao estado de segurança nacional, isso provavelmente diz algo acerca do valor da opinião dele.

O Associado de Pesquisa do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos de Economia Política Mutualista, Teoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Um Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P e seu próprio Blog Mutualista.

Jesus Cristo, Pirata

sexta-feira, outubro 28th, 2011

http://c4ss.org/content/8238

Afixado por Kevin Carson em 6 de setembro de 2011 em Comentário

Depois de, conforme se conta, ter alimentado uma multidão de cinco mil pessoas com cinco pães e dois peixes, Jesus Cristo de Nazaré foi recentemente formalmente notificado pelas associações comerciais do ramo, as quais exigem que ele cesse e desista do que elas acusam ser operação ilegal de compartilhamento de alimentos nos termos da Lei Anti-Réplica do Milênio do Milagre (MMAA).

Rabis fazedores de milagres como o Sr. Cristo, e suas alegadas infringências dos direitos de propriedade, têm sido centro de controvérsia em anos recentes. São objeto de campanha de educação do público pela Associação dos Produtores de Alimentos de Galileia e Judeia. Os produtores de pães e peixes argumentam que reprodução não autorizada de alimentos, visto privarem-nos de receita à qual têm direito, equivalem a furto. Rabis solidários, em sinagogas Palestina a fora, estão lendo anúncios do serviço público FPAGJ, visantes a contraporem-se a percepções do público de que “todo mundo faz” e “é coisa de somenos importância,” a seus rebanhos:  “Padeiros e pescadores não merecem ser pagos?”  Muitas escolas de Torá adotaram os cursos FPAGJ “contra o furto de comida.”

Em notícias relacionadas, a Associação da Indústria do Vinho da Palestina vem reclamando, em meio a notícias que vêm à tona, que Jesus, em outro ato alegadamente de compartilhamento ilegal, também reproduziu vinho numa festa de casamento em Caná da Galileia.

Juntas de licenciamento de médicos, analogamente, destacam alegadas descrições de testemunhas oculares segundo as quais Jesus andaria praticando medicina sem licença. Essa prática médica não autorizada, de acordo com disseminadas notícias, estendeu-se para alcançar leprosos, aleijados, mancos, cegos, um homem com a mão paralisada, uma mulher com fluxo de sangue, e vítimas diversas de possessão demoníaca. A área médica denuncia as ações de Jesus como competição desleal. De acordo com porta-voz da Associação Médica da Galileia, “não é justo esperar que um médico licenciado que despendeu anos como aluno e que tem de pagar as despesas gerais do espaço do consultório tenha de competir com um carpinteiro que simplesmente move as mãos e cura as pessoas gratuitamente.”

Embora a Guilda dos Embalsamadores também tenha reclamado de rumores de ressurreição dos mortos, especialistas legais dizem não haver lei vigente definindo essa atividade, especificamente, como ofensa criminal.

Por outro lado, pequeno mas crescente movimento de oposição à propriedade gustativa perfila-se contra a rotulação de “pirataria”. Argumenta que copiar alimentos, atividade intrinsecamente sem caráter de competitividade, não é furto; sendo o recente alimento novo reproduzido criado ex nihilo, não há diminuição do estoque de alimentos de ninguém. O pescador Simão Filho de Jonas da Galileia e seu irmão André concordam. “Em vez de tentar suprimir a competição, a indústria pesqueira deveria substituir seu modelo arcaico de negócios. Há oportunidades disponíveis para quem estiver disposto a inovar. Nós não perdemos um só denário por causa do compartilhamento de alimentos procedido por Jesus.”

As autoridades, porém, não vêm aceitando essa argumentação. Pôncio Pilatos, Procurador da Judeia, anunciou recentemente planos de repressão a piratas da propriedade gustativa tais como Jesus. “Se você acha que eu vou lavar as mãos em relação a esse tal de Jesus, pobre dele, pense de novo. Reproduzir pães, peixes e vinho é furtar, do mesmo modo que fazer arrastão na loja Macy’s de departamentos. Trata-se de assunto importantíssimo.”

Próxima semana:  Johann Gutenberg, compartilhador não autorizado de livros.

O Associado de Pesquisa do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos de Economia Política Mutualista, Teoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Um Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P e seu próprio Blog Mutualista.

A Hiperinflação Iminente

quarta-feira, outubro 12th, 2011

http://c4ss.org/content/7771

A Hiperinflação Iminente

Afixado por Brad Spangler em 16 de julho de 2011 em Artigos em Destaque

Artigo do convidado Jim Davidson…

Há algum tempo as pessoas vêm prevendo. Agora dá para ver que está acontecendo. E parece que piorará.

Ver gráfico (Fonte: Banco da Reserva Federal de Saint Louis) em

http://c4ss.org/content/7771

Atuando na crise financeira de 2009, a Reserva Federal começou a criar dinheiro rapidamente. O gráfico acima ilustra três esforços distinto de política para aumentar drasticamente a “base monetária.” (O que não é mostrado é a medida L de liquidez que se tornou opaca no final do último milênio, nem a medida monetária mais ampla, suprimento de moeda M3, que foi tornada opaca em 2006 – porque a Fed apenas mente acerca de transparência.)

Vocês podem ver onde, no início de 2008, a quantidade de dinheiro considerada “base monetária” estava em torno de $800 biliões de dólares. Então ela anda na vertical por algum tempo, atingindo valores substancialmente acima de $1,6 trilião de dólares. Assim, pois, a Reserva Federal mais do que duplicou a base monetária. Creio que ela poderá até ter chamado isso de “flexibilização quantitativa.” Nós costumávamos chamar isso de “desvalorização da moeda” ou “depreciação.”

A próxima fase de atividade foi uma reversão da política, com cortes para retorno a por volta de $1,6 trilião de dólares. Vocês podem ver que o gráfico sobe e desce rapidamente conforme o montante da base monetária é aumentado ou diminuído.

Em seguida o aumento começa de novo para valer. A base monetária é ampliada para bem mais de $2 triliões perto do início de 2010. A cifra dispara para $2,183 triliões, o que é revelado nos dados que ela mostra para o grafo em arquivo separado. Isso foi em 24 de fevereiro de 2010. E, de novo, a coisa pinoteia por algum tempo.

O terceiro aumento começou muito recentemente, com uma série de aumentos de janeiro a abril de 2011 que não deu nenhum sinal de o acelerador deixar de ser apertado até 4 de maio de 2011. Mas então o afogador foi premido de novo até 29 de junho de 2011, quando houve um pequenino retrocesso, totalmente revertido no próximo período relatado, 13 de julho de 2011, e continuou. Assim, estamos assistindo, em realidade, enquanto a conversa parece ser acerca de “se” está ocorrendo uma terceira fase de “flexibilização” ou QE3, pelo menos na mídia noticiosa majoritária distorcedora, há em realidade uma flagrante terceira fase de “flexibilização” ou “inflação” ou “impressão desbragada” em andamento, exatamente neste momento.

Por quê?

Ora bem, poderão vocês perguntar-se, por que a Reserva Federal estará fazendo isso? E a resposta é razoavelmente complicada, mas remonta, acredito, a algo que Andrew Dickson White escreveu a respeito da inflação de moeda fiduciária da França revolucionária. Vale dizer, há muito tempo.

“O primeiro resultado dessa emissão foi aparentemente tudo o que os mais otimistas poderiam desejar: o tesouro foi imediatamente grandemente aliviado; uma parcela da dívida pública foi paga; os credores ficaram estimulados; o crédito renasceu; despesas ordinárias foram pagas e considerável parte desse dinheiro de papel tendo assim sido passado do governo para as mãos das pessoas, o comércio aumentou e todas as dificuldades pareceram esvaecer-se. As ansiedades… as profecias… pareceram comprovar-se totalmente infundadas. E, na verdade, é perfeitamente possível que, se as autoridades nacionais tivessem parado nessa emissão, poucos dos males financeiros que surgiram depois tivessem sido severamente sentidos…. Mas logo veio outro resultado: os tempos ficaram menos fáceis; no final de setembro, cinco meses depois da emissão dos… assignats(*), o governo os havia gasto e estava de novo em apuros. O velho remédio imediata e naturalmente voltou às mentes dos homens… Por todo o país começou clamor por outra emissão de papel; então homens sensatos começaram a lembrar o que seus pais lhes haviam dito acerca da sedutora vereda das emissões de papel-moeda no tempo de John Law, e a lembrar as profecias que eles próprios haviam ouvido no debate acerca da primeira emissão de assignats menos de seis meses antes.” (White, Andrew Dickson, Inflação de Dinheiro Fiduciário na França, Abril de 1876)

(*) O assignat foi moeda da Revolução Francesa, originalmente um título de empréstimo emitido pelo Tesouro em 1789. Ver Wikipedia, ‘Assignat’.

Não havia voltar atrás para a assembleia nacional de França. Ela emitiu assignats até eles ficarem sem valor. A assembleia foi substituída pelo diretório, que começou a chacina para valer, na maior parte de comerciantes que vendiam pão por mais do que decretado na “lei do máximo”. O diretório revogou o assignat e o substituiu pelo mandat, e inflacionou ainda mais. As ruas ficaram rubras de sangue. O povo empobreceu. E Napoleão cavalgou um cavalo branco para chacinar ainda mais pessoas na Europa inteira com sua ânsia de poder.

Suponho haver certa ironia histórica no fato de eu estar escrevendo este ensaio dois dias depois da comemoração nacional da Revolução Francesa, 14 de julho, ou “Dia da Bastilha” como conhecida pelos estadunidenses. Obviamente, não desejo denegrir a importância do levante do povo francês contra seus opressores, marchando contra a fortaleza-prisão da Bastilha, libertando os escravos e prisioneiros políticos mantidos cativos ali por ordem da monarquia e da nobreza (e do magistrado ocasional, de tempos em tempos) geralmente sem o processo devido.

Os estadunidenses poderiam fazer o mesmo. Milhões de estadunidenses são mantidos presos por crimes não violentos. Milhares de estadunidenses e estrangeiros são mantidos presos sem acusação, detidos infindavelmente pelo tirânico sistema político do ditador Obama. A imundície ditatorial do assassínio em massa, Obama, tem autorizado a execução de cidadãos estadunidenses sem julgamento. Ele governa por decreto e vive no luxo enquanto 44,5 milhões de estadunidenses vivem de vales-alimentação, e milhões mais que não têm como se qualificar para receber benefícios sofrem.

O Esmagamento Fracassa

Esforços no passado, porém, para esmagar o estado sempre fracassaram. Sempre foram substituídos por outro homem no cavalo branco, outro ditador. Por que, então, aborrecer-nos?

Algumas pessoas acham que desejam a ordem que o estado oferece. Quando veem ataques contra o estado, esforços para esmagá-lo, veem-nos como razões para fortalecer o estado. Assim, tentativas de esmagar o estado amiúde tornam as coisas piores.

Esforços para esmagar o estado geralmente fracassam — o número de rebeliões fracassadas na história supera em muito o número de revoluções bem-sucedidas. Suponham, entretanto, que vocês sejam bem-sucedidos. Eis aqui o novo chefe, igual ao antigo chefe.

O que quer que vocês criem que seja forte o bastante para destruir o estado que oprime vocês será mais forte do que tal estado. E portanto despertará o desejo daqueles que buscam oprimir o próximo, seja a turma antiga usando novas frases para esconder seus pontos de vista, seja uma turma nova. Outra e outra vez, ao longo da história, vemos pessoas construindo algo forte o bastante para resistir à tirania e verificando isso ter sido pervertido, mais cedo ou mais tarde, tornando-se algo ainda pior.

Os gregos formaram ligas para resistir a Xerxes e esfacelaram sua sociedade poucas décadas depois nas guerras do Peloponeso. As mesmas ligas que eles formaram transformaram-se em tirania sobre suas cidades-estados. Os estadunidenses formaram um governo continental para expelir a Grã-Bretanha. Ele se transformou na constituição que autorizou toda a tirania da qual hoje sofremos, ou foi impotente para impedir qualquer parte dela. (Creio que a primeira hipótese é a verdadeira, e de propósito.)

Se quisermos evitar os mesmos equívocos, outra e outra e outra e outra vez, é importante compreender o que aconteceu antes. Eis porque é tão importante ler obras de literatura, filosofia e política prática no original. Não há como compreender as coisas lendo a interpretação de ideias por outra pessoa — o que foi interpretado há dez minutos por outra pessoa não servirá para a sua situação neste momento.

Promovam os livres mercados. Promovam a ordem espontânea do mercado. Promovam o ágora. Não para esmagar o estado, mas para esvaziá-lo. Não para mostrá-lo como vítima, assim estimulando seus partidários a dar-lhe mais poder, e sim para revelá-lo como espezinhador dos mais fracos. Mostrem as providências excessivas(*) do estado como realmente são, de tal maneira que as pessoas optem por abandoná-las.

