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Sem Adjetivos

domingo, julho 18th, 2010

http://c4ss.org/content/3111

Sem Adjetivos

Postado por Anna Morgenstern em 4 de julho de 2010 em Artigos em Destaque

Se você tiver interesse numa sociedade sem estado, precisará entender o que é o estado. Caso contrário você terminará perseguindo sombras, e muitos dos que se dizem anarquistas amiúde fazem isso, infelizmente. Quando você olha ao redor, pode ver exemplos da obra dele em toda parte. Cada carro da polícia que você vê, as várias “autorizações” e “licenças” ao você entrar numa empresa (ao você começar a procurá-las, vê-las-á o tempo todo, sem mesmo tentar …) e, depois, as coisas mais sutis. Pois bem, você notará que não mencionei estradas, ou escolas, ou semáforos. Pois são coisas que existiriam com ou sem o estado. A forma específica que tendem, porém, a tomar em nosso mundo é, ela sim, obra do estado, e bem assim as formas específicas de todas as nossas instituições e empresas. (Lembram-se das “autorizações” acima?)

Tudo isso, porém, é o rastro que o estado deixa. O que, pois, é o estado? Muitas pessoas acham que é uma organização por vezes chamada de “o governo.” Este é uma peça do quebra-cabeça, mas não a resposta completa. Os governos do mundo atuam como uma espécie de organização administrativa e órgão de fiscalização a serviço do estado, sendo pois indispensáveis para a continuação da existência deste. Há, porém, mais que isso. Em países totalitários, “governo” e “estado” parecem muito ser a mesma coisa, porque o governo controla tudo muito diretamente. Em países mais liberais/libertários, começam a emergir as diferenças. Uma perspectiva que descobri a qual lança muita luz sobre o estado é o exame da Máfia. Será que uma “empresa legítima” de propriedade da Máfia não constitui, em realidade, parte da Máfia? Mesmo não se tratando de uma fachada para lavagem de dinheiro e funcionando com intento de lucro, ainda assim é, basicamente, parte da Máfia.

Embora governo e Máfia ostentem similaridades, exibem, também, certas marcantes diferenças. Uma delas, bastante acentuada, e para a qual não se atenta, é as autoridades do governo nunca obterem diretamente lucros reais decorrentes de suas atividades. De fato, a maioria das atividades delas não geram lucro, ou têm prejuízos constantes mesmo quando recebam pagamento. Elas recebem um salário, pago a partir de dinheiro furtado, mas esse salário é relativamente fixo e não dependente de desempenho (estou certa de que ficam muito gratas por isso). Assim, você tem de alargar sua visão e ver que essas autoridades rodiziam para dentro e para fora de emprego no “setor privado” e então a coisa começa a fazer mais sentido. As empresas favorecidas pelo estado são aquelas que empregam ex-empregados do governo e vice-versa. O fato de ser permitido às autoridades do governo possuírem ações (embora isso seja, até certo ponto, regulamentado) em empresas privadas é outro indício.

Então, por que o fingimento? Por que esse embuste do “público” e do “privado?” Ora, é isso. É o estado. O estado É esse embuste. O estado … é uma ficção social. É o mito da legitimidade. Esse mito é a fina linha preta que separa os vínculos do “governo” com seu “setor privado” de qualquer outra Máfia. O fato de as pessoas acreditarem que “o governo” tem permissão legítima para matar e furtar, e que, ao fazê-lo, representa algo bom e justo, é o que tem permitido a ele dominar o mundo. E a despeito do mito secundário de que o governo existe para combater o crime, é a própria existência do governo que permite às Máfias menores prosperar.

No passado esse mito da legitimidade era levado a efeito por meio da religião. Na medida em que as diversas religiões eram as beneficiárias do “setor privado” do governo, pregavam que o estado era o braço secular de suas organizações, dedicado a robustecer “a vontade do senhor” na Terra.

Embora em si uma bobagem, pelo menos era admitida a conexão.

Hoje, uma nova religião, a da “democracia,” legitima o estado ao asseverar ser este o encarregado de fazer valer “a vontade do povo.” (Mesmo quando o povo parece estar bastante contra o que o governo esteja fazendo, como nos recentes socorros financeiros a bancos). Outras flatulentas pomposas ideias como “ordem social,” “tradição” e “bem público” são também usadas para entretecer esse feitiço mágico nas cabeças das pessoas.

Portanto, agora que sabemos o que é o estado, sabemos o que é o Anarquismo. O Anarquismo, em verdade, é simplesmente o entendimento de o estado ser meramente uma ficção social e não ter legitimidade. Quando você tem experiência pessoal dessa verdade, não obedece à lei simplesmente por ser a lei. Deixará que sua consciência seja seu guia. Nesse momento você não mais está simplesmente sendo governado, embora crimes possam ser cometidos contra você pelo “governo” e seus lacaios. Quando a Máfia força alguém a dar dinheiro em troca de proteção, a pessoa não está sendo governada, e sim sendo roubada.

O que, então, é liberdade? Liberdade é a ausência de crime. Crime real, crime com vítima. Crimes que a consciência de todas as pessoas reconhecem como tais. Então, libertário é aquele que deseja extinguir – ou, mais realisticamente, minimizar – o crime.

Nem todos os anarquistas são libertários (vêm à mente alguns stirneristas), mas a maioria é, ao menos até certo ponto. Todos os anarquistas, porém, entendem que ninguém tem qualquer autoridade especial, que ninguém mais tem, para cometer crimes.

Todas as teorias políticas envolvem algum nível de crime. Alguém é vitimado em benefício de alguém. Os “liberais” (como os conhecemos hoje) tendem a ser a favor de um regime plutocrático muito suave e seguro — buscando aparar todas as arestas da vida de todos a fim de tornar-nos todos recursos econômicos a ser explorados. Os “conservadores” adotam uma abordagem mais dura, na qual os trabalhadores são colocados numa situação de terem de competir por recursos sempre mais escassos; uma abordagem darwiniana para maximização de nossa produtividade. No final das contas, trata-se apenas de técnicas diferentes de administração do rebanho.

Ahhh, dirá porém você, esta é uma era de corporatismo e coletivismo em ascensão. E quanto às teorias políticas do passado? O liberalismo clássico era uma espécie de libertarismo minarquista. Temos de ter este tanto de crime organizado (cometido pelas classes dominantes), simplesmente para podermos combater o crime esporádico, desorganizado (geralmente cometido pelas classes mais inferiores). O problema é que isso abre as portas para todo tipo de “flexibilidade” que leva ao liberalismo que temos hoje.

O conservadorismo clássico / paleoconservadorismo é uma espécie de colcha de retalhos de ideias as quais asseveram que “esta ordem social é boa,” e quaisquer crimes que tenhamos de cometer para manter essa ordem são pois justificáveis. É quase voltar a dar ouvidos ao antigo regime de estatismo religioso, e ele de fato atrai muitas pessoas de tipo religioso.

Ambas essas ideologias são muito menos totalitárias do que a moderna democracia corporativa, mas isso é simplesmente de esperar. Elas entenderam, a certa altura, que o controle totalitário é contraproducente … o hospedeiro que não prospera deixa pouco para o parasita. E pois desenvolveram estratégias políticas que permitissem ao hospedeiro prosperar, proporcionando ao mesmo tempo um banquete decente para o parasita.

Hoje vemos uma tentativa de uso de finança-economia espúria para minimizar/maximizar a quantidade de crime vis-à-vis a saúde e riqueza da população que o crime alimenta. Os predadores têm demonstrativos e gráficos que você vê, e dão aulas expositivas acerca de “como obter o máximo de sua presa.” Também não pensam em prazo tão longo quanto no passado, pois deixaram o sentimentalismo para seus filhos (e poderá você censurá-los por isso?)

O anarquismo, ele próprio, cindiu-se em muitas subdivisões e facções. Em realidade, porém, todas essas facções são crenças diferentes acerca de que “cara” teria uma sociedade sem estado. Todos os anarquistas, isto é, todas as pessoas que entendem que ninguém está autorizado a cometer crimes, terão uma meta única, caso desejem que seu(s) desejados(s) futuro(s) venha(m) a realizar-se, isto é: a destruição do mito da legitimidade. Esse é o único modo pelo qual se pode esmagar o estado. Agora: há diversas estratégias e métodos que podem ser usados para fazer-se isso, mas qualquer coisa que não ataque, direta ou indiretamente, o mito da legitimidade é extra-anarquista. Será talvez o fortalecimento de uma ordem social que foi esvaziada pelo estado, ou um desvio de recursos que alimentam o estado, mas não importa. Onde discordamos enquanto anarquistas é menos importante do que onde concordamos.

Muitos anarquistas de “esquerda” asseverarão, por exemplo, que os anarcocapitalistas não são, em realidade, anarquistas. Isso, para mim, parece confusão acerca do que o capitalismo significa para os anarcocapitalistas. À luz do que os anarquistas de esquerda querem dizer com “capitalismo,” os anarcocapitalistas são não não anarquistas, e sim não capitalistas. E o inverso é também verdade. Um anarcossocialista não é o tipo de socialista que um anarcocapitalista pensa ser um “socialista.” Todos os anarquistas, porém, acreditam que o estado é uma insensatez e não tem o direito de reclamar para si algum tipo de autoridade mágica para fazer coisas que você e eu não podemos fazer.

Existem pseudoanarquistas, sem dúvida, mas eles são o tipo de gente que acaba batendo palmas para essa super-Máfia mágica quando suas ideias favoritas ganham o cenário.

Havendo ouvido os conceitos reais (e não apenas conceitos imaginários acerca das ideias deles) de anarquistas de todo tipo, cheguei à conclusão, como também Voltarine DeCleyre, uma de minhas heroínas, que sou anarquista sem adjetivos. Tão somente descartemo-nos da ficção do estado, e em seguida permitamos que cada um tente o que puder, e vejamos como tudo funcionará.

A Escritora Colaboradora do C4SS Anna O. Morgenstern é anarquista de um tipo ou de outro há quase 30 anos. Seus interesses intelectuais incluem história econômica, psicologia social e teoria da organização voluntária. Ela gosta de piñas coladas, mas não gosta de ser apanhada pela chuva.

