Sem Adjetivos

http://c4ss.org/content/3111

Sem Adjetivos

Postado por Anna Morgenstern em 4 de julho de 2010 em Artigos em Destaque

Se você tiver interesse numa sociedade sem estado, precisará entender o que é o estado. Caso contrário você terminará perseguindo sombras, e muitos dos que se dizem anarquistas amiúde fazem isso, infelizmente. Quando você olha ao redor, pode ver exemplos da obra dele em toda parte. Cada carro da polícia que você vê, as várias “autorizações” e “licenças” ao você entrar numa empresa (ao você começar a procurá-las, vê-las-á o tempo todo, sem mesmo tentar …) e, depois, as coisas mais sutis. Pois bem, você notará que não mencionei estradas, ou escolas, ou semáforos. Pois são coisas que existiriam com ou sem o estado. A forma específica que tendem, porém, a tomar em nosso mundo é, ela sim, obra do estado, e bem assim as formas específicas de todas as nossas instituições e empresas. (Lembram-se das “autorizações” acima?)

Tudo isso, porém, é o rastro que o estado deixa. O que, pois, é o estado? Muitas pessoas acham que é uma organização por vezes chamada de “o governo.” Este é uma peça do quebra-cabeça, mas não a resposta completa. Os governos do mundo atuam como uma espécie de organização administrativa e órgão de fiscalização a serviço do estado, sendo pois indispensáveis para a continuação da existência deste. Há, porém, mais que isso. Em países totalitários, “governo” e “estado” parecem muito ser a mesma coisa, porque o governo controla tudo muito diretamente. Em países mais liberais/libertários, começam a emergir as diferenças. Uma perspectiva que descobri a qual lança muita luz sobre o estado é o exame da Máfia. Será que uma “empresa legítima” de propriedade da Máfia não constitui, em realidade, parte da Máfia? Mesmo não se tratando de uma fachada para lavagem de dinheiro e funcionando com intento de lucro, ainda assim é, basicamente, parte da Máfia.

Embora governo e Máfia ostentem similaridades, exibem, também, certas marcantes diferenças. Uma delas, bastante acentuada, e para a qual não se atenta, é as autoridades do governo nunca obterem diretamente lucros reais decorrentes de suas atividades. De fato, a maioria das atividades delas não geram lucro, ou têm prejuízos constantes mesmo quando recebam pagamento. Elas recebem um salário, pago a partir de dinheiro furtado, mas esse salário é relativamente fixo e não dependente de desempenho (estou certa de que ficam muito gratas por isso). Assim, você tem de alargar sua visão e ver que essas autoridades rodiziam para dentro e para fora de emprego no “setor privado” e então a coisa começa a fazer mais sentido. As empresas favorecidas pelo estado são aquelas que empregam ex-empregados do governo e vice-versa. O fato de ser permitido às autoridades do governo possuírem ações (embora isso seja, até certo ponto, regulamentado) em empresas privadas é outro indício.

Então, por que o fingimento? Por que esse embuste do “público” e do “privado?” Ora, é isso. É o estado. O estado É esse embuste. O estado … é uma ficção social. É o mito da legitimidade. Esse mito é a fina linha preta que separa os vínculos do “governo” com seu “setor privado” de qualquer outra Máfia. O fato de as pessoas acreditarem que “o governo” tem permissão legítima para matar e furtar, e que, ao fazê-lo, representa algo bom e justo, é o que tem permitido a ele dominar o mundo. E a despeito do mito secundário de que o governo existe para combater o crime, é a própria existência do governo que permite às Máfias menores prosperar.

No passado esse mito da legitimidade era levado a efeito por meio da religião. Na medida em que as diversas religiões eram as beneficiárias do “setor privado” do governo, pregavam que o estado era o braço secular de suas organizações, dedicado a robustecer “a vontade do senhor” na Terra.

Embora em si uma bobagem, pelo menos era admitida a conexão.

Hoje, uma nova religião, a da “democracia,” legitima o estado ao asseverar ser este o encarregado de fazer valer “a vontade do povo.” (Mesmo quando o povo parece estar bastante contra o que o governo esteja fazendo, como nos recentes socorros financeiros a bancos). Outras flatulentas pomposas ideias como “ordem social,” “tradição” e “bem público” são também usadas para entretecer esse feitiço mágico nas cabeças das pessoas.

Portanto, agora que sabemos o que é o estado, sabemos o que é o Anarquismo. O Anarquismo, em verdade, é simplesmente o entendimento de o estado ser meramente uma ficção social e não ter legitimidade. Quando você tem experiência pessoal dessa verdade, não obedece à lei simplesmente por ser a lei. Deixará que sua consciência seja seu guia. Nesse momento você não mais está simplesmente sendo governado, embora crimes possam ser cometidos contra você pelo “governo” e seus lacaios. Quando a Máfia força alguém a dar dinheiro em troca de proteção, a pessoa não está sendo governada, e sim sendo roubada.

O que, então, é liberdade? Liberdade é a ausência de crime. Crime real, crime com vítima. Crimes que a consciência de todas as pessoas reconhecem como tais. Então, libertário é aquele que deseja extinguir – ou, mais realisticamente, minimizar – o crime.