(*) A expressão ‘surplus order’ significa, literalmente, encomenda adicional ou encomenda excessiva. Denota, pois, uma das duas: ou algo que se encomenda em excesso ou, também, algo que se encomenda adicionalmente porque o estoque do que se encomendou originalmente já se acabou ou está-se acabando. A palavra ‘surplus’ significa, no caso, ‘a quantidade que resta quando o uso ou a necessidade são satisfeitos’, e a palavra ‘order’ significa ‘bens comprados ou vendidos’ – ver Merriam-Webster.

O que quero dizer com providências excessivas? Exatamente o que Alvin e Heidi Toffler quiseram dizer em Mudança de Poder: Riqueza, Conhecimento e Violência à beira do Século 21. Quiseram dizer distinguir entre as providências que as pessoas comuns querem — poderem andar pela rua sem ser atacadas pela polícia de choque, cruzar uma fronteira sem ser espancadas e presas, entrar numa loja sem ser estupradas, gerir uma loja sem ser vítimas de furtos de artigos. Essa espécie de providências básicas são as providências proporcionadas pelo livre mercado, e quedam amplamente disponíveis.

As providências excessivas impõem a polícia de choque sempre que houver manifestantes, polícia de fronteira em toda passagem de fronteira, uma câmera de segurança em todo banheiro, uma rede de vigilância em todo telefonema. As providências excessivas ocorrem quando o estado revoga passaportes, erige uma barricada em todo aeroporto e estação de trem, abre portas com pontapés às 3 da madrugada e arrasta pais para longe de crianças que choram aos berros. Tais providências em nada contribuem para o bem das pessoas que vivem em comunidades. Servem apenas àqueles que controlam o estado.

Retirada: Vitória Épica

Em 1999 o Serviço de Arrecadação Tributária – IRS foi chamado à ordem pelo Congresso. Durante as audiências no Congresso acerca de brutalidade e abuso do poder, o IRS foi chamado a justificar seus violentos ataques contra indivíduos e propriedades privadas.

Uma das respostas que deu foi que, de seu ponto de vista, cerca de sessenta milhões de estadunidenses que “deveriam” estar preenchendo documentos de tributação todo ano não estavam. À época, acredito que existiam 280 milhões de estadunidenses na opinião do governo, e talvez 220 milhões desses seriam adultos. Calculemos que 20 milhões não devessem apresentar declaração por diversos motivos, tais como serem idosos ou estarem em hospitais ou em prisões ou o que seja. Restariam assim 200 milhões que deveriam preencher declarações, dos quais 30% não as estavam apresentando.

As cifras hoje são, na verdade, maiores em termos de não preenchimento. O último número que vi acerca de preenchimento por adultos referia-se a abril de 2010, e era de 127 milhões de estadunidenses apresentando documentos de tributação, inclusive os em atraso. Com isso restam 182 milhões não preenchendo, inclusive menores de 18 anos, alguns dos quais não têm emprego.

Então chegamos à votação. Em novembro de 2010 apenas cerca de 86,8 milhões de estadunidenses votaram. Esses resultados são resumidos abaixo:

[Por favor veja o link no original, em http://c4ss.org/content/7771 porque se inserido aqui ele por algum motivo distorce a tabela, alargando-a.]

Notem que os votos contados podem não ser os votos realmente colocados nas urnas, devido à disseminada corrupção em praticamente todo condado dos Estados Unidos no tocante a contagem de votos. Entretanto, podemos assumir que o número de votos contados inclui vários votos inventados pelas acima mencionadas asquerosas corruptas venais violentas detestáveis brutais parasitárias autoridades do governo do condado. Assim, se elas destruírem aproximadamente o mesmo número de votos que inventaram, o total líquido poderá ficar muito próximo.

Por favor observem diversas coisas a partir daquele gráfico. Primeiro, o Partido Libertário, mesmo com seu inepto capítulo da Flórida incapaz de inscrever um único candidato para a câmara dos deputados no Congresso em nome do Partido Libertário (eles de algum modo entraram na disputa para o senado dos Estados Unidos – os Whigs e o Tea Party inscreveram candidatos na Flórida, mas não o Partido Libertário), é o partido isoladamente considerado com maior votação fora as duas partes do “partido da bota em seu pescoço”(*) como meu velho amigo Kerry Pearson (Lex Lucre) que descanse em paz costumava chamá-lo. Notem que conseguiu mais de um milhão de votos, e mais de duas vezes o conseguido pelo partido identificável seguinte. Os candidatos chamados “independentes” não representam um só partido, e sim muitos pontos de vista.

(*) Os Partidos Republicano e Democrático são chamados de as duas partes do Partido da Bota em seu Pescoço. Ver por exemplo http://www.scottbieser.com/BOYN.html

Segundo, notem por favor que houve mais de 3,3 milhões de votos dados a candidatos sem o nome impresso, candidados do Partido Libertário, e outros candidatos de terceiros partidos. Cerca de 4% daqueles que se importam com votar não acham que os dois maiores partidos representam seus interesses adequadamente.

Terceiro, ao se lembrarem de que todos os assentos da Câmara dos Deputados nacional estavam em disputa em novembro de 2010, por favor observem terem sido colocados nas urnas apenas 86,8 milhões de votos. O que significa que apenas cerca de 28% da população humana dos Estados Unidos votou em novembro de 2010. Ora bem, sem dúvida 75 milhões eram menores de 18 anos não qualificados por causa da idade, devido às viciosas políticas de discriminação de idade do governo. E outro milhão ou por aí é de atualmente encarcerados por condenação por crime grave. A maioria dos condenados no passado por crime grave em verdade pode votar, mas muitos desses não podem. Essa cifra pode ser tão alta quanto 30 milhões de adultos, a propósito – a subclasse criada pela guerra contra as drogas e a assim chamada guerra contra o “crime”.

Como quer que contados, 147 milhões de estadunidenses não votaram em novembro de 2010. O que significa que o sistema já inclui muitos que já desistiram, que não acham que o sistema os representa, que não acham que votar dará qualquer resultado.

Acredito que essa não participação e não obediência provavelmente aumentará no decorrer do tempo. As vantagens de obedecer parecem ser muito poucas, e a punição por cometer equívocos mesmo triviais em formulários de tributos é o próprio inferno. À medida que mais pessoas concluem preferir ser empreiteiros privados em vez de empregados, e à medida que mais empresas concordam em reduzir sua papelada mediante contratar em vez de empregar (e também reduzir suas obrigações tributárias de folha de pagamento e muitos outros custos) haverá uma minoria cada vez menor envolvida no “sistema” como indivíduos cumpridores de obrigações.

Verdade, a vasta maioria dessas pessoas realmente não se importa com o que Voltairine de Cleyre escreveu, nem leu jamais uma única palavra dela. Mas e daí?

Se você quer ter uma civilização, deve começar a erigir uma, agora. Ou, como disse Gandhi, quando lhe perguntaram o que ele achava da civilização ocidental: “Seria uma boa ideia.”

Tenho pensado acerca de algo que ouvi recentemente, atribuído a Benjamin Tucker, se me lembro. Diz que riqueza furtada da boca do trabalhador tem sido, em sua maioria, furtada por usurários. E tenho pensado em como isso é basicamente verdade, embora considerável riqueza tenha sido também furtada da boca do capital, dessa maneira, também. Trabalho e capital estão restritos a certos mercados, a certas fontes de financiamento.

Por que há uma Bolsa de Valores de Nova Iorque e não uma Bolsa de Valores de Atlanta? Por que não há uma bolsa de valores em toda cidadezinha e vila? Por que não há uma proliferação de sistemas monetários de livre mercado e serviços bancários de livre mercado?

A resposta é que os monopolistas usam o poder do estado para atacar e destruir qualquer pessoa como o Dr. Doug Jackson, MD, ou Bernard von NotHaus, ou muitos outros que eu poderia mencionar pelo nome, por ousarem desafiar o monopólio do estado de poder de emitir moeda, ou ousar desafiar o licenciamento, pelo estado, de certas empresas bancárias corruptas.

A maneira de reduzir o pedágio da usura não é atacá-la e proibi-la — isso nunca funciona. A resposta é eliminar os privilégios que levam a ela, tornam-na prevalente, e permitir que a competição reduza o valor dos serviços financeiros a um preço de equilíbrio. Dado quantas pessoas conhecem aritmética, esse preço deveria ser muito baixo.

Há muitos meios de furtar apoio. Um é parar de apoiar as próprias empresas e áreas, como a bancária, como a de transportes aéreos, que têm corrompido o governo para monopolizar sua linha de trabalho. Tirem seu dinheiro dos bancos, comprem ouro e prata em vez disso. Parem de usar cartões de crédito e dinheiro sob forma de cheques, e usem dinheiro vivo, ou escambo de dinheiro em mercadorias sempre que possível. Parem de viajar usando companhias aéreas — se tiverem tempo para desperdiçar, viajem de avião(*). Vocês ainda poderão voar, mas usem avião privado, ou contratem um piloto privado, privadamente.

(*) Óbvia alusão a como os passageiros são tratados nos aeroportos, submetidos a toda sorte de controles e humilhações, com enorme desperdício de tempo. Ver por exemplo http://ourkidd.hubpages.com/hub/If-you-Have-Time-to-Spare-Go-By-Air

Os empresários, benditos sejam, continuam desenvolvendo novas alternativas ao poder de emissão de moeda do governo. Muitas delas estão disponíveis hoje. Algum trabalho com software de criptografia muito eficaz — e se vocês quiserem evitar responder a perguntas difíceis, realmente deveriam aprender a manter seus assuntos financeiros no âmbito privado.

Não gostam das opções oferecidas? Tragam a sua. Horas Ithaca, ações Berk e outras moedas locais já foram inventadas por diversas pessoas para atenderem a diferentes necessidades.

A última coisa que você deseja é encontrar uma resposta que sirva para todo mundo, porque isso criaria um problema de centralização. Se você não acha que centralizar seja má ideia, veja quanto ouro e prata foram furtados do e-gold e da Liberty Dollar em 2007 e voltem ao assunto comigo a respeito.

Do que mais vocês podem se retirar? Lâmpadas incandescentes vêm sendo feitas com muitos materiais diferentes desde 1804. As tecnologias envolvidas incluem insuflação de vidro e soldagem. Não exatamente coisas complicadas. Talvez alguém de sua vizinhança possa ajudar você com lâmpadas que não beneficiem a General Electric, uma da maiores e mais detestáveis empreiteiras de defesa (também conhecidas como mercadoras da morte).

A eletricidade pode ser feita de muitas maneiras. Por que você está na rede elétrica? Você está na rede elétrica porque é barato e fácil ficar nela, por enquanto. Considere, porém, suplementar-se com outras fontes  — gerador diesel, células solares, moinho de vento, motor a vapor com combustão de madeira. Ser dependente de um monopólio concedido pelo governo com uma burocracia e algumas grandes usinas de energia poderá não ser a melhor maneira de sobreviver. Você provavelmente já tem suprimentos de emergência para luz e aquecimento se o sistema falhar durante uma tempestade de gelo ou algum outro desastre. Continue por esse caminho rumo a ganhar independência dos monopolistas.

Todo mundo tem escolhas a fazer. Você não tem de sair da rede elétrica, e poderá ter excelentes motivos para não fazê-lo. Você não tem de sair do sistema bancário, e poderá ter ótimas ideias acerca do que fazer utilizando-o. Quanto mais porém você trabalhar para retirar seu apoio aos licenciados e às pessoas que obtêm o benefício de contratos do governo corruptamente alocados e de leis especiais para levantar barreiras à entrada em determinados mercados, melhor.

O agorismo é uma filosofia baseada no mercado — da palavra grega “ágora” significando mercado. Há alguma semanas, inventei um retroacrônimo para enfatizar certas partes dessa filosofia: Arredado do Governo e Operando em Realista, Individualista e Sensato MercadO. AGORISMO.

Cogite de um laptop de raiz criptografada para seus registros de negócios. Cogite de uma rede de privacidade virtual para surfar pela web. Cogite de criptografar emails, especialmente acerca de decisões de negócios. Cogite de ser seu próprio patrão. Pense em maneiras de sair da rede elétrica, de evitar usar seus documentos de identidade, de trabalhar com pessoas que conhecem você e confiam em você e não precisam que você preencha um documento W4 ou faça cópia de seus documentos de identidade.

A vida que você salvar poderá ser a sua própria. Poderá valer a pena viver na civilização que você ajudar a erigir.

Brad Spangler é o Diretor do Centro por uma Sociedade sem Estado.