Parem de Governar, Não de Proporcionar Serviços

terça-feira, junho 15th, 2010

http://c4ss.org/content/2863

Postado por Darian Worden em 10 de junho de 2010 em Commentary

Autoridades do estado de New York ameaçam fechar serviços não essenciais do governo se um orçamento estadual não for aprovado. O que, porém, é um serviço essencial do governo?

A “primeira greve do governo da história de New York,” como se expressa o New York Times num artigo de 9 de junho, não será tão excitante quanto a fazem soar. O governo ainda continuará funcionando; será, apenas, menos conveniente para os governados.

As autoridades pretendem continuar financiando serviços “essenciais,” como a Polícia do Estado (que perturba o tráfego das rodovias) e as prisões (que abrigam, principalmente, aqueles que cometem crimes sem vítima). O que será fechado são burocracias como o Departamento de Veículos Motorizados, monopólio do governo que as pessoas só precisam usar porque trabalhadores essenciais do governo as forçam a tanto. Parques controlados pelo estado fecharão, e o sistema computadorizado que processa reivindicações do programa de benefícios-saúde para carentes – Medicaid provavelmente não funcionará.

Situação análoga ocorreu em New Jersey em 2006. Políticos do estado continuaram a governar, mas não deixaram as pessoas usarem coisas pelas quais pagaram. Basicamente, as pessoas foram feitas reféns na procura de influência política.

Forçar uma decisão quanto ao que é considerado serviços essenciais do governo mostra qual é a natureza essencial do governo. Ele existe para exercer a força. Não para manter a sociedade funcionando sem percalços, e nem para assegurar que as pessoas tenham acesso à medicina. Essas coisas só figuram aí para fazer parecer que a sociedade não poderia funcionar sem o timão do estado. Governo é aquilo que governa, e governar é dominar outras pessoas por meio de autoridade iníqua.

As táticas de greve do governo deveriam suscitar a questão de como fazer as coisas sem o estado. Métodos alternativos de resolução de disputas não dependentes de tribunais “não essenciais” do governo seriam certamente algo em que pensar.

Outra cogitação seria: como poderiam as pessoas assumir coisas das quais o estado reclama propriedade?

Quando os líderes empresariais da Argentina abandonaram os locais de trabalho e aqueles que ali trabalhavam, considerando não valerem o investimento, os trabalhadores mantiveram seus empregos mediante eles próprios assumirem a gerência dos locais de trabalho.

Quem precisa de um governador para dizer como um parque deve ser administrado? As escolas provavelmente funcionariam melhor se geridas por pessoas que as usam em vez de por burocratas do Departamento de Educação. E todas as empresas ficam melhores ao serem administradas com base nas escolhas de indivíduos livres, não com base na coerção dos serviços essenciais do governo.

Se pessoas em número suficiente trabalhassem pelo máximo de liberdade em vez de concentrarem-se em ficar dosando as maneiras pelas quais o estado exerce coerção, as crises do governo poderiam ser usadas para obtenção de maiores concessões dos politicamente poderosos. Se houvesse suficiente demanda nesse sentido, os estados poderiam ser fechados de uma vez por todas e poderíamos fruir de um futuro sem órgãos coercitivos que aumentam o custo de vida enquanto trancam a economia numa hierarquia rígida.

As estruturas de poder autoritário que sempre tiram mais das pessoas e aplicam mais restrições a elas são instáveis. À medida que seu funcionamento afete cada vez mais indivíduos, haverá escalada de polarização e de conflito. O caminho da reestruturação(*) é parar de lutar para dominar os outros – a anarquia seria boa para o mundo.

(*) The Way Forward – O caminho para a frente, nome dado ao programa de reestruturação da Ford. Ver Wikipedia em inglês, The Way Forward.

Darian Worden é escritor anarquista individualista com experiência em ativismo libertário. Suas obras de ficção incluem Traga uma Arma de Fogo no Dia de Aula e o vindouro Guerra Comercial. Seus ensaios e outras obras podem ser vistos em seu seu website pessoal. Tem também um programa de rádio na internet, Pensar a Liberdade.

O Estado e o Monopólio da Energia

domingo, junho 6th, 2010

http://c4ss.org/content/2570

Postado por Darian Worden em 27 de maio de 2010 em Artigos em Destaque

As sociedades avançadas precisam de energia – em forma de combustível ou eletricidade  – para alimentar as máquinas necessárias para sustentá-las. Políticos e capitalistas não ignoram tal oportunidade de exercer tremenda influência sobre a sociedade, e seus esforços para controlar o mercado de energia prejudicam o ambiente e a economia do restante de nós.

Privilégio

Benjamin Tucker usou o termo “monopólio” para descrever áreas onde a intervenção do governo permitia a algumas pessoas monopolizar funções econômicas críticas. Como escreve Charles Johnson [1], Benjamin Tucker descreveu “quatro grandes áreas onde a intervenção do governo criava ou estimulava artificialmente ‘monopólios de classe’ – concentrando riqueza e acesso a fatores de produção nas mãos de uma classe politicamente seleta protegida da competição, e impossibilitando a organização de alternativas mutualistas pelos trabalhadores.” Identificou-as como Monopólio da Terra, Monopólio do Dinheiro, Monopólio da Patente, e Monopólio da Tarifa.

Considerando-se o uso frequente das patentes para monopolizar setores da atividade econômica, convém aqui examinar o monopólio da patente. Como explica Kevin Carson em Estudos em Economia Política Mutualista:

O privilégio da patente tem sido usado em escala maciça para promover a concentração do capital, erigir obstáculos a entrada no mercado(*) e manter monopólio de tecnologia avançada nas mãos de corporações ocidentais…

(*) Para a expressão ‘entry barriers’, procurar ‘entry barrier’ na Wikipedia em inglês e a partir dali clicar em Português para ir ao item correspondente ‘barreira à entrada’.

As patentes estão também sendo usadas em escala global para garantir às corporações transnacionais monopólio permanente de tecnologia produtiva…

Apenas um por cento das patentes mundiais é de propriedade do Terceiro Mundo. Das patentes concedidas nos anos 1970 por Países do Terceiro Mundo, 84% foram de propriedade estrangeira. Contudo, menos de 5% das patentes estrangeiras foram efetivamente usados na produção. Como já vimos antes, a finalidade de ter-se uma patente não é necessariamente a de usá-la, e sim impedir qualquer outro de usá-la. [2]

A empresa que possuía as patentes para tecnologia de bateria de hidreto metálico de níquel, que teria sido útil no desenvolvimento de melhores carros elétricos, foi comprada pela empresa de petróleo Texaco em 2001. A Texaco foi posteriormente comprada pela empresa de petróleo Chevron, que teve a posse das patentes da bateria até 2009. [3]

Represente isso ou não alguma trama dos executivos do petróleo para acabar com o carro elétrico [4], é certamente um caso de uso dos privilégios do governo para monopolizar a produção de energia. Só à Chevron era permitido fazer experiências com a informação técnica da qual a Chevron foi dona no tempo durante o qual sua subsidiária detinha as patentes. A Chevron usou um privilégio do governo para proteger-se da inovação competitiva.

Há certamente demanda por veículos de energia alternativa. Depois de observar as dificuldades que as empresas de fabricação de automóveis colocavam diante de ávidos compradores, e da propaganda nada entusiasta de carros elétricos, o repórter Matt Coker concluiu:

“Ninguém quer carros elétricos? Ninguém — exceto praticamente todo mundo que tenha feito um teste drive com um deles (inclusive certo culpado motorista de Cadillac) e entrou numa lista de espera por um ou está prestes a ter um tomado de si.” [5]

O entusiasmo em torno dos veículos elétricos da Tesla Motors [6] parece comprovar isso. Assim, houve significativa demanda por veículos elétricos ainda não atendida, o que torna plausível crer-se em algum tipo de interferência no mercado.

Petróleo Estatista

Como observa Sheldon Richman [7], o petróleo “há muito tempo constitui preocupação prioritária da elite de políticas nacionais, mais particularmente da instituição de política externa.” Influência sobre a substância que potencia exércitos, produção industrial e o transporte da força de trabalho é imensa fonte de poder. Como as metas dos políticos incluem exercer poder sobre eventos no mundo inteiro, não é de surpreender eles desejarem ter parte na produção de energia.

É largamente reconhecido que o petróleo representou consideração importante nas ofensivas Axis durante a Segunda Guerra Mundial. Mais recentemente, a obtenção de vantagens da guerra pela Haliburton e os combates no Delta do Níger envolveram o petróleo de maneira destacada. Os conflitos mundiais podem trazer à mente o Mad Max II, mas com gangues melhor equipadas.

Se fosse produzida mais eletricidade usando-se geradores de bairro ou painéis solares de propriedade individual, isso descentralizaria significativamente a produção de energia, deixando menos terreno sobre o qual pontificarem os políticos e com o qual pudessem recompensar os contribuintes de campanha.

O que oferece o estado às empresas de petróleo? Apenas o estado pode tomar pela força quantidade maciça de terra, e firmar acordos com empresas que rodiziam empregados entre fileiras corporativas e governamentais. Sem o poder de ofensiva de envergadura mundial da instituição militar dos Estados Unidos, é improvável que os campos de petróleo do Iraque pudessem ser assegurados. Sem o estado, é também menos provável uma prospecção arriscada tal como perfuração submarina ser aceita pelos vizinhos do poço proposto – aqueles cuja fonte de produção ele pudesse pôr em perigo. Se se o aceitassem, teriam maiores incentivos para se concentrarem em segurança do que os regulamentadores do governo e a British Petroleum – BP, nenhum dos quais tem lá muita obrigação de prestar contas.

Como o dono do ambiente é o governo, e não as pessoas locais, as normas ambientais dependem de quem tem mais influência política, não de quem é mais imediatamente afetado. E aqueles com maior influência política são os que têm mais poder e riqueza para dar aos políticos aquilo de que precisam. [8]

É importante o conceito de “captura normativa.” Como escreve Sheldon Richman em O Homem Livre:

Os regulamentadores e as indústrias que eles supervisam desenvolvem relacionamentos mutuamente benéficos que escandalizariam aqueles que idealizam os regulamentadores como cães de guarda. As regras que emergem desses relacionamentos tendem a fomentar indústrias mais monopolistas.