Nem todos os anarquistas são libertários (vêm à mente alguns stirneristas), mas a maioria é, ao menos até certo ponto. Todos os anarquistas, porém, entendem que ninguém tem qualquer autoridade especial, que ninguém mais tem, para cometer crimes.

Todas as teorias políticas envolvem algum nível de crime. Alguém é vitimado em benefício de alguém. Os “liberais” (como os conhecemos hoje) tendem a ser a favor de um regime plutocrático muito suave e seguro — buscando aparar todas as arestas da vida de todos a fim de tornar-nos todos recursos econômicos a ser explorados. Os “conservadores” adotam uma abordagem mais dura, na qual os trabalhadores são colocados numa situação de terem de competir por recursos sempre mais escassos; uma abordagem darwiniana para maximização de nossa produtividade. No final das contas, trata-se apenas de técnicas diferentes de administração do rebanho.

Ahhh, dirá porém você, esta é uma era de corporatismo e coletivismo em ascensão. E quanto às teorias políticas do passado? O liberalismo clássico era uma espécie de libertarismo minarquista. Temos de ter este tanto de crime organizado (cometido pelas classes dominantes), simplesmente para podermos combater o crime esporádico, desorganizado (geralmente cometido pelas classes mais inferiores). O problema é que isso abre as portas para todo tipo de “flexibilidade” que leva ao liberalismo que temos hoje.

O conservadorismo clássico / paleoconservadorismo é uma espécie de colcha de retalhos de ideias as quais asseveram que “esta ordem social é boa,” e quaisquer crimes que tenhamos de cometer para manter essa ordem são pois justificáveis. É quase voltar a dar ouvidos ao antigo regime de estatismo religioso, e ele de fato atrai muitas pessoas de tipo religioso.

Ambas essas ideologias são muito menos totalitárias do que a moderna democracia corporativa, mas isso é simplesmente de esperar. Elas entenderam, a certa altura, que o controle totalitário é contraproducente … o hospedeiro que não prospera deixa pouco para o parasita. E pois desenvolveram estratégias políticas que permitissem ao hospedeiro prosperar, proporcionando ao mesmo tempo um banquete decente para o parasita.

Hoje vemos uma tentativa de uso de finança-economia espúria para minimizar/maximizar a quantidade de crime vis-à-vis a saúde e riqueza da população que o crime alimenta. Os predadores têm demonstrativos e gráficos que você vê, e dão aulas expositivas acerca de “como obter o máximo de sua presa.” Também não pensam em prazo tão longo quanto no passado, pois deixaram o sentimentalismo para seus filhos (e poderá você censurá-los por isso?)

O anarquismo, ele próprio, cindiu-se em muitas subdivisões e facções. Em realidade, porém, todas essas facções são crenças diferentes acerca de que “cara” teria uma sociedade sem estado. Todos os anarquistas, isto é, todas as pessoas que entendem que ninguém está autorizado a cometer crimes, terão uma meta única, caso desejem que seu(s) desejados(s) futuro(s) venha(m) a realizar-se, isto é: a destruição do mito da legitimidade. Esse é o único modo pelo qual se pode esmagar o estado. Agora: há diversas estratégias e métodos que podem ser usados para fazer-se isso, mas qualquer coisa que não ataque, direta ou indiretamente, o mito da legitimidade é extra-anarquista. Será talvez o fortalecimento de uma ordem social que foi esvaziada pelo estado, ou um desvio de recursos que alimentam o estado, mas não importa. Onde discordamos enquanto anarquistas é menos importante do que onde concordamos.

Muitos anarquistas de “esquerda” asseverarão, por exemplo, que os anarcocapitalistas não são, em realidade, anarquistas. Isso, para mim, parece confusão acerca do que o capitalismo significa para os anarcocapitalistas. À luz do que os anarquistas de esquerda querem dizer com “capitalismo,” os anarcocapitalistas são não não anarquistas, e sim não capitalistas. E o inverso é também verdade. Um anarcossocialista não é o tipo de socialista que um anarcocapitalista pensa ser um “socialista.” Todos os anarquistas, porém, acreditam que o estado é uma insensatez e não tem o direito de reclamar para si algum tipo de autoridade mágica para fazer coisas que você e eu não podemos fazer.

Existem pseudoanarquistas, sem dúvida, mas eles são o tipo de gente que acaba batendo palmas para essa super-Máfia mágica quando suas ideias favoritas ganham o cenário.

Havendo ouvido os conceitos reais (e não apenas conceitos imaginários acerca das ideias deles) de anarquistas de todo tipo, cheguei à conclusão, como também Voltarine DeCleyre, uma de minhas heroínas, que sou anarquista sem adjetivos. Tão somente descartemo-nos da ficção do estado, e em seguida permitamos que cada um tente o que puder, e vejamos como tudo funcionará.

A Escritora Colaboradora do C4SS Anna O. Morgenstern é anarquista de um tipo ou de outro há quase 30 anos. Seus interesses intelectuais incluem história econômica, psicologia social e teoria da organização voluntária. Ela gosta de piñas coladas, mas não gosta de ser apanhada pela chuva.

Share

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.