Um Pouco de Imagem Invertida de Jeffrey Sachs

domingo, outubro 9th, 2011

http://c4ss.org/content/7923

Um Pouco de Imagem Invertida de Jeffrey Sachs

Kevin A. Carson

Afixado por Kevin Carson em 28 de julho de 2011 em Commentary

Num artigo no Huffington Post o economista e no passado caxias da política neoliberal Jeffrey Sachs (“O Engodo Orçamentário e o Declínio dos Estados Unidos,” 23 de julho) reclama das vezes em que Obama deixou-se dobrar — e também reclama pelo mesmo motivo de outros Democratas do establishement — pelos Republicanos.

“Nos Estados Unidos, estadunidenses super-ricos levaram a melhor sem esforço. Nosso país é gerido por milionários e bilionários e, para milionários e bilionários, o resto do país que se dane.”  O país é de propriedade de “os ricos e as corporações multinacionais.”

Ele acusa os Democratas (“o Partido Democrático de propriedade de Wall Street”) de conluio para criar esse estado de coisas. Ele vem sendo o partido dos bancos desde que “o moderno Partido Democrático foi recriado por Bill Clinton e Robert Rubin.”

Sachs também menciona, utilmente, que “viajo pelo mundo como parte de meu trabalho…” De fato. Hoje em dia ele se engaja em viagens de ricaços pelo mundo com pessoas “progressistas” como Bono (que, aliás, já deixou claras suas credenciais “progressistas” ao destacar a censura chinesa à Internet como modelo a ser usado pelos nazistas do copyright da Associação da Indústria de Gravação dos Estados Unidos/Associação Cinematográfica dos Estados Unidos para suprimir o movimento de compartilhamento de arquivos).

Sem embargo, algumas das viagens mais antigas do Sr. Sachs, lá nos anos noventa, envolveram facilitar a entrega da Rússia a exatamente o mesmo tipo de cleptocracia de quadrilhas bancárias do qual ele agora reclama em relação aos Estados Unidos. Na verdade, ele pressionava no sentido dos mesmos tipos de “reforma de livre mercado” neoliberal na Rússia que o supramencionado Bob Rubin ajudou Clinton a forçar dentro dos Estados Unidos.

E tenhamos em mente que aquilo que Sachs fez cessar era, plausivelmente, muito mais crível como política de genuíno livre mercado do que aquilo que ele colocou em seu lugar. O programa de privatização de Gorbachev envolvia converter a indústria estatal em cooperativas de trabalhadores autogeridas, em algo como o modelo de socialismo de mercado iugoslavo. E, na Polônia, o Solidariedade estava fazendo pressão pela reorganização da indústria estatal ao longo de linhas similares de cooperativas, administradas pelos sindicatos na forma de um modelo sindicalista. Era o modelo de Rothbard para privatizar a indústria estatal em países anteriormente de socialismo de estado: tratar a propriedade do estado como sem dono e deixar os trabalhadores que efetivamente a usavam tomar posse dela. Esse era o modelo proposto por David Ellermann, à época no Banco Mundial.

Sachs não acatou nenhuma dessas propostas daqueles que desqualificou como “imbecis da autogerência.”  O que ele queria era “capitalismo normal” segundo o modelo corporativo estadunidense, com um mercado de ações e pencas de mestres em administração de empresas empregados para despojar haveres, reduzir capital humano e presentearem-se a si próprios com multimilhões de bônus em rublos.

De acordo com Naomi Klein, em A Doutrina do Choque, a “privatização” levada a efeito por Yeltsin, sob a benévola supervisão do Sr. Sachs, teve lugar desta forma:  Os ministros de estado russos transferiram enormes fundos públicos para bancos de propriedade dos oligarcas — eles próprios figuras de proa do estado e da antiga liderança do Partido Comunista. Os bancos dos oligarcas, por sua vez, conduziram os leilões de privatização da indústria estatal — e eles próprios ofereceram os lances, usando os fundos apropriados fraudulentamente recebidos do governo. Klein referiu-se a isso como “a mineração predatória a céu aberto de um estado industrializado.” Isso, aliás — e a suspensão pela força, por Yeltsin, e seu governo por decreto — deixou amplamente de ser mencionado pelos mesmos indivíduos que atualmente guincham a propósito do autoritarismo de Putin. A diferença é que Yeltsin era o capanga deles.

Em suma, depois da queda da Cortina de Ferro, Jeffrey Sachs ajudou a fazer com o povo do antigo bloco soviético o que Pinochet havia feito ao Chile. As pessoas tiveram sua revolução roubada de sob elas por Sachs e os de sua laia.

É engraçado como certos “Progressistas” conseguem ser bem progressistas principalmente antes de serem postos no poder (como o Sr. Esperança e Mudança em 2008), ou depois de saírem dali (Sr. Sachs) — e não quando efetivamente estão no poder. Geleia ontem e geleia amanhã(*) — mas nunca geleia hoje. Engraçado, o efeito que o poder parece ter sobre os ideais “progressistas” dos que o detêm.

(*) A expressão em inglês é jam tomorrow, ‘geleia amanhã’, significando promessa nunca cumprida. Vem de Lewis Carroll, ‘Através do Espelho e o que Alice Encontrou Ali’. A rainha diz a Alice que, por dois centavos, ela teria geleia um dia sim, um dia não. E isso seria feito da seguinte maneira: geleia ontem, e geleia amanhã. Com isso, ter geleia hoje quebraria a regra de a geleia só estar disponível um dia sim, um dia não, e portanto geleia hoje seria sempre impossível. Ver Wikipedia, ‘Jam tomorrow’.

A gente quase começa a desconfiar ser impossível conseguir qualquer coisa progressista por meio do exercício do poder estatal.

O Associado de Pesquisa do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos de Economia Política Mutualista, Teoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Um Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P e seu próprio Blog Mutualista.

Nossa Instituição Militar Corporativa

quarta-feira, outubro 5th, 2011

Afixado por Kevin Carson em 20 de junho de 2011 em Comentário

Nicholas Kristoff, num artigo opinativo do New York Times (“Nossa Instituição Militar Esquerdinha,” 16 de junho), louva o “etos espantosamente liberal” que prevalece internamente à instituição militar — seguro-saúde de caixa único, segurança no emprego, oportunidades educacionais, creche grátis para crianças — em apoio à descrição que dela faz o General Wesley Clark- “a mais pura aplicação de socialismo que existe.”

Para mim — declarado socialista libertário, bem como anarquista de mercado — pelo menos dois erros palmares se distinguem aqui. Primeiro, quando penso em “socialismo” penso em todas as coisas libertadoras originalmente associadas a esse termo desde os dias do começo da classe trabalhadora e do movimento socialista clássico no século dezenove: Fortalecimento do poder da classe trabalhadora, controle da produção pelos trabalhadores e todo o resto. Tanto quanto eu saiba, a instituição militar dos Estados Unidos não está organizada como uma cooperativa de trabalhadores, com soldados rasos elegendo os oficiais, gerindo o próprio trabalho ou votando se ir ou não à guerra. Obedecer a ordens de um chefe “porque eu disse” não é minha ideia de socialismo.

Segundo, a principal missão externa da instituição militar dos Estados Unidos é manter o mundo — ou antes os suínos corporativos que asseveram ser donos dele — a salvo de qualquer coisa que remotamente se assemelhe a fortalecimento do poder dos trabalhadores. Para mim, isso é bastante não-socialista. Nos últimos sessenta e quantos anos desde a Segunda Guerra Mundial (bem mais, em realidade), o foco primário da política de segurança nacional dos Estados Unidos tem sido o de proteger oligarcas latifundiários feudais da reforma agrária, proteger corporações de propriedade ocidental de nacionalização, atuar como coletor de última instância da loja do patrão conhecida como Banco Mundial, e dar poder ao draconiano protecionismo da “propriedade intelectual” que é o baluarte central do poder corporativo mundial nos dias de hoje. A missão primordial da instituição militar “socialista” de Kristoff é manter o mundo firmemente nas mãos de seus soberanos corporativos.

Fora isso, acho que Kristoff entende a coisa exatamente ao contrário: A instituição militar estadunidense é quase uma paródia da cultura corporativa estadunidense. Está eivada de hierarquia, com regras burocráticas de trabalho tayloristas/weberianas e procedimentos operacionais padronizados, e toda a irracionalidade que os acompanha. A única diferença é, os chefes incompetentes usam tipo diferente de uniforme. Se vocês alguma vez assistiram ao filme “Brazil,” ou leem Dilbert regularmente, pegaram a ideia.

Kristoff tem um ponto a seu favor: As diferenças de remuneração entre trabalhadores de produção e gerência superior são muito menores na instituição militar do que nos Estados Unidos Corporativos de hoje em dia. Isso, contudo, apenas significa que a instituição militar está mais estruturada de acordo com as linhas do capitalismo burocrático do velho estilo do “Homem Que Se Identifica Completamente Com a Organização” dos anos sessenta (como descrito por J.K. Galbraith), onde os salários do Chefe Executivo Principal eram normalmente apenas cinquenta vezes o de um trabalhador de produção, em vez do atual modelo patológico do capitalismo desenfreado onde é mais de quinhentas vezes.

A instituição militar, do mesmo modo que a grande corporação, é assolada por altos custos gerais (o custo de treinar um soldado), e dispêndios de capital em haveres de longo prazo sujeitos a depreciação envolvendo enormes desperdícios. A instituição militar, do mesmo modo que uma corporação oligopolista, pode dar-se ao luxo de ser tão desperdiçadora porque não recai sobre ela o custo total de suas próprias atividades.

O sistema de contabilidade gerencial prevalecente nos Estados Unidos Corporativos, inventado há quase um século por Donaldson Brown, da DuPont e da GM, equaliza consumo de insumos com criação de valor. Vocês sabem, como na economia centralizadamente planejada da União Soviética. Custos administrativos tais como salários da gerência, juntamente com desperdiçadores desembolsos de capital em haveres de longo prazo sujeitos a depreciação, são incorporados — por meio da prática conhecida como “absorção de despesas gerais” — ao preço de transferência dos bens “vendidos” ao estoque. E, num mercado oligopolizado, a corporação consegue repassar esses custos — mais uma margem estipulada de lucro — ao consumidor por meio de preços administrados. A instituição compartilha desse sistema de preços, com seus incentivos para maximizar custos (Paul Goodman chamou-o de “o grande reino do custo acrescido de margem”). Vocês já ouviram falar daqueles vasos sanitários de $600 dólares? Só que no caso da instituição militar os preços administrados são chamados de “tributação.”

Em suma, a instituição militar, do mesmo modo que a grande corporação, é uma instituição gigantesca, burocrática, irracional e autoritária que só consegue viver por meio do parasitismo — tornado possível graças ao estado — em relação à classe trabalhadora.

O Associado de Pesquisa do C4SS Kevin Carson é autor mutualista contemporâneo e anarquista individualista cuja obra escrita inclui Estudos de Economia Política Mutualista, Teoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Um Manifesto de Baixos Custos Gerais, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P e seu próprio Blog Mutualista.

Contraste entre Estratégias Políticas e Apolíticas

segunda-feira, outubro 3rd, 2011

http://c4ss.org/content/7332

Afixado por Anna Morgenstern em 5 de junho de 2011 em Artigos em Destaque

O problema de qualquer tipo de ideologia “política” é ser formado em grande parte de uma “lista de itens” de proposta de temas específicos. Isso é verdade haja ou não uma ideia subjacente coerente por trás desses temas.

Examinemos primeiro o bode expiatório favorito de muitas pessoas, o “libertarismo”. O problema, como algum dos esquerdoides mais sagazes já argumentaram, é que a classe dominante vasculhará a tal lista de itens e lançará seu peso em favor das partes dela que fortaleçam sua posição, desprezando o resto, tornando assim o libertarismo uma forma menos socialmente agressiva de conservadorismo.

“Impostos mais baixos?”
Não há problema, reduzamos os impostos dos ricos.

“Menos regulamentação?”
Bem, removamos a regulamentação que contraria o poder corporativo, mas não qualquer outra (ver: Enron).

“Legalizar drogas?”
De jeito nenhum, chefe.

O que, porém, não é claramente entendido é que isso é também verdade do “liberalismo” e da assim chamada “democracia social” ou “socialismo democrático” ou o que mais seja. O moderno “liberalismo” estadunidense é simplesmente Corporatismo(*) de Massa com esteroides. É puro burocratismo. Você joga limpo e segue as regras e se você for excelente burro de carga ganhará dinheiro, mas não demais, a menos que se torne alguém da panelinha. Sob certos aspectos é uma versão um pouco menos severa de Corporatismo, mas da qual muito mais difícil evadir-se ou escapar. Os conservadores dão a você mais oportunidade de fazer as suas próprias coisas, mas também acabam com sua vida se você falhar.

(*) Ver Wikipedia em inglês, Corporatism e, dali, também o texto em outras línguas, inclusive Português.