Foi necessária a tragédia de Deepwater Horizon(*) para ressaltar o fato de que um único órgão federal, o Serviço de Administração de Minerais, é “responsável tanto pelo policiamento da indústria do petróleo quando por atuar como parceiro dela nas atividades de perfuração,” escreve o New York Times. “Décadas de lei e jurisprudência juntaram governo e indústria do petróleo na busca de petróleo e lucro. O Serviço de Administração de Minerais capta em média $13 biliões de dólares por ano. [9]

(*) É o vazamento no Golfo do México, ainda em andamento ao ser escrito o artigo.

Os lobistas são outra maneira por meio da qual as empresas de energia ligam-se ao estado. Quando os representantes da indústria são consultados para a elaboração da política do governo, eles obviamente têm em mente os interesses de suas empresas.

As limitações de responsabilidade socializam o risco pelo qual as empresas de perfuração seriam responsáveis na ausência de interferência do governo, criando incentivos para lançarem-se a atividade irresponsável.

Lei aprovada em reação ao vazamento do Exxon Valdez em 1989 [que ainda afeta prejudicialmente a área] torna a BP responsável pelos custos de limpeza. Acontece, porém, que tal lei estabelece um limite de $75 milhões de dólares para outros tipos de danos.

Os prejuízos econômicos da Costa do Golfo provavelmente excederão esse valor. [10]

Não é de admirar que a BP tenha tomado atalhos e ignorado riscos. [11]

BP, a empresa responsável por despejar milhões de galões de petróleo no oceano ao longo do mês passado, exibe histórico destacadamente estatista. Olhando-se para o muito citado segmento histórico do artigo da Wikipedia acerca da BP, descobre-se uma história de colonialistas combatendo nacionalistas na luta pelo controle de recursos por meio de operações secretas, assassínios e a colocação no poder de ditadores títeres. [12]. Por muitas décadas o governo britânico teve a maioria das ações da BP, até a administração Thatcher vender as ações do governo [13].

Competição

O governo reduz as deseconomias de escala e socializa custos. O que aumenta a dificuldade da pequena produção de novas tecnologias capazes de competir com a grande produção.

Como observa Benjamin Darrington em Economias de Escala e Especificidade de Capital Criadas pelo Governo:

Tema prioritário de política econômica é a proteção e promoção dos interesses das corporações capitalistas monopolistas. As técnicas de produção indispensáveis para superar as inerentes graves falhas de operações gargantuescas tais como as delas seriam não econômicas não fossem os constantes esforços do governo de pagar por elas à custa do público, ou acorrendo ao custo do desenvolvimento e do uso de tais tecnologias, ou expandindo as vantagens da organização da grande firma, de maneira a compensar os custos maciços de uso desse sistema falho. O imensa massa de privilégios concedidas para o funcionamento das corporações monopolistas gera economias de escala não pautadas pelo mercado, e distorce a competição em favor das firmas maiores.

O capital desenvolvido e, imprescindivelmente, empregado por essas firmas apresenta forte tendência na direção de certas características, inclusive algo grau de especificidade de uso e concentração geográfica. Essas características revelar-se-iam como importante passivo para as empresas que as usam, não for a as frequentes ações do governo para estabilizar as condições do mercado, absorver o excesso de oferta com gastos públicos, e socorrer corporações insolventes quando aquilo que deveria ser problemas econômicos menores transformam-se em desastres catastróficos sob a friável e inflexível estrutura de capital da economia corporatista. [14]

Quando o governo faz doações para tecnologia alternativa de energia, o dinheiro, provavelmente, irá para grandes firmas estabelecidas. Por vezes as mesmas empresas que coletam subsídios para combustível fóssil serão as mesmas que se mostrarão capazes de controlar novas tecnologias mediante privilégio do governo.

Emancipação

Empresas tão alicerçadas em privilégio governamental, com vínculos com a política do governo, são puramente outro braço da autoridade política.

O controle do estado tranca a competição fora da economia, e aqueles que desejem compartilhar dos controles estarão muito dispostos a cooperar. Solapá-los requer inovação e desejo de descentralizar ou abolir inteiramente o poder. Uma economia livre abrigando demandas fortes, potenciadas, de emancipação e ambiente saudável produzirá coisas que satisfaçam a essas demandas.

Notas

[1] Johnson, Charles “Rad Geek”. “Bits & Pieces on Free Market Anti-Capitalism: the Many Monopolies” http://radgeek.com/gt/2010/05/10/free-market-anti-capitalism-the-many-monopolies/

2] Carson, Kevin. Studies in Mutualist Political Economy, Ch 5, Sec C, pgs 189,192,193

[3] Wikipedia. “Patent encumbrance of large automotive NiMH batteries” http://en.wikipedia.org/wiki/Patent_encumbrance_of_large_automotive_NiMH_batteries

[4] For opposing views on corporate attitudes toward the electric car, see

Hari, Johann, “Big Oil’s Vendetta Against the Electric Car” http://www.independent.co.uk/opinion/commentators/johann-hari/johann-hari-big-oils-vendetta-against-the-electric-car-443388.html and

Woudhuysen, James. “The Electric Car Conspiracy … that never was” http://www.theregister.co.uk/2008/01/01/woudhuysen_electric_car/

[5] Coker, Matt. “Dude, Where’s My Electric Car?” http://www.ocweekly.com/2003-05-15/features/dude-where-s-my-electric-car/1

[6] Market Watch “Tesla Beckons to the True Believers. http://www.marketwatch.com/story/tesla-beckons-to-the-true-believers-2010-05-21

[7] Richman, Sheldon. “The Goal Is Freedom: Self-Regulation in the Corporate State: The BP Spill” http://www.thefreemanonline.org/columns/tgif/bp-spill

[8] For an example of government policy hindering environmental cleanup, see

Johnson, Charles “Rad Geek”. “The Clean Water Act Vs Clean Water.” http://radgeek.com/gt/2010/05/17/the-clean-water-act-vs-clean-water/

[9] Richman, Sheldon. “The Goal Is Freedom: Self-Regulation in the Corporate State: The BP Spill” http://www.thefreemanonline.org/columns/tgif/bp-spill

[10] Werner, Erica. “Federal Law May Limit BP Liability in Oil Spill” http://www.insurancejournal.com/news/national/2010/05/05/109562.htm

Note the Wikipedia article on the Exxon Valdez spill.

http://en.wikipedia.org/wiki/Exxon_Valdez_oil_spill

[11] Granatstein, Solly and Messick, Graham. “Blowout: The Deepwater Horizon Disaster” http://www.cbsnews.com/stories/2010/05/16/60minutes/main6490197.shtml

[12] Wikipedia. “BP”. http://en.wikipedia.org/wiki/BP

[13] Funding Universe. “The British Petroleum Company plc” http://www.fundinguniverse.com/company-histories/The-British-Petroleum-Company-plc-Company-History.html]

[14] Darrington, Benjamin. “Government Created Economies of Scale and Capital Specificity” http://agorism.info/_media/government_created_economies_of_scale_and_capital_specificity.pdf

Darian Worden é escritor anarquista individualista com experiência em ativismo libertário. Suas obras de ficção incluem Traga uma Arma de Fogo no Dia de Aula e o vindouro Guerra Comercial. Seus ensaios e outras obras podem ser vistos em seu seu website pessoal. Tem também um programa de rádio na internet, Pensar a Liberdade.

Se Isso é Sedição, Vamos às Últimas Consequências

sexta-feira, abril 16th, 2010

http://c4ss.org/content/2172

Postado por Kevin Carson em 8 de abril de 2010 em Artigos em Destaque

A resposta de Kevin Carson a Sara Robinson, que, “publicou uma coluna acusando a Direita contrária ao governo de sedição.”

A gente percebe que as coisas tomaram rumo esquisito quando os liberais começam a falar como se fossem membros da Legião Estadunidense(*). Há algumas palavras que eu simplesmente não uso, porque não é possível usá-las sem ficar parecendo ser um bendito Republicano. E “sedição” é uma delas.

(*) American Legion, organização de veteranos com o objetivo de beneficiar veteranos que tenham servido em período de guerra tal como definido pelo Congresso dos Estados Unidos. http://en.wikipedia.org/wiki/American_Legion

Sara Robinson, integrante da Campanha pelo Futuro dos Estados Unidos, e que também escreve no blog de David Neiwert, vem de publicar uma coluna acusando a Direita contrária ao governo de sedição. Bem, algo da espécie, de qualquer modo. É difícil dizer, porque a coluna dela é, digamos assim, aquém de perfeitamente coerente.

Em alguns lugares ela diz que apenas grupos como os Hutaree(*) cruzaram a fina linha rumo à sedição real (definida como “criar revolta, distúrbio ou violência contra autoridade civil legal no intento de causar derrubada ou destruição”) mediante o planejamento de ataques violentos contra o governo. E ela tenta deixar claro que mesmo defender a derrubada do governo, em si, é discurso protegido(**). Só atos abertos enquadram-se no padrão de sedição real.

(*) Grupo miliciano cristão sediado em Adrian, Michigan. O grupo, diz-se, estaria preparando-se para o que acredita será uma batalha apocalíptica com as forças do Anticristo. http://en.wikipedia.org/wiki/Hutaree

(**) protected speech – Discurso protegido, em alguma medida, de censura e/ou regulamentação do governo dependendo da natureza do discurso e da natureza da regulamentação. http://www.ncac.org/art-law/glossary.cfm#55

A declaração de princípios dela, contudo, é, obviamente, apenas um gesto cortês. Se ela se limitasse à linha de que apenas aqueles engajados em violência concreta seriam culpados de sedição, e de que defender a derrubada do governo é discurso protegido, isso poria a perder toda a intenção dela – que é atingir na cabeça, com a palavra “sedição,” a Direita contrária ao governo. Ela faz isso argumentando que, mesmo que esses direitistas não sejam, tecnicamente, culpados de sedição real, e mesmo que sua retórica contrária ao governo seja, tecnicamente, discurso protegido, eles ainda assim são moralmente culpados por criarem uma atmosfera que facilita a sedição ao “deslegitimar sistematicamente a própria ideia de governo dos Estados Unidos.” Eles “desadministram e desfinanciam” o governo quando no poder, recusam-se a participar de boa fé do governo quando fora do poder, tentam “subverter o processo democrático,” e recorrem a retórica polarizadora que torna o país ingovernável.

Tudo isso, diz Robinson, é “sedição em câmera lenta, solapamento corrosivo gradual da autoridade e da capacidade do governo de administrar o país.” E mais, tem estado “no cerne da política deles retroceder completamente a Goldwater.”

Em outras palavras, a despeito de todas as ressalvas dela, Robinson considera  até aqueles engajados no nível de Goldwater de retórica contrária ao governo – mesmo que não técnica e legalmente – pelo menos moralmente culpados de sedição.

Mais: mesmo o uso da linguagem de “revolta popular” é um apelo à sedição.  Robinson pretende que os “Progressistas” tracem uma linha na areia, e demandem das vozes contrárias ao Governo Hipertrofiado da Direita Republicana que ou explicitamente confessem sua intenção de derrubar o governo dos Estados Unidos pela força (e “vão em frente, e enfrentem as acusações”), ou parem completamente de usar a linguagem de revolta popular. “Ou eles são estadunidenses, comprometidos com trabalhar de boa fé dentro do processo democrático para criar nosso futuro comum, ou são sediciosos de intenção ou de fato – e portanto inimigos do estado, pura e simplesmente.”

Creio que a expressão em verdade buscada por Robinson é “libelo sedicioso”: linguagem que tende a difamar, desacreditar, criticar, impugnar, confundir, desafiar ou questionar o governo, suas políticas, ou suas autoridades. E esse é claramente o tipo de linguagem, oriunda da Direita, que Robinson trata de sediciosa em espírito. Nisso ela se coloca em boa companhia com inimigos anteriores da sedição: conservadores puritanos, de perucas polvilhadas, como John Adams, e os Legionários e Esquadrões Vermelhos sabe-nada(*) que prendiam em massa os Trabalhadores Industriais do Mundo(**) e os socialistas durante a Histeria da Guerra no governo de Woodrow Wilson.  Ambos foram responsabilizados por colocar em dúvida a legitimidade do estado, usando linguagem que o colocavam em descrédito, solapando-lhe a autoridade moral indispensável para levar a efeito suas políticas e, em alguns casos, obstando-lhe diretamente a execução dessas políticas.

(*)http://pt.wikipedia.org/wiki/Know_Nothing

(**)http://en.wikipedia.org/wiki/Wobbly

No livro infantil “Por Que Mamãe é Democrata(*),” mundo suburbano(**) da maioria dos liberais da corrente majoritária, aparentemente, as fronteiras do discurso permissível não sedicioso são bastante limitadas. Não é preciso desviar-se muito do raso centrismo com odor de baunilha, gerencial-profissional, para ser-se qualificado como extremista – pelo menos quando os liberais estão no poder.

(*) Livro para crianças que explica o Partido Democrático dos Estados Unidos para crianças. Os personagens principais são mamãe esquilo e dois filhos esquilinhos. Cada página explica um princípio dos Democratas, relacionando-o com uma ação da mamãe. Cada princípio é acompanhado de uma ilustração colorida dos três personagens, sempre sorrindo. Ao fundo, são usados seres humanos para ilustrar o conceito oposto (isto é, os efeitos negativos das políticas dos Republicanos). http://en.wikipedia.org/wiki/Why_Mommy_is_a_Democrat

(**)http://en.wikipedia.org/wiki/Suburban_World_Newspapers

Como as coisas mudaram. Em agosto de 2006 Keith Olbermann, em resposta à sugestão de Rumsfeld de que os críticos da guerra do Iraque eram “desleais,” advertiu que o país estava ameaçado de “um novo tipo de fascismo”: “Esta é uma Democracia. Ainda. Por vezes, por pouco…. A confusão é acerca de se este Secretário de Defesa, e sua Administração, estão na prática concretizando o que eles dizem os terroristas buscam: A destruição de nossas formas de liberdade…”

Isso soa grandemente sedicioso. Ele não estava apenas discordando da sabedoria da política do governo; estava atacando os próprios motivos e intenções daqueles no controle do estado, acusando-os de promover a destruição de nossas formas de liberdade. Agora Olbermann espalha a palavra “traição” praticamente cada vez que a gente sintoniza o programa dele.

Só de passagem, é espantoso como Olbermann et al têm refletido a Direita, ao desradicalizar a Revolução Estadunidense e sua esteira, transformando-a em apenas outra guerra patriótica no estrangeiro contra a Grã-Bretanha em vez de uma derrubada sediciosa da legítima autoridade do governo aqui no país. Independentemente do que diz Chris Matthews, a Bandeira de Gadsden(*) não estava apenas direcionada para um “inimigo externo,” em contraste com o governo aqui dentro do país. E independentemente do que diz Mark Potok, as observações de Jefferson acerca da Árvore da Liberdade e o sangue dos tiranos(**) não se referia apenas a participação no processo político para mudar o governo.

(*)http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandeira_de_Gadsden

(**)”A árvore da liberdade precisa ser regada, de tempos em tempos, com o sangue dos patriotas e dos tiranos.” http://www.quotedb.com/quotes/2074

O problema do padrão de libelo sedicioso de Robinson é ele atingir-me perto demais do lugar onde habito na Esquerda. Vejam bem, eu constantemente me empenho – e as pessoas que mais admiro na Esquerda também se empenham – em lançar dúvida sobre a legitimidade e a autoridade moral do estado.

Por exemplo: se vocês lerem os livros de William Blum e Noam Chomsky acerca da história da política externa dos Estados Unidos, torna-se bastante claro que as atrocidades e crimes contra a humanidade não foram apenas “equívocos” ou “excessos” por vezes ocorridos na execução de uma política cujo objetivo precípuo fosse o de promover a paz e a liberdade humanas; os objetivos das políticas elas próprias eram crimes contra a humanidade. As políticas externas do governo dos Estados Unidos ao longo do século 20 e até hoje foram as políticas de um estado de classe – um estado funcionando como comissão executiva da classe dominante corporativa. As guerras do governo dos Estados Unidos foram, todas elas, conduzidas no interesse precípuo de um sistema corporativo de ordem mundial. Nas palavras de Howard Zinn “sempre houve, como há até hoje, profundo conflito de interesse entre o governo e o povo dos Estados Unidos.”  Ora, se isso não legitima o solapamento da autoridade moral do governo dos Estados Unidos, não sei o que o faria.

Quando o Major General Smedley Butler, do Corpo de Marines dos Estados Unidos, reformado, disse ter sido um leão de chácara de alto nível, um escroque, um potenciador global dos interesses corporativos estadunidenses, ou ele se enquadra no padrão de Robinson de “equivalente moral de sedição” ou ninguém o faz.

E por falar em Zinn, a História do Povo dos Estados Unidos dele é plena, do início ao fim, de exemplos de como o governo dos Estados Unidos tem funcionado não como instrumento para “todos nós trabalharmos juntos,” não como instrumento do “interesse nacional” ou do “bem-estar geral,” mas como um estado de classe cujo principal propósito tem sido o de permitir às pessoas donas do país usarem em proveito próprio aqueles que vivem e trabalham nele.

Glen Greenwald, escrevendo acerca do recente vídeo do WikiLeaks de tropas estadunidenses jovialmente chacinando civis no Iraque, destacou que a chacina não foi “uma aberração”: “foi o esperado, procedimento operacional padrão, foi aquilo que fazemos em guerras, invasões e ocupação. A única coisa rara na matança do helicóptero Apache é sabermos a respeito e vermos no vídeo o que aconteceu(*).”

(*)http://www.collateralmurder.com/

E como nos casos anteriores, nos quais “maçãs podres” como William Calley ou Lynndie England levaram a culpa, os verdadeiros criminosos – os verdadeiros monstros – são homens de fala mansa, despretenciosos, com unhas das mãos tratadas em manicure, sentados em escritórios de mobília de bom gosto, nos mais altos níveis do poder. Não vejo como alguém possa reconhecer isso publicamente sem discrepar do padrão de Robinson de libelo sedicioso.

Porque o fato substantivo é, o governo dos Estados Unidos tem perseguido objetivos perversos, tem servido ao desejo de homens mal-intencionados em busca de riqueza não ganha pelo trabalho, e tem deixado uma trilha monstruosa de sangue e devastação ao fazê-lo. O governo dos Estados Unidos tem mentido para e manipulado o povo estadunidense guerra após guerra a fim de enfrentar “ameaças” externas fabricadas, quando a real “ameaça” que tinha em mente era a ameaça ao poder corporativo global. Ele tem derrubado governos democraticamente eleitos cujo maior crime foi a reforma agrária. Ele tem apoiado golpes militares e torturadores militares, inclusive a cadeia dominó de golpes que Kissinger instigou na América do Sul, e proporcionado ajuda fraternal a esquadrões da morte terroristas, com o sangue de milhões de pessoas inocentes nas mãos de todos os presidentes estadunidenses desde pelo menos meados do século 20.

Quando o governo dos Estados Unidos atua do lado das más intenções, eu alegremente admito estar do lado daqueles que obstruem e subvertem a execução de suas políticas criminosas. Quando os Trabalhadores Industriais do Mundo organizaram os estivadores da Costa Oeste para obstruírem o embarque de material para o Iraque, aplaudi-os. E se ou Bush ou Obama tivessem lançado ataque militar contra Irã ou Venezuela, eu teria desejado que os mísseis Queimadura de Sol afundassem todas as frotas de porta-aviões levando-as para o piso do oceano.

Esse é o problema: não conheço nenhum padrão de libelo sedicioso, de solapamento da legitimidade e da autoridade moral do governo dos Estados Unidos, que não pegue na rede eu, Chomsky, Zinn e Greenwald, juntamente com todos aqueles direitistas.

Vivemos num estado de classe, num sistema de domínio de classe, e a máquina do estado corporativo serve aos interesses desse domínio de classe. “Moderados” e “centristas,” por definição, são aqueles que aceitam esse sistema como fundamentalmente legítimo em todos os seus aspectos essenciais, e só querem reformular as bordas do domínio corporativo, sem alterar sua natureza fundamental.

Recuso-me a aceitá-lo como legítimo, ou jogar dentro das regras respeitando as linhas do discurso aceitável traçadas por Robinson.

Se é para haver sedição, então tirem o máximo proveito dela.