Não há ideologia política que consiga escapar desse processo de cooptação levado a efeito pela classe dominante. O que levou a um princípio chamado Lei Férrea da Oligarquia o qual afirma que toda forma de organização política termina tornando-se uma oligarquia. Acredito isso ser verdade de qualquer estrutura política, mas não necessariamente de toda estrutura social.

Em contraste, ser renegado, anarquista, agorista ou sindicalista é bem diferente. É o que chamo de ideologias  “antipolíticas” ou “apolíticas.” Nesses esquemas a classe não dominante assume a tarefa de criar sua própria subsociedade que funciona fora da superestrutura político-econômica, em vez de tentar influenciar aquela superestrutura. Isso, naturalmente, leva a conflito nas margens o qual, até que seja alcançada certa massa crítica, requer dissimulação e evasão em relação à estrutura autoritária.

À medida que a superestrutura torna-se mais avançada e integrada, o conflito direto torna-se, ao longo do tempo, cada vez menos eficaz. Assim, em certo sentido, todas as ideologias “políticas” são o baluarte, as forças da linha de frente, da oligarquia da classe dominante. A era das greves de massa acabou-se depois da Primeira Guerra Mundial, nos Estados Unidos, e dos anos 1960, na Europa. Há, porém, formas de ação direta que sutilmente as substituíram, nas quais trabalhadores e autônomos tomam de volta da oligarquia sua mais-valia.

A reação tem sido o projeto de guerra-terceirização, no qual a classe dominante devasta os estados periféricos e em seguida implacavelmente explora a classe trabalhadora sobrevivente ali. Para conseguir isso é que foram planejadas a “guerra fria” e, agora, a “guerra contra o terror.” Orwell previu muito bem essa faceta das coisas em seu livro 1984. Quanto aos estados centrais, pão e circo ou soma, impedir que a população resvale para as zonas cinzentas e mantê-la apoiando a oligarquia. Huxley, em seu livro Admirável Mundo Novo, previu muito bem essa faceta das coisas.

O problema da classe dominante é que ela de fato não tem como manter esse estado de coisas para sempre. Nós a estamos fazendo sangrar, e ela está comendo suas próprias matérias primas para manter uma ineficiente economia oligárquica. Esse é o motivo de a ideologia do “verde” ter-se tornado popular nos últimos tempos. A classe dominante usa o medo da destruição ambiental para suprimir o consumo da classe trabalhadora(*), o que lhe permite “sustentar” a hegemonia corporativa. O medo de destruição ambiental tem base na realidade, mas é a própria oligarquia estado-corporação quem está causando a destruição. Ela usa os conservadores como forma de distrair a atenção, ao estes defenderem uma posição cômica e irresponsável “antiambiental” que ajuda a impelir a porção mais sensata da população para o arraial “pró-ambiental.”

(*) Ver o comentário, abaixo do original, de Misteriousness Al, que começa dizendo: ‘Os produtos verdes ou são mais caros ou em realidade dão à corporação controle estável sobre o movimento verde ao afastá-lo de ideias revolucionárias, trazendo-o para o consumo. …’

A máscara da liberdade política e/ou da justiça está começando a exibir rachaduras em demasia. A classe dominante é forçada a agir cada vez mais aberta e diretamente para manter em andamento os pratos girando no ar, na medida em que as ineficiências e crises inerentes a grandes sistemas hierárquicos começam a ocorrer mais amiúde. O que impele mais pessoas para a zona cinzenta, para várias teorias de renegados (inclusive a do simples “não dou a menor bola-ismo). Isso cria mais crises para a classe dominante — faça espuma, enxágue e repita. A pergunta que se coloca diante de nós é se ela conseguirá recompor-se depois do colapso.

Tomar uma Rússia e acabar com ela, fazendo o colapso funcionar como “válvula de escape” de sua ineficiência estrutural e voltar à cena em forma levemente menos totalitária, mas não menos autoritária… ou talvez a China, equilibrando gradualmente a liberdade econômica para alguns com a hegemonia cultural sobre todas. Essas duas nações representam, talvez, experimentos para a classe dominante.

Nós renegados precisamos encontrar-nos mutuamente e fortalecer nossas próprias sociedades não políticas, a despeito de nossas diferenças de opinião, se tivermos a esperança de oferecer alternativa melhor do que esses experimentos.

A Escritora Colaboradora do C4SS Anna O. Morgenstern é anarquista de uma ou outra espécie há quase 30 anos. Os interesses intelectuais delas são história econômica, psicologia social e teoria da organização voluntária. Ela gosta de piñas coladas, mas não de ser apanhada pela chuva.

Réplica de Carson a Gregory

terça-feira, setembro 27th, 2011

http://c4ss.org/content/8197

Afixado por Kevin Carson em 30 de agosto de 2011 em Commentary

Permitam-me começar dizendo que sou, de longa data, admirador dos escritos de Anthony Gregory, e estou tão surpreso quanto ele com o fato disto ter-se transformado em desacordo de maiores proporções. Francamente, dadas nossas consideráveis áreas de acordo, é-me difícil imaginar por que meu texto de comentário (“Corporações são Pessoas? Hitler Também Era”) o terá acionado.

A primeira objeção de Gregory, em “Contra Kevin Carson,” é a minha asserção de que os lucros das grandes corporações são desproporcionalmente o resultado de trocas desiguais forçadas pelo estado (monopólios, direitos artificiais de propriedade, barreiras à entrada no mercado etc.).

De imediato, Carson assume a premissa de que os lucros corporativos geralmente resultam de “trocas desiguais forçadas pelo estado.” Certamente trabalhadores e consumidores amiúde enfrentam ônus impostos pelo estado que reduzem suas probabilidades de trocas otimamente benéficas. Significará isso, porém, que os autores dos lucros corporativos beneficiam-se a expensas deles? Não será possível para ambos os lados até em uma transação “desigual” ficarem em pior situação, na margem, por causa do envolvimento do estado, e no entanto ficarem em situação melhor por haver sido feita a troca?

Na maioria dos casos, contudo, não acho ser questão de “ambos os lados” ficarem em pior situação como resultado de intervenção do estado. No caso das corporações dominantes em nossa economia, elas ficam em melhor situação do que teriam ficado numa troca numa economia de livre mercado. Um rent, por definição, é a diferença entre o preço que teria sido incentivo suficiente para o vendedor levar um bem ao mercado e o preço que o consumidor ainda estivesse disposto a pagar pela utilidade líquida de receber o bem. Por definição esse rent, quando resulte de escassez ou barreiras à entrada no mercado forçadas/feitas valer pelo estado tem natureza de exploração.

O que dizer dos muitos empresários que lucram em certo ano e têm grandes prejuízos no outro? Foi a expensas deles que consumidores e trabalhadores tiveram lucro?

Não estou seguro acerca de que relevância terão esses empresários para minha coluna. Não contesto por um minuto haver empresários genuínos no setor competitivo da economia. O que eles têm a ver com a gestão das corporações gigantescas envolvidas nos preços administrados, nos mercados de oligopólio onde duas ou três empresas controlam metade do mercado — e cujo padrão está usualmente mais próximo de enormes lucros em determinado ano, grandes lucros no ano seguinte, e redução de impostos no seguinte — não está claro para mim.

Aqui tenho de concordar com a visão austríaca segundo a qual se duas partes vêm a fazer negócio, especialmente se ambas saírem satisfeitas, a preferência demonstrada(*) delas é a de que o negócio não foi feito a suas expensas, e sim a bem da melhora geral de sua situação, e isso não deveria ser invalidado por terceiros observadores.

(*) Para a ideia de preferência demonstrada, de Rothbard, e o contraste com a ideia de preferência revelada, de Samuelson ver, por exemplo, http://rationalargumentator.com/Rothbard_demonstratedpreference.html

Bem, com certeza. Pode-se dizer que mesmo o consumidor que compra um produto de um fornecedor monopolista — em base de preferência demonstrada — atribui maior utilidade a engajar-se na transação do que a abster-se dela. Mas essa é toda a questão referente a estar-se numa posição de monopólio: você pode definir o preço num nível tal que o consumidor mal pense na escolha de comprar como preferível à de não comprar — em vez de engajar-se em um mercado competitivo onde o preço tenderá a caminhar rumo ao custo real do fornecimento do bem ou prestação do serviço. Quando alguém compra um copo de água no meio do Saara por $1000 dólares, considera ser essa transação benefício positivo líquido em comparação com morrer de sede — mas e daí? A questão é qual das partes da transação está em posição dominante, e como isso afeta os termos da troca — e os retornos dela para a parte dominante.

E se a demonstração de preferência de uma parte por troca em vez de não troca for suficiente para comprovar que a natureza não é de exploração, sugiro tratar-se de um critério muito rasteiro. Eu, porém, nego que seja suficiente. A exploração, ou privilégio — por definição — é o uso de poder coercitivo para restringir o leque de alternativas disponíveis para uma parte em desvantagem, de tal modo que ela é forçada a escolher uma alternativa muito inferior à que teria estado disponível não fora tal restrição. Quando um consumidor compra um CD ou DVD pagando margem de copyright de 1000% por ser ilegal um competidor reproduzir o conteúdo para venda, o consumidor poderá considerar um positivo líquido pagar a enorme margem em comparação com não ter acesso nenhum àquele conteúdo. Trata-se, entretanto, claramente, de exploração. Um camponês medieval poderia considerar constituir positivo líquido pagar ao senhor da herdade um terço de sua produção como rent em espécie, em troca do acesso à terra, em vez de morrer de inanição. E daí?

Se o fato de o consumidor receber maior utilidade ao se engajar numa transação do que ao não fazê-lo for prova de que uma troca não tem caráter de exploração, então nenhum monopólio na história jamais se qualificou como exploração, por esse padrão. O monopolista engaja-se em segmentação de preços e dumping de maneira a calibrar o preço de acordo com a capacidade de pagamento do consumidor, e este ainda recebe utilidade líquida despojada acima e além do preço que paga(*). Pela própria natureza do monopólio, o monopolista tem de permitir alguma utilidade líquida do comprar em relação ao não comprar a fim de conseguir vender.’

(*) Enrolei-me na tradução mas felizmente o autor veio em meu socorro: ‘It’s the consumer who pays and receives a bare net utility over the price – that’s how monopolist’s targeting pricing works. The monopolist charges as much as possible for it to still be worth it to the consumer to buy.’

Para lucrar com aumentos de produtividade resultantes do progresso tecnológico o monopolista tem de permitir ao consumidor receber pequena parcela daqueles, para fazer com que valha a pena pagar por eles, mesmo em condições de monopólio. Isso significa que o ganho líquido de produtividade tem de ser dividido (digamos) 9-1 em favor do monopolista em vez de o monopolista açambarcar o bolo inteiro — mas o ganho inteiro acabaria indo parar no consumidor se fosse permitido a competição desimpedida socializar os benefícios, nas condições de um livre mercado.

Tipicamente, é verdade, as trocas de trabalhadores e consumidores teriam sido ainda mais frutíferas para eles não fora o estado. Por vezes o estado inclusive cria trabalho cativo e mercados consumidores para as corporações. Contudo, a pura produtividade, mesmo na economia de mercado tolhida, por meio da qual trabalhadores e consumidores melhoraram sua situação ao longo dos anos, mesmo se não tanto quanto deveriam tê-lo feito, pareceria indicar que nem todas as suas interações com as corporações se fazem a expensas deles, liquidamente. Eles poderão beneficiar-se muito menos do que deveriam, por causa do estado, mas seguramente a experiência típica de consumidores ou trabalhadores envolvidos mesmo num sistema corporatista não é uma experiência de vitimização cabal….

Gregory não é o primeiro a suscitar essa objeção a minha crítica do capitalismo de estado. É um argumento muito engenhoso. Stephan Kinsella, por exemplo, já argumentou repetidamente que o modelo estadunidense de capitalismo corporativo só pode incluir significativa dose de elementos de livre mercado porque, em vez de tornar-se paralisado por problemas de cálculo, resultou em aumento de produtividade e padrões crescentes de vida que testemunhamos nos anos recentes.

Por mais aparentemente engenhoso que seja, não acredito, contudo, que esse argumento possa resistir a análise. Se prova algo, prova em demasia. Mesmo a economia feudal da Idade Média, mesmo a economia planificada da antiga União Soviética, alcançaram níveis significativos de progresso técnico. Parece que uma levedura extremamente modesta de liberdade, mesmo em sociedades bastante  autoritárias ou totalitárias, é suficiente para permitir significativa quantidade de progresso econômico e tecnológico a despeito do nível de estatismo.

Eu argumentaria também que as medidas convencionais de padrão de vida nos Estados Unidos deveriam ser vistas com certa reserva. A economia corporativa produz carros, geladeiras, televisores e computadores que os consumidores certamente consideram preferíveis aos de há dez anos, e a grande maioria dos consumidores prefere comprá-los nas condições disponíveis em vez de ficar sem eles. Contudo, os preços pelos quais esses bens são vendidos são provavelmente diversas vezes maiores do que seriam num livre mercado, porque eles são produzidos por indústrias fortemente cartelizadas que podem repassar o custo de desperdício de insumos e de overhead burocrático para o consumidor por meio de preços administrados, e nas quais a cultura interna das firmas dominantes é esmagadoramente caracterizada por caos calculacional. Os componentes de hardware e de software são patenteados, e portanto exibem margem de diversas centenas por cento.

Como ocorre no caso do preço de bens e serviços, também medidas de crescimento econômico e PIB essencialmente definem o consumo de insumos como constituindo criação de valor. Assim, temos uma economia na qual a qualidade de bens e serviços parece estar melhorando significativamente, e os consumidores preferem tê-los a não tê-los. Todavia, temos também uma economia na qual não há maneira de determinar se os insumos desperdiçados para criar essas coisas valeram a pena, ou se as pessoas os adquiririam deliberadamente face a um espectro de alternativas de livre mercado. Há certa espécie de valor de uso, e até significativo progresso na criação de valor de uso, mas uma atmosfera geral de caos calculacional — exatamente como na antiga URSS. E sugiro que, na medida em que os consumidores aceitam menor nível de utilidade do que aceitariam num livre mercado, e pagam preço maior por sua utilidade, em horas de trabalho, do que pagariam num livre mercado, o déficit que experimentam é — nas palavras de Benjamin Tucker — igualado por éficit(*) equivalente por parte das classes dominantes no capitalismo de estado.

(*) O artigo original diz, equivocadamente, deficit. Consultei o autor citando a sugestão de um leitor que propunha ‘surplus’, e o autor me esclareceu que de fato há equívoco, e mais: Tucker usa o termo ‘efficit’, obviamente por oposição a ‘deficit’. Adotei ‘éficit’.

O uso que fiz de Hitler parece irritar particularmente Gregory.

…[T]odo sistema de exploração de classes da história humana serviu aos interesses de algum grupo de seres humanos. Em toda sociedade da história, não importa quão brutalmente exploradora, obviamente o ganho ilícito foi consumido por “pessoas.” Os patrícios romanos que viviam do suor dos escravos eram pessoas, e bem assim o eram os senhores feudais que extorquiam rents dos camponeses. Suspeito de terem sido “pessoas” — pessoas perversas — quem se aproveitou dos dentes de ouro extraídos em Auschwitz.

Ele retruca:

Pois bem, quanto a mim, sempre gosto de uma boa comparação com os nazistas, e tenho posição explícita de oposição à Lei de Godwin. Essa comparação, contudo, parece muito irrazoável. Se a ideia é a de haver paralelo sensato a ser traçado entre aqueles que fazem as corporações lucrar e aqueles que prosperam em estados escravos e campos de concentração, encontro aqui muita coisa contra a qual protestar. Sei ser esse um argumento de reductio ad absurdum, mas ele parece fatalmente falho mesmo em sua concepção fundamental. Um consumidor que entra num Wal-Mart e compra um novo estéreo e CD poderia estar em situação muito melhor se o estado não impusesse barreiras protecionistas a fabricantes estrangeiros de eletrônicos, não aumentasse, por meio do copyright, o custo das músicas gravadas, e não impusesse uma centena de outros custos ao comprador. Entretanto, dificilmente este é vítima da troca ela própria. Ele pode escolher não comprar esses bens em absoluto, e ainda assim passar muito bem no mundo. Ele está realmente escolhendo dar seu dinheiro para as corporações, por mais falha a estrutura subjacente da economia. Além disso, embora qualquer dada corporação possa beneficiar-se de intervenção do estado, pode igualmente sofrer.

Para aplicar a analogia de Carson, se o cliente do Wal-Mart é o homem cujos dentes estão sendo extraídos em Auschwitz, o Wal-Mart não é o sádico nazista que está procedendo à extração – é o negociante que vendeu-lhe os dentes.

Aqui ele deixa escapar a questão substantiva. Não se tratou, em absoluto, de uma “analogia.” Foi — como ele próprio reconhece logo num parágrafo antes — reductio ad absurdum. São duas coisas muito diferentes. Meu intento foi destacar a estupidez da implicação de Romney de que um sistema não é explorador caso os beneficiários dele sejam seres humanos. Todo sistema de exploração da história humana, por definição, beneficiou seres humanos. A classe dominante, em todo sistema de exploração, era composta de seres humanos. Pode-se demolir a tentativa de Romney de argumentar que as corporações são boas porque “o dinheiro vai para pessoas” mediante simplesmente listar-se as piores pessoas da história; se um sistema não for explorador por seus beneficiários serem todos pessoas, por mais corrompidas, então nenhum sistema na história foi jamais explorador.

Quanto aos outros pontos ensanduichados nessa citação, já questionei a importância que Gregory atribui ao fato de os consumidores escolherem “livremente” o mal menor num um âmbito restrito de alternativas.

E a asserção finória de que dada corporação poderia sofrer tanto quanto beneficiar-se da intervenção do estado é notável prestidigitação para impingir uma ideia cambeta. Uma formiga pode em tese chicotear um elefante. Eu porém aposto meu dinheiro no elefante.

Concordo com que a personalidade corporativa possa colocar problemas e que apenas indivíduos têm direitos…. Carson, porém, parece estar indo muito além em sua crítica, não simplesmente questionando a categorização de ficções corporativas como “pessoas,” mas em realidade concordando com que elas constituem pessoas quando julga com severidade a condição ética e o papel produtivo dessas pessoas objeto de discussão.

Em realidade, não assumo posição, nem num sentido nem no outro, no tocante à questão da personalidade corporativa — isto é, quanto ao fato da corporação ser legalmente considerada uma pessoa separada e distinta dos acionistas separada ou coletivamente — na coluna que Gregory critica. A tirada de Romney de que “corporações são pessoas,” a despeito de toda a importância atribuída a essas palavras na blogosfera liberal/progressista, nada teve a ver com a questão da personalidade corporativa. Ele estava, antes, aludindo à tese — popular nos anos noventa — do “capitalismo do povo” ou “socialismo de fundos de pensão.”  O dinheiro que as corporações ganham é bom, disse Romney, porque ele todo vai para pessoas. Esse — e apenas esse — foi o sentido em que ataquei a declaração de que “corporações são pessoas.”

Dependem lucros corporativos amiúde de intervenção do estado? Claro que sim. Eles não têm, contudo, necessariamente caráter de exploração. Eles certamente não se fazem sempre a expensas de consumidores e trabalhadores. Nós atores do mercado, mesmo um mercado corrompido pelo envolvimento do estado, nem sempre recaímos nitidamente nessas categorias de sermos consumidores e trabalhadores ou beneficiários corporativos. E muitas pessoas que lucram de empreendimentos corporativos fazem-no correndo grande risco, colocando tudo o que têm em jogo, sem o que o empreendendorismo e portanto crescimento econômico e portanto a própria civilização seriam impossíveis. Seguramente as grandes empresas têm prosperado graças ao estado. Eu próprio já expus essa ideia muitas vezes…. Contudo, o apoio do estado não é elemento indispensável dos lucros corporativos, nem são todas as corporações, mesmo em nosso mundo, tomando tudo em consideração, instituições predatórias cujos ganhos vêm sempre a expensas de trabalhadores e consumidores.

Acredito que a grande maioria das corporações oligopolistas, em mercados onde um punhado de firmas controla mais da metade da fatia de mercado, em verdade ganha a expensas de trabalhadores e consumidores.

O apoio do estado poderá não ser indispensável para que ocorra lucro enquanto tal. Haveria seguramente lucro empresarial do tipo que Gregory descreve, advindo àqueles que recebem retornos maiores do que marginais mediante serem os primeiros a perceber e atender a alguma necessidade não atendida, ou os primeiros a chegar ao mercado com alguma inovação. Tais lucros, porém, seriam efêmeros, e estariam sempre num processo de serem levados a zero por novos entrantes no mercado.

E na medida em que a taxa de retorno sobre o capital e a terra no mercado é maior do que seu valor natural, em decorrência de escassez artificial e direitos artificiais de propriedade feitos valer pelo estado, toda empresa que goza de taxa de retorno mais elevada como resultado de privilégio coercitivamente imposto é objetivamente exploradora. Na medida em que as firmas de negócios nos setores dominantes da economia são maiores e em menor número, e os preços mais inelásticos do que seriam em situação diferente, os superlucros extraídos dos consumidores por meio de trocas iníquas têm objetivamente caráter de exploração.

No final, as pessoas que optam por comprar das corporações ou por trabalhar para elas, quando de fato há alternativas disponíveis, fazem-no porque estão interessadas em beneficiar-se a si próprias. Num mercado verdadeiramente livre, certamente muito mais boas alternativas estariam disponíveis. Isso não significa, porém, que as escolhas econômicas que as pessoas realmente fazem em nosso falho mundo tenham caráter de exploração ou de opressão.

Claro que significa. Se o leque de alternativas é menor do que seria num livre mercado e as alternativas mais satisfatórias do ponto de vista dos trabalhadores e consumidores forem tiradas da mesa, e os lucros corporativos e os salários dos gerentes forem maiores do que seriam em outra situação como resultado desse leque restrito, então — independentemente de existirem ou não ainda algumas alternativas — a utilidade reduzida que resulta de trabalhadores e consumidores escolherem menos do que alternativas ótimas tem caráter de exploração e de opressão.

Uma pessoa pode melhorar de situação graças a uma troca e, ainda assim, estar sendo explorada. Por sua própria natureza, repetindo, o preço de monopólio alcança a mais alta quantia que o consumidor tem condição de pagar e ainda obter utilidade bastante para que a troca valha a pena.

Gregory realça muito minha defesa (defesa que considerei bastante insatisfatória à época) dos professores de escola pública no contexto da controvérsia de Scott Walker em Wisconsin.

Contudo, mesmo sem saber exatamente como seria uma sociedade livre, é difícil para mim ver com que base libertária Carson se mostra mais disposto a humanizar professores de escolas públicas do que beneficiários corporativos…. A quantidade de privilégio estatal envolvida em escorar a mamata da doutrinação das crianças é seguramente comparável, se não exceder de longe, à implicada no caso da corporação média.

Vejo a aliança entre as grandes empresas e o governo hipertrofiado como estruturalmente central, como característica definidora, de nosso sistema político-econômico. A “Elite de Poder” que gere a conexão de estado, capital financeiro e gerência corporativa ocupa a mesma posição, no presente sistema, que os senhores de terras ocupavam há setecentos anos. O sistema de educação pública é em grande parte um componente de segundo nível desse sistema.

A diferença é a seguinte: Os professores de escola pública estão desempenhando uma função — educação — que, pelo menos sob alguns aspectos, existiriam mesmo numa sociedade livre. E estão desempenhando-a num contexto no qual o estado em grande parte açambarcou a função e cerceou alternativas. Numa sociedade na qual o maior tributo local que a maioria das pessoas paga é um tributo sobre a propriedade para financiar as escolas, a maioria das pessoas mandará os filhos para escolas públicas como opção padrão. Assim, aqueles que desejem ensinar mas gostariam de fazê-lo numa estrutura não estatal deparam-se com seu leque de alternativas grande e artificialmente reduzido, em comparação com as oportunidades no sistema de propriedade do estado. Embora a redução de alternativas não seja tão grande em grau, é a mesma, em espécie, que a enfrentada por trabalhadores em empresas estatais no antigo bloco soviético.

Vejo professores e bombeiros, em considerável medida, como pessoas que desempenham funções que seriam legítimas em alguma forma de sociedade sem estado, e desempenhando-as diante da necessidade de tornar o melhor possível o sistema estatista. As profissões deles podem ser formalmente privilegiadas, mas é uma posição de priilégio secundária, subordinada e útil.

Em contraste, os rentistas e gerentes graduados que vivem de lucros corporativos não estão tornando a melhor possível uma situação ruim que não criaram, nem se encontram em posição de privilégio secundária. Encontram-se no cerne de uma classe dominante corporativa, e a classe dominante corporativa tem condições antes de criar do que de utilizar o leque de alternativas. O sistema escolar público foi criado como meio visante a um fim determinado pela natureza da classe dominante: desde seus primeiros dias, foi delineado precipuamente pelas necessidades dos empregadores de trabalhadores dóceis, obedientes e treinados.

Gregory poderia igualmente argumentar que o padre da paróquia era tão privilegiado quanto o nobre que vivia à custa de rents de províncias inteiras, porque era pago com dízimos. O privilégio, contudo, recebido pelo pároco da vila era, do mesmo modo que o do professor de escola pública, secundário e útil. Em ambos os casos, o recebedor recebe algumas migalhas da mesa em troca de ajudar a promover os privilégios principais do primeiro nível da classe dominante — a classe para benefício da qual o sistema existe.