Adendo. Jesse Walker, da Revista Razão, chamou minha atenção para essa citação de Sara Robinson (de “Estados Unidos Fascistas: Teremos Já Chegado Lá?”):

“Durante todos os anos tenebrosos da Administração Bush, os progressistas acompanharam com horror as proteções constitucionais desvanecerem-se, a retórica nativista ampliar-se, o discurso de ódio transformar-se em intimidação e violência, e o presidente dos Estados Unidos açambarcar para si poderes só reclamados pelos piores ditadores da história. Com cada novo ultraje, o pequeno punhado de nós que nos tornamos especialistas em cultura e política da direita ouvíamos mais uma vez de leitores preocupados: É isso então? Tornamo-nos, finalmente, um estado fascista? Já chegamos lá?”

Acusar a administração Bush de apossar-se de poder ditatorial, conspirando numa aliança fascista com elementos terroristas de camisas pardas da população, etc…. Soa-me claramente sedicioso. Certamente parece algo que envenenaria a água do poço, e solaparia a autoridade moral do governo e a capacidade deste de governar. E soa como algo que ela chamaria de sedicioso se Michelle Bachmann dissesse isso a respeito de Obama.

Talvez, contudo, dependa de quem esteja fazendo a acusação, ou de a acusação ser “verdadeira” ou não, em vez de da substância material e o tom da acusação ela própria. TBSVFUL? (Tudo Bem Se Você For Um Liberal)?

Para constar, eu temia que a administração Bush estivesse entusiasticamente apossando-se de poderes ditatoriais, e de os elementos demográficos que avançaram para formar a base do Partido do Chá fossem realmente mais propensos à retórica eliminatorista, ao autoritarismo e à violência do que os Democratas liberais. Creio que, numa coluna anterior, os descrevi como aparentemente com probabilidade de cortar a cabeça de serpentes e falar em línguas estranhas.

E, para constar, acho Obama muito menos assustador do que Bush. Ele vem mantendo inalterada a maior parte do aparato burocrático de poder executivo ditatorial, e tem mostrado muito menos entusiasmo em desmantelá-lo depois da eleição do que antes. Contudo, parece bastante menos envolvido do que Bush e especialmente Cheney, se entendem o que digo – especialmente em comparação com Cheney, que realmente parece totalmente propenso a afirmar reivindicações ditatoriais como Carlos I antes da Guerra Civil. E, como aludi antes, acho as pessoas que participam de “reuniões comunitárias” a respeito de “fascismo” e “marxismo” e “painéis de eutanásia(*)” bastante desagradáveis.

(*)http://en.wikipedia.org/wiki/Death_Panel#Rationing_of_care

Tudo isso porém é irrelevante. Se acusações de determinada natureza são exorbitantes, são-no para todo mundo. Ou a Sra. Robinson precisa alterar suas definições de “extremismo” e “sedição” para permitir ataques amplos às intenções básicas e à fidedignidade daqueles que controlam o estado, ou será vítima de seu próprio petardo.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

Ação Política Reformista como Diversão, Parte Três

terça-feira, abril 6th, 2010

http://c4ss.org/content/2138

Postado por  Kevin Carson em 5 de abril de 2010 em CommentaryFeature Articles

Na primeira postagem desta série, citei declarações várias de membros do Partido do Café no sentido de o envolvimento cívico e a participação política serem o único caminho viável. Se desejarmos mudar as coisas, teremos de participar do processo político.

Argumentei que, se assim for, estaremos perdidos.

Não acredito, porém, que a participação política e a política reformista sejam, de fato, nem o único caminho viável nem o melhor caminho para a mudança.

Charles Johnson, do blog Rad Geek, tem argumentado repetidamente ser mais custo-eficaz encontrar “meios eficazes de pessoas individuais ou, melhor ainda, grandes grupos de pessoas, escaparem ou contornarem a fiscalização e a tributação do governo” do que trabalhar dentro do processo político para mudar este ou aquele aspecto das políticas. Quero dizer, se você for um bom professor de comportamento adequado, como os membros do Partido do Café, poderá (como diz Johnson) “começar com os piores aspectos da lei, construir uma coalizão, fazer as coisas de sempre, conseguir que sejam removidos ou talvez melhorados os piores aspectos, aguentar o repuxo e então, alguns ciclos eleitorais mais tarde, começar a falar acerca dos aspectos quase tão ruins da lei, construir outra coalizão, lutar um pouco mais, e assim por diante….” Ou você poderá simplesmente utilizar uma pequenina fração desses recursos no desenvolvimento de meios de escapar da fiscalização voltada para o cumprimento da lei, de tal maneira que possa ignorá-la e violá-la impunemente.

Tentar gastar mais e fazer mais lobby do que nossos inimigos é como ensinar padre-nosso ao vigário: “Se você colocar toda sua esperança de mudança social na reforma legal, e se você colocar toda a sua fé na reforma legal em táticas internas ao sistema político, esteja certo de que você é quem será manobrado a cada passo por aqueles que têm os bolsos mais fundos, que gozam de melhor acesso à mídia e que são mais bem-relacionados.”

Tomemos, por exemplo, o novo tratado ACTA(*) de copyright digital: Poderemos dedicar milhares de horas de nosso tempo escrevendo cartas, telefonando para nossos representantes, organizando manifestações e participando de audiências públicas a fim de obter um pequenino assento à mesa, ao lado dos gigantes dos conteúdos patenteados, e talvez obter alguma torção menor de linguagem que torne a fiscalização menos opressiva. Ou poderemos simplesmente usar servidores intermediários [proxy(**)] e darknets(***) para copiar e distribuir conteúdo patenteado, e fazer ativamente tudo o que pudermos para tornar conhecidos tais métodos, de tal maneira que o copyright digital se torne impossível de fiscalizar.

(*) Anti-Counterfeiting Trade Agreement, Acordo Comercial Anticontrafação, http://pt.wikipedia.org/wiki/Acordo_Comercial_Anticontrafação

(**)http://en.wikipedia.org/wiki/Proxy_server

(***)http://pt.wikipedia.org/wiki/Darknet

A maneira real de provocar mudança é viver do modo que desejemos já agora, sem esperar legalização pelo estado. O slogan dos Trabalhadores Industriais do Mundo, “construir a estrutura da nova sociedade dentro da estrutura da antiga” é adequado: construir uma sociedade aqui e agora, baseada nos tipos de contrainstituições com as quais desejemos lidar, furtando às instituições do capitalismo de estado, o quanto possível, nosso dinheiro e trabalho, trabalhando pelo dia quando nossa nova sociedade devorará a antiga de dentro para fora e a suplantará – e quer esse dia venha cedo ou tarde, viver no entretempo do modo que desejarmos sem a permissão de ninguém. Cito extensamente Johnson:

“Em vez de proteger os lares e os meios de sustento das pessoas com documentos do governo, protegê-los por meio de pessoas organizadas. Precisamos de novas técnicas, novas instituições, e novos relacionamentos sociais que, em última análise, nos ajudem a proteger-nos, a evadir-nos, a solapar, a resistir e, enfim, a desarmar a coerção do governo no tocante a nossos lares e empregos. Mutirões em vez de crédito bancário para construir casas sem licença, e solidariedade social e obstrução por meio de pessoas para protegê-las das demolições do governo. Ferramentas para comunicação confidencial, e mediação fora das cortes políticas. Greves e boicotes sem licença do sindicato e ações de chão de fábrica para resolver disputas trabalhistas em vez de arbitragem burocrática…. Não precisamos da torpe legalidade deles. Precisamos é de uma alternativa consensual.

“Nada há de errado na ilegalidade que não possa ser consertado com mais organização social extralegal de base.

“Nâo legalize; organize.”

Exatamete. Estamos engajados numa corrida armamentista de grandes proporções, ofensiva-defensiva, com os órgãos de fiscalização do estado. A vantagem está quase sempre na defesa. Uma política do governo quase sempre pode ser burlada com uma pequena fração do custo de fazê-la cumprir. No caso com o qual estou mais familiarizado, o movimento do compartilhamento de arquivos, as forças da cultura livre estão sempre vários passos à frente das forças do conteúdo patenteado. A despeito de todas as leis de administração de direitos digitais – DRM(*) e contra burla, geralmente transcorrem apenas minutos entre a divulgação de um filme ou disco e o surgimento da primeira versão livre de DRM num site de download.

(*) Digital Rights Management, http://pt.wikipedia.org/wiki/Gestão_de_direitos_digitais

Não precisamos mudar a lei. Só precisamos torná-la irrelevante.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

Ação Política Reformista como Diversão, Parte Dois

segunda-feira, abril 5th, 2010

http://c4ss.org/content/2135

Postado por  Kevin Carson em 2 de abril de 2010 em CommentaryFeature Articles

Em meu comentário anterior desta série, sugeri que o estado, em razão de sua própria natureza, era receptivo a ser controlado principalmente por grupos de pessoas internas a ele.

Isso se deve, em parte, à “Férrea Lei da Oligarquia” enunciada no início do século 20 por Robert Michels, em Partidos Políticos: a tendência, independentemente do padrão de democracia formal segundo o qual os grupos são eleitos, dos delegados acumularem poder em detrimento de seus diretores, de grupos mais elevados concentrarem poder a despeito de sua responsabilidade teórica em relação aos grupos mais inferiores, e das equipes permanentes acumularem poder em detrimento das autoridades eleitas.

Isso é inevitável, já por sermos primatas geneticamente programados para participação em grupos de caçadores-coletores de poucas dezenas de pessoas. Às pessoas, em sua maioria, depois de dedicarem sua atenção a família, trabalho, amigos e bairro, resta pouca energia para acompanhar eventos políticos. Por outro lado, a área de políticas É o trabalho, e constitui a maior parte, do círculo social daqueles que se encontram dentro, administrando a máquina do governo. Assim, pois, as pessoas que administram a máquina cotidianamente sempre gozam de vantagem em energia, atenção, informação e controle da agenda em relação àqueles, de fora, perante quem são nominalmente responsáveis.

E, como questão de simples geometria interpessoal, é quase impossível um grande grupo de pessoas exercer coletivamente autoridade sobre um pequeno grupo de formuladores de políticas. Isso é algo que só pode ser feito por indivíduos e pequenos grupos, entrando regularmente em contato pessoal direto com os formuladores de políticas. Assim, o sistema está predisposto a evoluir num conjunto interconexo de pequenas elites.

Isso continuaria sendo verdade mesmo que o dinheiro fosse tirado da política.