Acho que Gregory é muito mais pluralista do que eu quando o assunto é análise de classes. Assim como David Friedman, ele vê a classe dominante como um feixe fortuito de interesses que por acaso se vinculou ao estado, em vez de ver uma coalização coerente. Como escreveu Friedman em O Maquinário da Liberdade:

Parece mais razoável supor não existir nenhuma classe dominante, e sermos governados, antes, por uma miríade de quadrilhas em conflito, constantemente engajadas em furtar umas das outras para grande empobrecimento de seus próprios membros, bem como do restante de nós.

Assim somos todos, tanto o camponês quanto o senhorio, vítimas do estatismo, e deveríamos simplesmente esquecer o passado. Ou, como poderia dizer Homer Simpson, “…podemos postar-nos aqui e ficar para sempre tentando descobrir… quem se esqueceu de apanhar quem. Vamos, porém, simplesmente dizer que estávamos ambos errados, e pronto. E agora, que tal um abraço?”

Murray Rothbard, por outro lado, acreditava — na descrição de Roderick Long — que a classe dominante era

um grupo principal que conseguiu uma posição de hegemonia estrutural, um grupo fundamental para a consolidação e a crise de classes na economia política contemporânea. A abordagem de Rothbard do problema é, de fato, altamente dialética em sua compreensão da dinâmica histórica, política, econômica e social de classes.

Gregory também objeta a esta passagem de minha coluna.

[L]ogo antes de eu ouvir falar da última mancada de Romney, estava lendo a respeito de um estudo do psicólogo Dacher Keltner. A experiência de vida dos ricos, diz ele, torna-os menos empáticos e mais egoístas do que as pessoas comuns. Parte disso é obtusidade deliberada; legitimar ideologias é algo que não apenas habitua os explorados a levar na cabeça como também permite que os exploradores durmam à noite dizendo para si próprios que os pobres realmente merecem.

Os ricos justificam suas relações com outras classes sociais com a ajuda da ideologia estadunidensista, por meio da qual exalçam a percepção de seu próprio entranhado individualismo e veem sua riqueza como resultado de caráter: “Eles acham que o sucesso econômico e resultados políticos, e resultados pessoais, têm a ver com comportamento individual, com uma boa ética de trabalho….”

Em outras palavras, a ideologia espúria de “livre mercado” — por oposição à genuína — é o ópio das elites.

Ele objeta a essa passagem, primeiro, com base em ela guardar alguma semelhança com “o polilogismo marxista que Ludwig von Mises refuta cabalmente em suas brilhantes obras, inclusive Ação Humana.”

“A ideologia estadunidensista,” argumenta Carson, repercute nas pessoas com base na classe, em vez de em princípios filosóficos de apelo potencialmente universal. Ele não diz que a classe determina o raciocínio filosófico de uma pessoa, mas passa perto.

Não acho que passe perto em absoluto, a menos que qualquer sugestão de que grupos com experiências sociais comuns tendam a filtrar a realidade de maneiras comuns seja “polilogista.” Isso me bate como algo do tipo reação automática, afim de apelos reflexivos a “individualismo metodológico” evocados a partir de certos arraiais quando me engajo em análise de classes. Não acredito que Gregory, ou qualquer outra pessoa, aplique monologismo e individualismo metodológico tão estritamente de alto a baixo quanto o faz nos casos que seleciona para atenção negativa. Uma pessoa pensante simplesmente não poderia fazer isso sem desvincular-se completamente do pensamento de senso comum.

De minha parte, acho que Carson não é preciso, isso se não estiver totalmente errado. Muitos estadunidenses mais pobres compram ideologia vulgar de livre mercado, muitas pessoas ricas denunciam o livre mercado — ou o genuíno ou sua contrafação — o tempo todo. Pessoas pobres votam nos Republicanos para protegerem-se do “socialismo.” E há aqueles, inclusive eu, que se opõem veementemente ao corporatismo e apesar disso ainda o preferem ao socialismo de estado amiúde advogado pela maioria das facções da esquerda. Enquanto isso, há cerca de meia dúzia de anarquistas profusamente ricos que me vêm à mente cujo radicalismo de mercado é positivamente genuíno. E então há os socialistas ricos, e os socialistas pobres, e tudo o que vem no meio. Ademais, Romney, se formos ler o pensamento dele como Carson parece estar fazendo, provavelmente não acredita em nada de sua própria retórica. Ele não está defendendo “ideologia espúria de ‘livre mercado’” para dormir melhor à noite — e sim para ganhar votos.

Sem dúvida. Eis porque eu disse que “legitimar ideologias é algo que não apenas habitua os explorados a levar na cabeça como também permite que os exploradores durmam à noite dizendo para si próprios que os pobres realmente merecem.[ênfase acrescentada].” A mesma ideologia hegemônica pode desempenhar diferentes funções para diferentes classes. Já citei — muitas vezes — o dito de Stephen Biko segundo o qual a mais poderosa arma nas mãos do opressor é a mente do oprimido.

Mais importante, porém: é um equívoco tomar esse caminho ao criticar os pontos de vista de alguém. Se Romney está errado em humanizar corporações do modo como o fez, e não acredito que o ponto de vista dele seja nem de perto tão trivial quanto Carson acha, isso não é necessariamente um reflexo da classe à qual pertence Romney. Essa maneira marxiana de olhar o mundo é análise teórica pobre. Já ouvi pessoas de todos os pontos do espectro econômico parecerem com Romney falando acerca das corporações.

De novo, sem dúvida. Não seria lá grande ideologia legitimadora se não tapeasse os dominados para aceitarem os interesses de seus dominadores como legítimos, além de renovar a confiança dos dominantes em sua própria legitimidade. Eis porque podem-se ver turbas sagradas uivantes de membros do Partido do Chá arrebanhadas em considerável proporção a partir dos trabalhadores pobres, as quais sinceramente acreditam estar sendo exploradas principalmente pela ACORN(*) e seu eleitorado de pessoas que “nem sequer pagam quaisquer tributos.”

(*) Sociedade de proteção a famílias de baixa renda. Ver Wikipedia.

Não faz tanto tempo que o sistema de racismo dividir-para-dominar, que servia precipuamente ao propósito principal de tornar tanto pretos pobres quanto brancos pobres mais fáceis de explorar, era entusiasticamente apoiado por caipiras brancos miseráveis na crença sincera de que tinham interesse compartilhado na “pureza racial” em comum com o cara da mansão sobre a colina dono de metade do condado. Enquanto isso, o sujeito da mansão e seus amigos da pequena nobreza local bebericavam seus drinques com hortelã morrendo de rir da ingenuidade do capira vestido com camiseta sem manga.

O Associado de Pesquisa do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos de Economia Política MutualistaTeoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Um Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P e seu próprio Blog Mutualista.

Anthony Gregory — Contra Kevin Carson quanto à Humanidade das Corporações e dos Professores do Governo

domingo, setembro 25th, 2011

http://c4ss.org/content/8145

Afixado por Kevin Carson em 25 de agosto de 2011 em Artigos em Destaque

TROCAS MULTILATERAIS

Trocas multilaterais são o objetivo do Centro em dois sentidos — somos a favor de uma sociedade fundamentada em cooperação pacífica e voluntária, e buscamos fomentar o entendimento por meio de diálogo permanente.

Eis porque estamos inaugurando esta nova parte de nosso site. Trocas Multilaterais – Mutual Exchange proporcionará oportunidades para trocas de ideias de interesse dos diversos públicos do Centro. Um ensaio de abertura, deliberadamente provocativo, será seguido de respostas vindas de dentro e de fora do C4SS. Contribuições e comentários de leitores são entusiasticamente encorajados.

Começamos com o ensaio de Anthony Gregory “Contra Kevin Carson quanto à Humanidade de Corporações e Professores do Governo,” o qual suscita alguma questões críticas acerca de aspectos do projeto de Kevin Carson. Seguir-se-ão respostas de Carson, Gary Chartier e outros.

*  *  *

Nem num milhão de anos eu teria tido a expectativa de concordar com Mitt Romney e discordar de Kevin Carson. Embora eu não seja mutualista, reconheço que Carson é um anarquista radical, e vejo Romney como fascista. Tenho tido em alta conta grande parte da crítica de Carson ao capitalismo de estado como bem-vindo corretivo para um movimento libertário com demasiada frequência deslumbrado com o statu quo corporatista e com o conservadorismo econômico. E no entanto discordo tanto do que parece a principal estocada de seu recente artigo, “Corporações São Pessoas? Hitler Também Era” que me vejo impelido a responder em defesa parcial do que foi enunciado por Romney, homem a quem já critiquei em muitos escritos e de modo nenhum vejo como aliado na luta por qualquer coisa que eu preze.

O principal ponto de Carson é que a afirmação de Romney de que “corporações são pessoas” é trivial e oculta a perversidade institucional envolvida. O fato de as corporações abrangerem pessoas é “tecnicamente verdade, obviamente. O dinheiro que uma corporação ganha a expensas dos consumidores e dos trabalhadores por meio de trocas desiguais forçadas pelo estado é todo distribuído para pessoas.”

De imediato, Carson assume a premissa de que os lucros corporativos geralmente resultam de “trocais desiguais forçadas pelo estado.” Certamente trabalhadores e consumidores amiúde enfrentam ônus impostos pelo estado que reduzem suas probabilidades de trocas otimamente benéficas. Significará isso, porém, que os autores dos lucros corporativos beneficiam-se a expensas deles? Não será possível para ambos os lados até em uma transação “desigual” ficarem em pior situação, na margem, por causa do envolvimento do estado, e no entanto ficarem em situação melhor por haver sido feita a troca? O que dizer dos muitos empresários que lucram em certo ano e têm grandes prejuízos no outro? Foi a expensas deles que consumidores e trabalhadores tiveram lucro?

Aqui tenho de concordar com a visão austríaca segundo a qual se duas partes vêm a fazer negócio, especialmente se ambas saírem satisfeitas, a preferência demonstrada(*) delas é a de que o negócio não foi feito a suas expensas, e sim a bem da melhora geral de sua situação, e isso não deveria ser invalidado por terceiros observadores. Tipicamente, é verdade, as trocas de trabalhadores e consumidores teriam sido ainda mais frutíferas para eles não fora o estado. Por vezes o estado inclusive cria trabalho cativo e mercados consumidores para as corporações. Contudo, a pura produtividade, mesmo na economia de mercado tolhida, por meio da qual trabalhadores e consumidores melhoraram sua situação ao longo dos anos, mesmo se não tanto quanto deveriam tê-lo feito, pareceria indicar que nem todas as suas interações com as corporações se fazem a expensas deles, liquidamente. Eles poderão beneficiar-se muito menos do que deveriam, por causa do estado, mas seguramente a experiência típica de consumidores ou trabalhadors envolvidos mesmo num sistema corporatista não é uma experiência de vitimização cabal, ao contrário do que implica Carson aqui:

(*) Para a ideia de preferência demonstrada, de Rothbard, e o contraste com a ideia de preferência revelada, de Samuelson ver, por exemplo, http://rationalargumentator.com/Rothbard_demonstratedpreference.html

[T]odo sistema de exploração de classes da história humana serviu aos interesses de algum grupo de seres humanos. Em toda sociedade da história, não importa quão brutalmente exploradora, obviamente o ganho ilícito foi consumido por “pessoas.” Os patrícios romanos que viviam do suor dos escravos eram pessoas, e bem assim o eram os senhores feudais que extorquiam renda dos camponeses. Suspeito de terem sido “pessoas” — pessoas perversas — quem se aproveitou dos dentes de ouro extraídos em Auschwitz.

Pois bem, quanto a mim, sempre gosto de uma boa comparação com os nazistas, e  tenho posição explícita de oposição à Lei de Godwin. Essa comparação, contudo, parece muito irrazoável. Se a ideia é a de haver paralelo sensato a ser traçado entre aqueles que fazem as corporações lucrar e aqueles que prosperam em estados escravos e campos de concentração, encontro aqui muita coisa contra a qual protestar. Sei ser esse um argumento de reductio ad absurdum, mas ele parece fatalmente falho mesmo em sua concepção fundamental. Um consumidor que entra num Wal-Mart e compra um novo estéreo e CD poderia estar em situação muito melhor se o estado não impusesse barreiras protecionistas a fabricantes estrangeiros de eletrônicos, não aumentasse, por meio do copyright, o custo das músicas gravadas, e não impusesse uma centena de outros custos ao comprador. Entretanto, dificilmente este é vítima da troca ela própria. Ele pode escolher não comprar esses bens em absoluto, e ainda assim passar muito bem no mundo. Ele está realmente escolhendo dar seu dinheiro para as corporações, por mais falha a estrutura subjacente da economia. Além disso, embora qualquer dada corporação possa beneficiar-se de intervenção do estado, pode igualmente sofrer.