Há uma escola chamada de “Marxismo Estruturalista” a qual argumenta que, mesmo quando o governo é confessadamente esquerdista ou “progressista” e pretende governar a economia no interesse dos trabalhadores e consumidores e em detrimento das grandes corporações, esse governo ainda assim ver-se-á compelido, por motivos estruturais, a servir precipuamente aos interesses das grandes empresas. Dada a estrutura da economia, os círculos mais altos de formulação de políticas do estado serão fortemente influenciados por mensurações tais como crescimento do PIB, níveis de emprego, níveis de investimento e assim por diante.  Eles serão atraídos quase automaticamente para políticas que promovam a lucratividade e a estabilidade da economia corporativa, como mandatária para promoção do pleno emprego e da prosperidade. Esses incentivos serão reforçados mesmo quando um governo consciamente esquerdista ressinta-se dessa necessidade, por coisas tais como a ameaça de fuga de capital internacional. Assim ocorre com pessoas como Lula da Silva no Brasil, que têm sido atraídas para a centro-esquerda e integradas, na maior parte, numa estrutura neoliberal global. Immanuel Wallerstein argumenta, a partir daí, que mesmo regimes socialistas de estado como a URSS foram funcionalmente integrados no sistema mundial capitalista mais amplo.

A dinâmica da informação também entra em cena. Mesmo se os políticos “progressistas” não dependerem das grandes empresas para financiamento de suas campanhas, os planejadores e regulamentadores econômicos ainda assim continuarão dependendo das indústrias regulamentadas como sua principal fonte de dados. A menos que a administração do estado crie uma estrutura administrativa diretamente paralela à economia corporativa, e mande todo o seu pessoal fazer Mestrado em Administração de Empresas como preparação para atuar como “autoridades políticas” monitorando as hierarquias corporativas a partir de dentro, as informações das quais o estado depende para traçar a política econômica será gerada principalmente internamente às grandes corporações. E mesmo o mais “progressista” aparato regulamentador tenderá a ser cooptado para dentro de um complexo regulamentador-regulamentado dominado pelos partidos “de oposição” que compartilham da mesma cultura organizacional dos homens brancos vestidos de terno, e compartilham das mesmas assunções implícitas (o que C. Wright Mills chamou de “realismo lunático”) acerca do que é realisticamente possível. Praticamente tudo o que é defendido pela esquerda descentralista e libertária ficará fora da mesa desde o início, excluído pelas assunções funcionais inconscientes tanto dos regulamentadores quanto dos regulamentados.

E tudo isso ignora o fato de que os “progressistas” que controlam a Casa Branca e o Congresso não são em absoluto realmente de esquerda ou anticorporativos. Longe de representarem um poder que contrabalance as grandes empresas, como argumentei na parte anterior, eles realmente representam apenas a facção mais “progressista” das próprias grandes empresas, desejosa de tratar seus trabalhadores mais humanamente para obtenção de lucros garantidos oriundos do estado.

Assim, será extremamente difícil (se não impossível) mudar a estrutura fundamental de nosso sistema enquanto aliança entre o estado centralizado e a corporação gigante por meio do processo político. Havendo eleito o Presidente e o Congresso mais “progressistas” possível, o povo estadunidense ainda vê a política econômica sendo formulada pelos suspeitos usuais de Goldman Sachs e do Banco da Reserva Federal de New York, a política de copyright digital escrita por RIAA e MPAA etc. Mesmo se dezenas de milhões de pessoas estivessem dispostas a remar contra a corrente e fazer carreira de tempo integral em ativismo, no minuto em que a atenção delas pervagasse ou sua energia oscilasse os suspeitos usuais estariam esperando à mesa para retomar o controle das coisas.

Assim, se a política e a reforma forem as únicas variáveis em jogo, estaremos fritos.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

Ação Política Reformista como Diversão, Parte Um

segunda-feira, abril 5th, 2010

http://c4ss.org/content/2117

Postado por Kevin Carson em 31 de março de 2010 em Feature Articles

Durante o fim de semana vi uma espécie de evento do Partido do Café(*) na área de DC tendo como destaques Annabel Park e outros organizadores do movimento.

(*) O Movimento do Partido do Café diz que o governo não é inimigo do povo, e sim expressão da vontade do povo. http://www.coffeepartyusa.com/ Já o Partido do Chá é um grupo desiludido de cidadãos dos Estados Unidos que opõe-se cegamente a qualquer política legislativa ou de governo que vejam como esquerdista. http://www.urbandictionary.com/define.php?term=tea%20party Ver também a Festa do Chá de Boston, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_do_Chá_de_Boston

Tenho de reconhecer, aparentava ser um punhado de gente bastante fina. Obviamente, depois do ano que passou, não é preciso muito para alcançar esse padrão. Não ridicularizava pessoas com doença de Parkinson, nem gritava “crioulo” e “bicha,” nem dava, de modo geral, a ridícula impressão de gente prestes a começar a falar em línguas estranhas e a cortar cabeças de serpentes.

Finas ou não, fiquei com a clara impressão de tais pessoas melhor poderem ser descritas com uma única expressão: os reformistas políticos(*). Se há um tema dominante em todas as observações de Park e de outros líderes do movimento naquele palco, é engajamento e participação cívicos. Uma – esqueço o nome dela – citou o que Churchill disse acerca da democracia: É o pior sistema que existe, exceto os demais. O processo político é tudo o que temos, disse ela, e, portanto, temos de participar dele e assegurar-nos de que funcione o melhor possível. Ao longo do encontro, ouvi a mesma ideia geral reafirmada por diferentes pessoas: O governo não é bom nem mau, e sim uma ferramenta – e nossa responsabilidade é zelar para que seja usada para o bem.

(*) Goo-goos – de Good Government Guys, ‘os caras do bom governo,’ grupos políticos de uma época em que os governos municipais, nos Estados Unidos, eram dominados por caciques políticos; os goo-goos apoiavam candidatos que lutariam por reforma política. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Goo-goos e também http://en.wikipedia.org/wiki/Machine_politics

O pessoal do Partido do Chá pode acreditar que Obama nasceu no Quênia, ou que ele é, secretamente, muçulmano ou marxista. Alimenta, porém, uma crença com a qual concordo: não confia no governo. Isso não significa que eu endosse as besteiras acerca de helicópteros negros ou vagões fechados brancos. Mesmo nesse nível, porém, creio ser seguro dizer que os limites entre o tipo de arrepiante autoritarismo burocrático que vimos experimentando ao longo dos últimos trinta anos de guerras variadas contra drogas e terror e uma ditadura plena são muito menos nítidos do que a maioria das pessoas pensa ser.

Mesmo, porém, estipulando que a maioria das pessoas envolvidas na elaboração de políticas de governo seja bem-intencionada (o que provavelmente é verdade), e deixando de lado minhas objeções morais, como libertário, à iniciativa da força, acredito que tornar o governo o veículo principal para o atingimento dos objetivos de alguém é embarcar em canoa furada.

Um dos sujeitos no evento do Partido do Café parecia sugerir esse tipo de coisa, embora eu ache que ele não tenha alcançado plenamente as implicações do que dizia. Ele questionou o centrismo do movimento do Partido do Café, argumentando que – longe de simplesmente desejar encontrar um meio-termo entre os “extremos” da esquerda e direita – a maior parte das pessoas do movimento estava horrorizada com a tomada do sistema político pelas corporações e era crítica em relação à liderança Democrática da esquerda. E destacou o quanto era terrível, penosa a luta para participar do governo ou exercer controle sobre ele em qualquer sentido significativo sem tratar do papel estrutural do poder corporativo no sistema político. As pessoas poderiam empenhar-se de alto a baixo em eleger candidatos “progressistas” – Obama e Pelosi são provavelmente os mais “progressistas” presidente e líder da maioria eleitos em toda uma geração, e detêm a mais ampla maioria que os Democratas provavelmente deterão durante referida extensão de tempo – mas ainda funcionam dentro de uma estrutura estabelecida pelas corporações que financiam suas campanhas e fornecem a maior parte do aconselhamento “especializado” para as equipes deles na elaboração de legislação.

Acho que aquele sujeito tinha em mente uma “solução” baseada no financiamento público das campanhas, ou algo da espécie. Se, porém, ele acha que isso acabaria com a natureza corporativa de nosso sistema político, está tristemente equivocado. Concedo que isso poderia levar a uma forma de servidão corporativa um pouquinho mais tolerável por nós servos, como o modelo europeu ocidental de democracia. E dada uma escolha entre duas formas de estatismo, serei o primeiro a admitir preferir aquele que pese menos em meu cangote. Eu preferiria ter seis semanas de férias e atendimento grátis de saúde do que viver na espécie de república de banana de exploração do trabalho insalubre objeto dos sonhos eróticos de pessoas como Dick Armey e Tom Delay.

Todavia, se aquele amigável crítico esquerdista do movimento do Partido do Café acha que o modelo europeu de social-democracia é menos corporativo ou menos capitalista do que o modelo Reagan-Thatcher, está – mais uma vez – tristemente equivocado. Assim como nosso sistema estadunidense, o modelo continental europeu é um sistema de poder baseado numa conivência entre o governo hipertrofiado centralizado e a grande empresa centralizada. A facção de capital organizado que o controla é um pouco mais esclarecida e humana do que aquela que controla nossa república de banana, e tem muito mais sensatez quando se trata de seus interesses de longo prazo, mas essas são praticamente as únicas diferenças. Como já disse, a principal diferença entre o modelo social-democrático ou liberal corporativo do Novo Pacto e o modelo Reagan-Thatcher é que a fação de capital organizado que controla o primeiro é como o fazendeiro humano que acredita poder obter mais trabalho de seus animais no longo prazo se cuidar bem deles; a facção que controla o último é como o Jones da Revolução dos Bichos, achando mais lucrativo fazê-los trabalhar até à morte e substituí-los.

Independentemente, porém, do quanto sejam humanos nossos senhores, é insensato acreditar que a participação política os tornará menos senhores nossos. O estado, em sua essência, é uma máquina receptiva a controle pelos que estão dentro, e a coalizão dos que estão dentro que o controla sempre vencerá pelo cansaço, no longo prazo, qualquer tentativa de controle democrático externo.

Continuem ligados.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

A Preservação da Ideologia Após o Abandono do Dogma

sábado, abril 3rd, 2010

http://c4ss.org/content/1948

Postado por Darian Worden em 26 de fevereiro de 2010 em Feature Articles

A ideologia determina as metas da ação e dá-nos um modo coerente de entender as coisas. Quando, porém, tornamo-nos excessivamente dogmáticos – quando exigimos rigidamente um modo específico de pensar – perdemos a capacidade de trocar nossas ideias com pessoas que pensarão diferente a respeito delas. O pensamento dogmático quase assume o papel do sectarismo religioso.

A história do marxismo é excelente exemplo de filosofia tornando-se dogma. Em vez de tomar algumas percepções do marxismo e desenvolvê-las, muitos marxistas agiram como se qualquer coisa não descrita em termos marxistas fosse inválida. Ao o marxismo popular desdobrar-se em seitas de leninismo, stalinismo, trotskysmo e maoismo, a devoção fanática à Única Interpretação da Verdade virou material para humor negro.

Quando o dogma decreta que alguém tem de ajuntar-se atrás de certo líder, as pessoas ficam hipnotizadas ou alienadas. Isso pode ser visto em relação a políticos ao longo da história.

A campanha de Ron Paul e movimentos relacionados fizeram muito bem – pessoas que não o faziam antes estão examinando ideias libertárias (embora dizer que “não fosse isso, não o teriam feito” seja ir longe demais), resultou muito ativismo enérgico e pensamento libertário, e a posição conservadora que Paul mantém goza da capacidade de levar muita gente preocupada, de tendência direitista, numa direção mais libertária. Embora, porém, Paul desempenhe papel na obtenção da liberdade, ele não é a encarnação da solução. E é ridículo criticar pessoas por elas terem destacado as coisas autoritárias que ele fez.

Os defensores de uma sociedade sem estado não estão imunes ao pensamento dogmático.

Você poderá enfrentar hostilidade imediata se disser que o princípio da agressão zero (“nenhuma pessoa pode tomar a iniciativa de força contra outra”) ou da autopropriedade (“você é dono de si próprio”) não são as melhores maneiras de expressar crença na liberdade individual. Para tais pessoas inflexíveis, bons pensamentos só podem nascer da única base boa possível e, se alguém não aceitar essa base, é porque esse alguém só pode estar escondendo algum plano secreto para oprimi-las.

Alguns anarquistas de mercado relutam em aceitar ideias não expressas no palavreado que Murray Rothbard (ou talvez Samuel Konkin) as expressariam. E ser bom rothbardiano significa ser bom libertário. Ao mesmo tempo, a maioria das pessoas fora de determinados círculos sociais não se fazem ideia de quem é Rothbard.

Obviamente, o horror e o entendimento voluntarioso de todos os lados diante de diferentes definições de “propriedade,” “capitalismo” e “socialismo” são bem conhecidos de qualquer pessoa que tenha despendido tempo em fóruns antiestado da internet.

Se você procurar o suficiente dentro do anarquismo social, fatalmente encontrará problemas similares. Espere grandiosos comunicados esotéricos e escritos que provavelmente arremedam os Situacionistas (um grupo que enfatizava a criatividade como parte da atividade revolucionária).

O exibicionismo moral é outro elemento religioso que a política poderia dispensar. É ótimo se você não pagar tributos, ou se você viver autossuficientemente ou seja lá o que for. Contudo, talvez a sua escolha não seja a melhor escolha para todo mundo. Talvez outros possam fazer mais pela liberdade em seus papéis (há toda aquela coisa da divisão do trabalho). O modo pelo qual um indivíduo enfrenta o inimigo deveria depender das habilidades, do temperamento e da situação do indivíduo envolvido.

Se seu único soldado de plástico for o Cara da Bazuca, seu exército será uma lástima.

Como acima já observado, o dogma pode transformar nossos pensadores úteis em perigosas piadas. “Como posso desenvolver a obra com que essa pessoa nos presenteou?” é uma pergunta mais sensata do que “Como posso ser mais parecido com essa pessoa?”

“Como pode essa teoria ajudar-me em assuntos de minha vida?” é modo mais útil de olhar para as coisas do que “Como posso mudar minha vida para viver essa teoria à qual me atrelei?”

Não é possível à ação realizar um objetivo coerente sem uma ideologia coerente. Discutir coisas com pessoas que estejam interessadas, tentar interessar pessoas que não estejam interessadas, e criar nossas próprias interpretações são importantes para tornar útil a ação.

Quando, porém, o objetivo é a liberdade, quanto mais dogmática for uma ideologia, menos coerente será, e menos eficaz será a ação. A liberdade envolve satisfazer diversos desejos com o menor número possível de restrições à liberdade. A homogeneidade que o pensamento dogmático semeia não é conducente a esse objetivo.

Uma abordagem ideologicamente informada, mas não dogmática, a pessoas com ideias diferentes consistiria em trabalhar em conjunto com elas quando fazê-lo seja benéfico, e tentar influenciar as ideias delas sem temer que as ideias delas influenciem você.

Muitas pessoas estão entendendo a necessidade de alternativas à ordem estatal-capitalista. Elas podem estar procurando-as em Ron Paul, nos Partidos do Chá, no movimento contra a guerra, na violação da lei, ou onde mais seja. Certamente há certas pessoas com as quais jamais valerá a pena lidar, mas poderá ser encontrada base para cooperação e discussão em relação a pessoas que estejam pensando nas coisas de maneira diferente da de você. E não é a cooperação voluntária entre pessoas de interesses diferentes importante elemento funcional da anarquia? Não é expor-se e tentar entender novas ideias importante maneira de aperfeiçoar as suas próprias?

Espero que alguma espécie de rótulo de “pós-dogma” não se torne um novo dogma. Em vez de cruzadas e expurgos, espero que este ensaio estimule pessoas a pensar a respeito de maneiras de identificar e superar tendências indesejáveis. Não temos como eliminar de nós próprios o pensamento inflexível. Poderemos ser capazes de ser mais introspectivos e mais dispostos a encontrar terreno comum com outros pontos de vista. Nunca, porém, devemos perder nossos valores num pluralismo sem sentido que os autoritários possam explorar.

Darian Worden é escritor anarquista individualista com experiência em ativismo libertário. Sua obra de ficção inclui Traga Uma Arma de Fogo para o Dia de Aula Bring a Gun To School Day e, a ser publicado, Guerra Comercial Trade War. Seus ensaios e outras obras podem ser vistas no website pessoal dele his personal website. Ele também é anfitrião de um programa de rádio na internet, Pensar a Liberdade, em PatriotRadio.com.

Governo: Você Sabia que Era Uma Cobra Quando o Acolheu

quinta-feira, março 25th, 2010

http://c4ss.org/content/2080

Postado por Thomas L. Knapp em 24 de março de 2010 em Commentary

Nunca consegui rastrear completamente a história da Fábula da Serpente. Dei com ela em 1994, no filme Assassinos por Natureza, e naquele mesmo ano no inventivo texto de Hunter S. Thompson acerca da eleição presidencial, Melhor do Que Sexo. Depois fiquei sabendo que pelo menos tão cedo quanto em 1968 o cantor de souls Al Wilson gravara uma versão dela como “A Serpente.” É provavelmente muito mais antiga do que isso. Ei-la aqui, em forma descarnada:

Uma mulher encontra uma cobra em algum tipo de apuro (congelada, ferida ou sendo atacada). Salva a cobra, leva-a para casa e cuida dela até que se restabeleça. A cobra se torna amiga de confiança e mascote. Um dia, a mulher resolve ir à cidade e pega a cobra para levá-la consigo … e a cobra a pica. Moribunda, a mulher pergunta à cobra por que fizera aquilo. “Senhora,” diz a cobra, “a senhora sabia que eu era uma cobra quando me salvou.”

Toda violência cometida por um novo governo contra tudo o que é certo e bom desperta reações de perplexidade e indignação — e toda vez que ouço essas reações, penso na Fábula da Serpente.

Seriamente, amigos: Vimos arrastando o peso morto do governo há milhares de anos, e trabalhando nas minas do estado moderno há centenas de anos. Como pode qualquer coisa que o governo faça causar supresa?

O irritante do dia é “reforma do atendimento de saúde,” especialmente o “AtendimentoObama” — um esquema preconizando que o governo dos Estados Unidos direcione as carteiras (e os corpos) de seus súditos en masse para as mandíbulas das empresas de seguros e farmacêuticas — o qual foi aprovado pela Câmara dos Deputados dos Estados Unidos no domingo à noite e logo será “lei do país.”

Em colunas anteriores cobri, em detalhe, o golpe do AtendimentoObama; tais detalhes não são importantes para minha argumentação aqui e, na verdade, não há nada de particularmente inusitado nesse golpe (dica: O objetivo de todos os programas de governo é transferir riqueza da classe produtiva para a classe política).

O ponto que desejo focalizar aqui — o objeto de minha frustração, para ser mais específico — é que as pessoas não parecem entender que, se persistirem em apertar contra o seio cobras venenosas, acabarão sendo mordidas.

Samuel avisou os hebreus do que aconteceria se eles insistissem em Deus nomear um rei (vejam I Samuel capítulo oito(*)) … e não seria coisa boa.

(*)I Samuel 8:4-20

4   Então todos os anciãos de Israel se congregaram, e vieram a Samuel, a Ramá,

5   E disseram-lhe: Eis que já estás velho, e teus filhos não andam pelos teus caminhos; constitui-nos, pois, agora um rei sobre nós, para que ele nos julgue, como o têm todas as nações.

6   Porém esta palavra pareceu mal aos olhos de Samuel, quando disseram: Dá-nos um rei, para que nos julgue. E Samuel orou ao SENHOR.

7   E disse o SENHOR a Samuel: Ouve a voz do povo em tudo quanto te dizem, pois não te têm rejeitado a ti, antes a mim me têm rejeitado, para eu não reinar sobre eles.

8   Conforme a todas as obras que fizeram desde o dia em que os tirei do Egito até ao dia de hoje, a mim me deixaram, e a outros deuses serviram, assim também fazem a ti.

9   Agora, pois, ouve à sua voz, porém protesta-lhes solenemente, e declara-lhes qual será o costume do rei que houver de reinar sobre eles.

10 E falou Samuel todas as palavras do SENHOR ao povo, que lhe pedia um rei.

11 E disse: Este será o costume do rei que houver de reinar sobre vós; ele tomará os vossos filhos, e os empregará nos seus carros, e como seus cavaleiros, para que corram adiante dos seus carros.