Para aplicar a analogia de Carson, se o cliente do Wal-Mart é o homem cujos dentes estão sendo extraídos em Auschwitz, o Wal-Mart não é o sádico nazista que está procedendo à extração – é o negociante que vendeu-lhe os dentes. Talvez o recluso tenha sido desfavorecido injustamente, talvez por causa da intervenção do estado, nisso em que, antes de tudo, ele teve de comprar os dentes. Entretanto, o real paralelo em nossa economia mista não é alguém perdendo o que tem a fim de enriquecer um buscador de lucros corporativos. É, mais amiúde, alguém não ganhando tanto quanto deveria, por causa das regulamentações.

Concordo com que a personalidade corporativa possa colocar problemas e que apenas indivíduos têm direitos. Ron Paul, ele próprio não anarquista, também manifestou esta ideia em resposta à escolha de palavras de Romney. Carson, porém, parece estar indo muito além em sua crítica, não simplesmente questionando a categorização de ficções corporativas como “pessoas,” mas em realidade concordando com que elas constituem pessoas enquanto julga com severidade a condição ética e o papel produtivo dessas pessoas objeto de discussão.

Dependem lucros corporativos amiúde de intervenção do estado? Claro que sim. Eles não têm, contudo, necessariamente caráter de exploração. Eles certamente não se fazem sempre a expensas de consumidores e trabalhadores. Nós atores do mercado, mesmo um mercado corrompido pelo envolvimento do estado, nem sempre recaímos nitidamente nessas categorias de sermos consumidores e trabalhadores ou beneficiários corporativos. E muitas pessoas que lucram de empreendimentos corporativos fazem-no correndo grande risco, colocando tudo o que têm em jogo, sem o que o empreendendorismo e portanto crescimento econômico e portanto a própria civilização seriam impossíveis. Seguramente as grandes empresas têm prosperado graças ao estado. Eu próprio já expus essa ideia muitas vezes [1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9]. Contudo, o apoio do estado não é elemento indispensável dos lucros corporativos, nem são todas as corporações, mesmo em nosso mundo, tomando tudo em consideração, instituições predatórias cujos ganhos vêm sempre a expensas de trabalhadores e consumidores. No final, as pessoas que optam por comprar das corporações ou por trabalhar para elas, quando de fato há alternativas disponíveis, fazem-no porque estão interessadas em beneficiar-se a si próprias. Num mercado verdadeiramente livre, certamente muito mais boas alternativas estariam disponíveis. Isso não significa, porém, que as escolhas econômicas que as pessoas realmente fazem em nosso falho mundo tenham caráter de exploração ou de opressão.

Embora hostil em relação a aproveitadores corporativos, Carson é muito mais matizado ao discutir outras pessoas que prosperam graças a instituições de privilégio e exploração apoiados pelo estado — pessoas que, em minha opinião, tendem a ser pelo menos igualmente desrespeitosas dos direitos humanos na prática. Ele escreveu acerca da controvérsia trabalhista no Wisconsin em março último:

A educação seria sem dúvida diferente, de várias maneiras, numa sociedade livre — nada de leis de frequência obrigatória, e nada de processamento de recursos humanos em benefício do estado corporativo. Ensinar crianças, contudo, é importante função em qualquer sociedade, e muito do que aqueles professores públicos fazem hoje provavelmente seria carreado sem grandes mudanças.

Em meu modo de ver, os lucros corporativos existiriam em abundância num livre mercado, enquanto houver ineficiências para empresários identificar e tratar, assim beneficiando a sociedade como um todo. Acredito que sempre será assim. Talvez esta seja parte da razão pela qual eu seja capitalista e Carson não. Entretanto, independentemente da questão das corporações numa sociedade livre, discordo veementemente de que grande parte do que os professores de escolas públicas fazem seria “transferido sem grandes mudanças” numa sociedade livre. Dentro de uma geração ou por aí num mundo sem estado, duvido muito que a maioria das crianças fosse sujeitada a algo que se assemelhasse à escola convencional em absoluto. A escolaridade no lar, programas de aulas expositivas nas quais os professores verdadeiramente servem a estudantes e pais, aprendizado online conjugado com interações sociais mais livres e humanas, mais provavelmente prevalecerão, acredito e espero. Nosso sistema prussiano imperialista de escola pública é uma afronta, e as escolas privadas são quase cópias carbono do modelo estatista, por causa de leis de credenciamento e da inércia cultural estatista. A maioria dos empregos nas corporações são em realidade modelos de tratamento humano em comparação com o que muitos alunos de escolas públicas sofrem. Se alguém seria capaz de gostar desse tipo de coisa, eu pensaria num anarquista de mercado com tendências esquerdistas.

Contudo, mesmo sem saber exatamente como seria uma sociedade livre, é difícil para mim ver com que base libertária Carson se mostra mais disposto a humanizar professores de escolas públicas do que beneficiários corporativos. Afinal de contas, no mundo real, professores de escolas públicas sistematicamente conspiram com os administradores (seus pretensos inimigos de classe) e com a polícia para impor frequência. Carson denuncia que as leis de frequência são um problema, mas seguramente elas envenenam o sistema inteiro tanto quanto as intervenções do estado deslustram a vida corporativa. Os professores, em sua maioria, também alegremente se engajam em lavagem cerebral cívica sancionada pelo estado. Eles até impõem trabalhos de casa, onerando adicionalmente jovens pessoas já forçadas a aguentar nove horas ou em torno disso sentadas em torturadoras carteiras de olhos fixos em quadros-negros destruidores da mente, de tal maneira que elas vão para casa não para um pouco de alívio ou para alguma chance de algum desenvolvimento individual, mas sim para abuso adicional entorpecedor da mente. Os professores públicos tendem a ser melhor pagos do que suas contrapartes no setor privado, e tendem a choramingar mais alto todo ano por maior salário e melhores benefícios a expensas do contribuinte.

A quantidade de privilégio estatal envolvida em escorar a mamata da doutrinação das crianças é seguramente comparável, se não exceder de longe, à implicada no caso da corporação média. No entanto, os professores de escolas públicas tendem a estar mais diretamente envolvidos na imposição coercitiva do programa destrutivo de lavagem cerebral, abuso e humilhação do governo dos mais vulneráveis membros da sociedade, do que está a maioria dos beneficiários corporativos diretamente envolvidos em servir o estado onde a coerção se exerça sobre o indivíduo. Certo, deveríamos humanizar os professores das escolas públicas, reconhecer que seu trabalho em alguns casos parece-se um tanto com algo que poderia existir num livre mercado, compreender que muitos deles são boas pessoas que se ressentem do sistema tanto quanto nós nos ressentimos, e não vê-los todos como o equivalente de criminosos de guerra nazistas. No entanto, isso é ainda mais verdadeiro de empresários que recebem lucros corporativos.

Pareceria que Carson estaria usando um procurador para definir quem merece animosidade e quem é digno de simpatia, e esse procurador está baseado numa concepção esquerdista tosca de análise de classe, em vez de em análise de classe clássica liberal. É verdade que os libertários de tendência conservadora amiúde supersimplificam os temas ao considerarem todas as partes do “setor privado” vítimas e todos os “consumidores de tributos” parasitas. Entretanto, um procurador que tende à vilificação da classe capitalista e à empatia em relação à classe proletária — que é o que Carson parece estar fazendo — é algo pelo menos igualmente falho. Não que ele esteja defendendo os policiais do governo, mas Carson faz questão de observar: “Até parte do que a polícia faz, como deter o crime violento e apreender agressores, ainda seria necessário” numa sociedade livre. Seguramente. Mas, na prática, prefiro quase todo beneficiário corporativo a quase todo policial, independentemente da divisão trabalhador-classe capitalista que parece servir Carson em sua decisão no tocante a ou se humanizar um indivíduo que trabalha em nosso falho sistema, ou compará-lo a um nazista.

Admito que parte de minha resistência à concepção carsoniana de corporações como pessoas decorre de minha experiência pessoal. Durante anos em Berkeley, eu próprio comecei a dizer “as corporações são pessoas,” quando argumentando com esquerdinhas de todos os tipos – de social-democratas a social-anarquistas – que gastavam considerável tempo atacando corporações por todas as suas perversidades, mas tinham muito menos ódio do estado. Algumas dessas pessoas, mesmo os assim chamados radicais, por vezes respondiam ao meu fundamentalismo antiestatal com a ideia “governos são pessoas,” e eu argumentava muito como Carson fez em resposta a Romney, desconstruindo o que exatamente aquilo significava. No entanto, descobri que muitas pessoas que verberavam contra as corporações não davam um pio a respeito de liberdade ou mesmo de paz, quando esses eram os temas.

Agora concedo haver algo que se aproxima de uma falácia lógica em meu modo de sentir, se não no puro raciocínio que uso, nesses argumentos envolvendo a frase “corporações são pessoas” — admito que parte de minha reação é desencadeada emocionalmente, uma repulsa em relação àqueles que esposarão algumas das posições que Carson esposa  — e no entanto Carson parece estar indo ainda mais além nessa linha de julgar a posição de alguém baseado em de onde a pessoa procede. Carson escreve em “Corporações São Pessoas?”:

[L]ogo antes de eu ouvir falar da última mancada de Romney, estava lendo a respeito de um estudo do psicólogo Dacher Keltner. A experiência de vida dos ricos, diz ele, torna-os menos empáticos e mais egoístas do que as pessoas comuns. Parte disso é obtusidade deliberada; legitimar ideologias é algo que não apenas habitua os explorados a levar na cabeça como também permite que os exploradores durmam à noite dizendo para si próprios que os pobres realmente merecem.

Os ricos justificam suas relações com outras classes sociais com a ajuda da ideologia estadunidensista, por meio da qual exalçam a percepção de seu próprio entranhado individualismo e veem sua riqueza como resultado de caráter: “Eles acham que o sucesso econômico e resultados políticos, e resultados pessoais, têm a ver com comportamento individual, com uma boa ética de trabalho. …”

Em outras palavras, a ideologia espúria de “livre mercado” — por oposição à genuína — é o ópio das elites.

À parte a psicanálise precária, isso chega perto demais, para meu gosto, a ponto de parecer o polilogismo marxista que Ludwig von Mises refuta cabalmente em suas brilhantes obras, inclusive Ação Humana. “A ideologia estadunidensista,” argumenta Carson, repercute nas pessoas com base na classe, em vez de em princípios filosóficos de apelo potencialmente universal. Ele não diz que a classe determina o raciocínio filosófico de uma pessoa, mas passa perto.

De minha parte, acho que Carson não é preciso, isso se não estiver totalmente errado. Muitos estadunidenses mais pobres compram ideologia vulgar de livre mercado, muitas pessoas ricas denunciam o livre mercado — ou o genuíno ou sua contrafação — o tempo todo. Pessoas pobres votam nos Republicanos para protegerem-se do “socialismo.” E há aqueles, inclusive eu, que se opõem veementemente ao corporatismo e apesar disso ainda o preferem ao socialismo de estado amiúde advogado pela maioria das facções da esquerda. Enquanto isso, há cerca de meia dúzia de anarquistas profusamente ricos que me vêm à mente cujo radicalismo de mercado é positivamente genuíno. E então há os socialistas ricos, e os socialistas pobres, e tudo o que vem no meio. Ademais, Romney, se formos ler o pensamento dele como Carson parece estar fazendo, provavelmente não acredita em nada de sua própria retórica. Ele não está defendendo “ideologia espúria de ‘livre mercado’” para dormir melhor à noite — e sim para ganhar votos.

Mais importante, porém: é um equívoco tomar esse caminho ao criticar os pontos de vista de alguém. Se Romney está errado em humanizar corporações do modo como o fez, e não acredito que o ponto de vista dele seja nem de perto tão trivial quanto Carson acha, isso não é necessariamente um reflexo da classe à qual pertence Romney. Essa maneira marxiana de olhar o mundo é análise teórica pobre. Já ouvi pessoas de todos os pontos do espectro econômico parecerem com Romney falando acerca das corporações.

As corporações são pessoas também. E, sim, os governos também. Será que todas as pessoas que lucram a partir das grandes empresas merecem o que ganham? Não. Será que todos os trabalhadores do governo merecem nosso ódio? Não. No entanto, uma abordagem equilibrada baseada em respeito pela dignidade e liberdade do indivíduo numa sociedade amiúde demasiado estritamente controlada pelo maquinário brutal da coerção institucional produzirá um modo de ver muito mais matizado do que aquele que Carson produziu ao condenar os auferidores de lucro corporativos, e provavelmente um ponto de vista muito mais crítico dos professores públicos enquanto classe. Os beneficiários corporativos, em sua maioria,  não são tão maus quanto os nazistas. Muitos deles são heroicos benfeitores da humanidade. E, em sua maioria, são pelo menos tão defensáveis e admiráveis quanto o professor público médio que recebe pagamento do governo, mesmo quando pareça ser membro da “classe trabalhadora.”