12 E os porá por chefes de mil, e de cinqüenta; e para que lavrem a sua lavoura, e façam a sua sega, e fabriquem as suas armas de guerra e os petrechos de seus carros.

13 E tomará as vossas filhas para perfumistas, cozinheiras e padeiras.

14 E tomará o melhor das vossas terras, e das vossas vinhas, e dos vossos olivais, e os dará aos seus servos.

15 E as vossas sementes, e as vossas vinhas dizimará, para dar aos seus oficiais, e aos seus servos.

16 Também os vossos servos, e as vossas servas, e os vossos melhores moços, e os vossos jumentos tomará, e os empregará no seu trabalho.

17 Dizimará o vosso rebanho, e vós lhe servireis de servos.

18 Então naquele dia clamareis por causa do vosso rei, que vós houverdes escolhido; mas o SENHOR não vos ouvirá naquele dia.

19 Porém o povo não quis ouvir a voz de Samuel; e disseram: Não, mas haverá sobre nós um rei.

20 E nós também seremos como todas as outras nações; e o nosso rei nos julgará, e sairá adiante de nós, e fará as nossas guerras.

http://www.bibliaonline.com.br/acf/1sm/8

Thomas Paine advertiu os colonos britânicos de que “o governo, mesmo em seu melhor estado, é apenas um mal necessário; em seu pior estado, um mal intolerável.”

George Washington é citado (possivelmente apocrifamente possibly apocryphally mas certamente sabiamente) como, da mesma forma, advertindo os estadunidenses de que “o governo não é razão, não é eloquência — é força! Como o fogo, é servo perigoso e senhor atemorizador. Nem por um momento lhe deve ser permitida ação irresponsável.”

Amigos, as pessoas que estou citando aqui são os ingênuos, positivos, utópicos, desvairados otimistas da história política. Se vocês quiserem uma avaliação mais equilibrada e rigorosa dos fins aos quais os meios governamentais inevitavelmente conduzem, leiam qualquer história bem escrita do Holocausto do Terceiro Reich, dos Campos de Matança de Pol Pot ou do Grande Salto para a Frente de Mao.

É hora de vocês pararem de iludir-se.

É hora de parar de acreditar na história do “desta vez, será diferente — realmente!”.

Lucy sempre puxará a bola de futebol quando Charlie Brown tentar chutá-la, e uma serpente venenosa sempre morderá você quando você sucumbir ao fascínio de dar a ela oportunidade de fazê-lo.

Há dois modos de lidar com uma serpente venenosa: Evitá-la, ou matá-la. O mesmo é verdade quanto ao estado.

O Analista de Notícias do C4SS Thomas L. Knapp é ativista libertário de longa data e autor da Escrita do Artigo Opinativo Libertário Writing the Libertarian Op-Ed, livrinho eletrônico o qual partilha os métodos subjacentes a seus mais de 100 artigos publicados na mídia majoritária impressa. Knapp publica o Sumário de Notícias da Revista Racional Rational Review News Digest, um apanhado diário de notícias e comentários para o movimento da liberdade.

Capitalismo: Boa Palavra para Má Coisa

domingo, março 7th, 2010

http://c4ss.org/content/1992

Postado por Kevin Carson em 6 de março de 2010 em Commentary

O editor do The Freeman, Sheldon Richman, falando na George Mason University, suscitou a questão de o que os libertários convencionais querem dizer quando chamam um país de “capitalista.” O que qualifica um país como “capitalista”?

Muitos países com índices relativamente baixos de liberdade econômica (inclusive aqueles classificados como “em sua maior parte não livres”) são convencionalmente considerados “capitalistas,” e assim referidos na propaganda neoliberal que os compara, mostrando-se favorável a eles, a países não capitalistas como Cuba. E as cabeças falantes na CNBC e os escribas da imprensa corporativa comumente se referem a “nosso sistema capitalista,” embora ele nem sequer remotamente se aproxime de um livre mercado.

Assim, no uso comum, entre libertários do establishment e aqueles que passam por intelectuais convencionais do “livre mercado,” qualquer país que não tenha adotado o socialismo marxiano como ideologia oficial é “capitalista.”

Com base nessas observações, Richman conclui que o “capitalismo,” na prática, “designa um sistema no qual os meios de produção, de jure, são de propriedade privada.”

Interessante que Murray Rothbard conta um incidente no qual Ludwig von Mises tornou essa distinção, ou algo parecido com ela, explícita. Ele perguntou a Mises: Dado que há tal espectro de graus possíveis de estatismo, desde o estatismo total ao mercado totalmente livre, e dado que nenhum país se situa em qualquer desses dois extremos, o que você vê como a característica definidora que divide sociedades  essencialmente capitalistas das essencialmente não capitalistas? A resposta de Mises: a existência de um mercado de ações. Uma sociedade com um mercado de bens de capital(*) é essencialmente capitalista.

(*) capital goods – Bens de capital, ou bens capitais. Parece que a resposta de Mises a Rothbard confunde duas coisas diferentes.  Na terminologia marxiana esses bens dizem respeito, originariamente, a meios ou fatores de produção – ver http://en.wikipedia.org/wiki/Capital_goods e, em português, http://pt.wikipedia.org/wiki/Bem_capital Por outro lado, há, presumo que na área financeira, uma definição com terminologia muito diferentes da marxiana – bens de capital são “ações de ativos físicos ou financeiros capazes de gerar renda.” http://www.powerhomebiz.com/Glossary/glossary-C.htm

Como já destaquei no passado – um ponto ao qual Richman se refere em sua palestra – é bastante estranho “capitalismo” ter sido adotado como palavra convencional para designar uma sociedade baseada na propriedade privada e na liberdade de troca. Não há nenhum motivo óbvio, ao se procurar um nome para uma economia na qual todos os fatores de produção sejam, em tese, iguais e se insiram na livre contratação como iguais, para que o capital seja singularizado especificamente, para efeito de ênfase especial. A escolha de “capitalismo” sugere algum programa ideológico especial, como se o sistema fosse posto a funcionar graças ao, pelo e para o capital, considerado distintamente em relação aos outros fatores de produção.

A assunção não verbalizada implícita no chamar-se um país “economicamente não livre” e no entanto ainda assim capitalista é a seguinte: um país não livre economicamente só deixa de ser capitalista quando a perda de liberdade econômica interfere na capacidade das pessoas ricas de se tornarem mais ricas graças a retorno proveniente de terra e capital. Enquanto a falta de liberdade econômica limitar precipuamente a liberdade de os pobres escaparem da pobreza, mas os ricos conseguirem enriquecer-se no estilo da United Fruit Company da Guatemala ou dos clientes de Jack Abramoff nas Ilhas Marianas, ela recebe o selo de aprovação capitalista de Boa Administração Caseira.

A resposta de Mises a Rothbard acima – deixando-se de lado o fato de confundir um “mercado de bens de capital” com um mercado de investimentos financeiros(*) em firmas – implica em que, não importa o quanto não livre economicamente, um país no qual a maioria das empresas tenha proprietários ausentes detentores da concentração de riqueza, e a maior parte do trabalho seja contratado por salários por esses proprietários ausentes, receberá a chancela de “capitalista.” Presumivelmente um país no qual a riqueza seja tão amplamente distribuída e o autoemprego e a propriedade cooperativa sejam formas de organização tão precípuas que o comércio de ações seja de importância marginal recairá no lado “socialista” da linha de Mises – mesmo sem haver quaisquer constrições de regulamentação das transações de mercado e do livre movimento de preços.

(*) equity – http://www.powerhomebiz.com/Glossary/glossary-E.htm#E

Esse é um conjunto de prioridades muito revelador: o “capitalismo,” por oposição ao “socialismo,” não é definido pelo grau de liberdade econômica enquanto tal; é definido por uma estrutura institucional particular desproporcionalmente em benefício de uma classe particular de agentes do mercado.

Como evidência de que algumas formas de falta de liberdade são mais importantes do que outras, consideremos a proclividade de alguns direitistas ao dizerem “O autoritarismo de Pinochet foi lamentável, mas pelo menos ele tornou o Chile mais livre economicamente.” Pouco importam questões “menores” como se a reversão de uma reforma agrária e a devolução de terra das pessoas que a haviam trabalhado para uma oligarquia fundiária representaria um passo no sentido de “liberdade econômica.” Consideremos tão somente a supressão autoritária, por Pinochet, do movimento trabalhista: se tivessem sido os donos do capital, e não os vendedores de força de trabalho, os torturados e desaparecidos, ou encontrados em valas com seus rostos desfigurados, duvido que eles dissessem a mesma coisa. É uma estranha diferenciação tratar a repressão dos donos de um fator de produção como econômica, mas dos donos de outro fator como apenas “política.”

Essa assunção subjaz à maioria dos comentários convencionais de “livre mercado” na imprensa corporativa e nos canais noticiosos corporativos: mesmo quando eles explicitamente se referem a “nosso sistema de livre mercado” em termos inquestionávies, em realidade se referem a um sistema no qual a maioria dos empreendimentos empresariais é oficialmente vista como “privada.” Pouco importa o quanto um sistema de regulamentação vigente seja estatista; desde que exercido precipuamente por agentes “privados,” e a maioria do dinheiro passe pelas mãos de tais agentes “privados,” e não pelo Tesouro dos Estados Unidos, tratar-se-á de um sistema de “livre mercado.” Daí  o tipo de programa de “livre mercado” que vemos em lugares como a Heritage e o Instituto Adam Smith pela “privatização” de funções do governo mediante contratação delas a “empresas privadas,” mesmo quando a essas empresas garantido lucro a expensas do contribuinte.

E, a propósito, aqueles que objetam a tudo isso como forma de jogo sujo semântico deveriam lembrar-se de que Mises e Rand foram responsáveis, a partir dos anos 1920, pela deliberada reabilitação de “capitalismo” como termo de apologética pró-mercado. Antes da época de Mises, “capitalismo” era usado por economistas políticos convencionais para descrever o sistema efetivo de economia política sob o qual viviam – isto é, o capitalismo histórico.

“Capitalismo,” em suma, é a palavra mais honesta para o mercado sem liberdade sob o qual vivemos. É um sistema de, por e para os donos do capital; enquanto ele preservar essa característica precípua, será “capitalista,” pouco importando o quanto o mercado não seja livre.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.