Anthony Gregory é editor de pesquisa no Instituto Independente. Visite-o em AnthonyGregory.com.

O Associado de Pesquisa do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos de Economia Política Mutualista, Teoria da Organização: Uma Perspectiva Libertária, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Um Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Apenas Coisas, A Arte do Possível, a Fundação P2P e seu próprio Blog Mutualista.

Corporações São Pessoas? Hitler Também Era

sexta-feira, setembro 23rd, 2011

http://c4ss.org/content/8048

Afixado por Kevin Carson em 15 de agosto de 2011 em Commentary

Observar duas intelectualmente deficientes bonecas Ken com “penteado tipo executivo” — Mitt Romney e Rick Perry — preparando-se para debater lembra-me o quanto sinto falta de Dan Quayle.

Por incrível que pareça, logo antes de eu ouvir falar da última mancada de Romney, estava lendo a respeito de um estudo do psicólogo Dacher Keltner. A experiência de vida dos ricos, diz ele, torna-os menos empáticos e mais egoístas do que as pessoas comuns. Parte disso é obtusidade   deliberada; legitimar ideologias é algo que não apenas habitua os explorados a levar na cabeça como também permite que os exploradores durmam à noite dizendo para si próprios que os pobres realmente merecem.

Os ricos justificam suas relações com outras classes sociais com a ajuda da ideologia estadunidensista, por meio da qual exalçam a percepção de seu próprio entranhado individualismo e veem sua riqueza como resultado de caráter: “Eles acham que o sucesso econômico e resultados políticos, e resultados pessoais, têm a ver com comportamento individual, com uma boa ética de trabalho. …”(*)

(*) A Wikipedia explica que a ética de (ou do) trabalho não se confunde com ética de negócios e sim consiste num conjunto de valores baseado no trabalho árduo e na diligência. Exemplo, clássico aliás, seria a   ética de trabalho protestante. Uma ética de trabalho incluiria ser pessoa de confiança, ter iniciativa, ou perseguir a aquisição de novas habilidades. A ética de trabalho, segundo alguns, não se limitaria ao trabalho árduo, mas também a virtudes pessoais daquele que trabalha arduamente, indispensáveis para o desenvolvimento e a sustentação de livres mercados. Ver Wikipedia, Work ethic.

Em outras palavras, a ideologia espúria de “livre mercado” — por oposição à genuína — é o ópio das elites. Que as liberta da culpa pelo privilégio e torna sua existência suportável. A ideologia neoliberal — tal como aparece nos programas de locutores do CNBC, na página editorial do Wall Street Journal – WSJ, e nos artigos bajulatórios de FreedomWorks — defende o modelo existente de capitalismo corporativo e suas grandes concentrações de riqueza como se resultassem de virtude superior num mercado competitivo (“é assim que nosso sistema de livre mercado funciona”). Deliberadamente obscurece o papel fundamental da intervenção do governo — formas de escassez artificial, direitos artificiais de propriedade, subsídios — na atual distribuição de riqueza e de poder econômico.

De volta a Romney: Em resposta a um aparteador, ele replicou espirituosamente que “As corporações são pessoas. … Tudo o que as corporações ganham também vai para pessoas.” Diante das gargalhadas da   plateia, ele perguntou “Para onde vocês pensam que vai?” “Para os bolsos deles!” retrucou o aparteador. “Bolsos de quem?” retornou Romney. “Para os bolsos de pessoas! Seres humanos, meu amigo.”

Isso é tecnicamente verdade, obviamente. O dinheiro que uma corporação ganha a expensas dos consumidores e dos trabalhadores por meio de trocas desiguais forçadas pelo estado é todo distribuído para pessoas.

Mas e daí? A menos que David Icke esteja certo e nós sejamos secretamente governados por lagartos alienígenas invasores, todo sistema de exploração de classes da história humana serviu aos interesses de algum grupo de seres humanos. Em toda sociedade da história, não importa quão brutalmente exploradora, obviamente o ganho ilícito foi consumido por “pessoas.” Os patrícios romanos que viviam do suor dos escravos eram pessoas, e bem assim o eram os senhores feudais que extorquiam rents dos camponeses. Suspeito de terem sido “pessoas” — pessoas perversas — quem se aproveitou dos dentes de ouro extraídos em Auschwitz.

A questão é, que pessoas? Para quem a riqueza das corporações monopolistas flui desproporcionalmente? Para as mesmas pessoas para as quais foram os lucros do trabalho escravo e os rents do feudalismo,   as pessoas descritas por Adam Smith: “Tudo para nós, e nada para outras pessoas, parece, em toda época do mundo, ter sido a vil máxima dos senhores do gênero humano.”

Felizmente para eles, os senhores têm a mitologia do “capitalismo de pessoas” — na qual os lucros corporativos vão todos para planos de aposentadoria pagos pelo empregador, para fundos de pensão e para a economia de posse de pessoas comuns que fazem day-trading na Internet — para assegurarem a si próprios não serem realmente lombrigas solitárias gigantes, em absoluto. Toda essa conversa acerca de injustiça e riqueza ganha sem trabalho é apenas “guerra de classes,” a “política da inveja.” Ou, como Romney desdenhou, “Houve uma época neste país quando não atacávamos as pessoas por causa do sucesso delas.”

O sucesso do próprio Romney merece alguma perscrutação. Ele está concorrendo como antigo Executivo Principal que — diferentemente de Obama — compreende “como a economia funciona.” Vejam, ele conhece em primeira mão as necessidades dos heroicos homens de negócios que “criam empregos.”

Em realidade, porém, Romney fez tudo usando o mesmo estoque de táticas/métodos de Mestre em Administração de Empresas que Chainsaw Al e Bob Nardelli: Eviscerar o capital humano, vender ativos da empresa em proveito pessoal, esvaziar a capacidade produtiva de longo prazo para inflar os números deste trimestre e fazer subir os preços das ações, em seguida garantir sua própria indenização por exoneração de executivo e emborcar a casca vazia em cima de outro comedor de carniça. Romney, como executivo, foi, para o enxugamento de pessoal [downsizing], o que Maria Tifoide foi para a tifoide.(*)

(*) Maria Tifoide foi a primeira pessoa nos Estados Unidos identificada como portadora assintomática do patógeno associado à febre tifoide. http://pt.wikipedia.org/wiki/Mary_Mallon

É natural que Romney se agarre a qualquer pretexto para ver a si próprio como alguma coisa além de apenas outro paspalho da classe mais alta que por ocupar a terceira posição acha que conseguiu fazer um triplo(*). Graças ao evangelho de Sucesso, Realização e Prosperidade, os vis senhores do gênero humano podem continuar dizendo a si próprios que afinal não são parasitas; estão apenas tomando posse do que lhes é devido.

(*) Analogia com beisebol, esporte do qual não entendo.

Citações deste artigo:

Kevin Carson, Corporations are People? So was HitlerCounterpunch, 16 de agosto de 2011

O Associado de Pesquisa do C4SS Kevin Carson é autor contemporâneo mutualista e anarquista individualista cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política MutualistaTeoria da Organização: Perspectiva Anarquista Individualista, e A Revolução Industrial Gestada em Casa: Manifesto de Baixo Overhead, todos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para publicações impressas tais como O Homem Livre: Ideias acerca de Liberdade e diversos periódicos e blogs baseados na internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista.

A Política da Fome

quinta-feira, setembro 15th, 2011

http://c4ss.org/content/7061

Afixado por David D’Amato em 13 de maio de 2011 em Commentary

Destacando a China como exemplo, a BBC News informa que “o índice de preços de alimentos da Organização de Alimentos e Agricultura está em seu mais alto nível desde quando criado em 1990. À medida que os preços dos alimentos sobem,” acrescenta o artigo, “aumenta também a pobreza.” Só nos primeiros poucos meses deste ano alguns mercados asiáticos testemunharam aumento de até 10 por cento nos preços locais de alimentos, mudança que potencialmente poderá fazer quase 65 milhões de pessoas mergulharem na pobreza, de acordo com algumas estimativas.

Embora observadores e comentadores sejam lestos em importunar governos para que ajam, fazendo todas as usuais alegações de “fracasso do mercado,” o problema mundial de alimentos é consequência de intervenção do estado.

Como observou o professor de direito Siva Vaidhyanathan (a respeito das leis de propriedade intelectual), “As indústrias de mídia de massa têm interesse em criar escassez artificial por quaisquer meios jurídicos e tecnológicos a seu alcance.” E o mesmo é verdade dos fornecedores de produtos de comércio em larga escala cujo interesse é assegurar que a nutrição de que precisamos para sobreviver venha-nos por intermédio deles.

Em umas poucas fazendas gigantescas, subsidiadas pelo estado e protegidas pelo estado, atacadistas e varejistas podem controlar unilateralmente o suprimento, podem exigir em pagamento qualquer preço caprichoso que determinem. Essa propensão — indústria cada vez mais cartelizada com cada vez menos “competidores” — é endêmica no capitalismo de estado, mas estranha a mercados genuinamente livres.

Os livres mercados dividem e moderam o poder de mercado mediante negarem proteção e privilégios especiais e abrirem a competição a amplo sortimento tanto de entrantes quanto de métodos. Apenas onde ameaças em potencial ao monopólio corporativo são tornadas impossíveis por força de lei — por meio de, entre outros obstáculos, de padrões de “segurança” e “proteção ao consumidor” — podem os “capitães de indústria” de nossos dias ascender ao domínio do mercado.

É com demasiada frequência assumido que os gigantescos conglomerados que povoam o panorama do capitalismo sofrem com regulamentações pretensamente visante a saúde e proteção. Essas regras, todavia, funcionam sistematicamente para proscrever a barraquinha de produtos da fazenda levantada na rua, o pequeno produtor local que não tem condições de singrar os meandros arbitrários e injustificados erigidos pela classe política.

Elites poderosas fazem lobby e dão as boas-vindas a novas leis que restrinjam as opções do consumidor, impedindo-o de “recorrer a outro fornecedor.” Hoje em dia, o preço que pagamos pelos alimentos é bastante independente dos custos reais de produzi-los. Onde as pressões naturais de um mercado legitimamente livre empurrariam os preços para baixo de modo a refletirem o verdadeiro valor do produto, as restrições do capitalismo de estado à competição tornam possível às grandes empresas extraírem lucros oriundos de monopólio.

Em mais outro distancimento da disciplina do mercado real, o transporte subsidiado pelo contribuinte significa que a maioria das pessoas obtém seu alimento proveniente de centenas ou milhares de quilômetros, em vez de centenas ou milhares de metros, de distância. Quando o preço do petróleo aumenta, aumenta também o preço dos alimentos. Com tão poucas alternativas para o lixo produzido em massa pelo agronegócio robustecido pelo estado, não há nenhum motivo real para dar-se ao impotente consumidor qualquer coisa parecida com bom produto por bom preço. Não é preciso dizer mais no tocante a “proteção ao consumidor.”

Em lugares como China e Sudeste Asiático governos entregaram a ricas companhias terra cultivada por produtores rurais havia milhares de anos, terra que alimentava as famílias e as comunidades deles. O estado e seus protegidos não têm como reivindicar essas terras recorrendo a qualquer padrão bem-fundamentado de propriedade, mas a ética do estado nunca se afastou muito da máxima segundo a qual o poder define o direito.

Os custos ascendentes e a escassez de alimentos, crescente crise no mundo inteiro, são criação do estado, fenômeno que existe completamente sem relação com o que podemos, seriamente, chamar de “forças do mercado.” Os anarquistas de mercado removeriam as restrições e a coerção da produção de alimentos e permitiriam que as trocas voluntárias alimentassem o mundo.

Em vez de anelar por um paraíso utópico, os anarquistas de mercado argumentam que, sem escassez criada pelo estado para ricos buscadores de renda, as pessoas ao redor do mundo seriam capazes de fornecer boa alimentação para suas famílias mediante fração do trabalho que realizam nos dias de hoje. Podemos ou ficar esperando que os membros da elite da classe política “resolvam” um problema que criaram, ou podemos permitir cooperação e genuíno livre comércio em escala humana, para atendimento das necessidades das pessoas.

Já vimos como as soluções políticas funcionam. É hora agora de a sociedade sair do sufoco do estado.

O Analista de Notícias do C4SS David D’Amato é anarquista de mercado e advogado com LL.M. em Direito Internacional e Negócios. Sua aversão à superstição e a todas as formas assumidas pela autoridade política manifesta-se em www.firsttruths.com.