Postado por Kevin Carson em 8 de abril de 2010 em Artigos em Destaque
A resposta de Kevin Carson a Sara Robinson, que, “publicou uma coluna acusando a Direita contrária ao governo de sedição.”
A gente percebe que as coisas tomaram rumo esquisito quando os liberais começam a falar como se fossem membros da Legião Estadunidense(*). Há algumas palavras que eu simplesmente não uso, porque não é possível usá-las sem ficar parecendo ser um bendito Republicano. E “sedição” é uma delas.
(*) American Legion, organização de veteranos com o objetivo de beneficiar veteranos que tenham servido em período de guerra tal como definido pelo Congresso dos Estados Unidos. http://en.wikipedia.org/wiki/American_Legion
Sara Robinson, integrante da Campanha pelo Futuro dos Estados Unidos, e que também escreve no blog de David Neiwert, vem de publicar uma coluna acusando a Direita contrária ao governo de sedição. Bem, algo da espécie, de qualquer modo. É difícil dizer, porque a coluna dela é, digamos assim, aquém de perfeitamente coerente.
Em alguns lugares ela diz que apenas grupos como os Hutaree(*) cruzaram a fina linha rumo à sedição real (definida como “criar revolta, distúrbio ou violência contra autoridade civil legal no intento de causar derrubada ou destruição”) mediante o planejamento de ataques violentos contra o governo. E ela tenta deixar claro que mesmo defender a derrubada do governo, em si, é discurso protegido(**). Só atos abertos enquadram-se no padrão de sedição real.
(*) Grupo miliciano cristão sediado em Adrian, Michigan. O grupo, diz-se, estaria preparando-se para o que acredita será uma batalha apocalíptica com as forças do Anticristo. http://en.wikipedia.org/wiki/Hutaree
(**) protected speech – Discurso protegido, em alguma medida, de censura e/ou regulamentação do governo dependendo da natureza do discurso e da natureza da regulamentação. http://www.ncac.org/art-law/glossary.cfm#55
A declaração de princípios dela, contudo, é, obviamente, apenas um gesto cortês. Se ela se limitasse à linha de que apenas aqueles engajados em violência concreta seriam culpados de sedição, e de que defender a derrubada do governo é discurso protegido, isso poria a perder toda a intenção dela – que é atingir na cabeça, com a palavra “sedição,” a Direita contrária ao governo. Ela faz isso argumentando que, mesmo que esses direitistas não sejam, tecnicamente, culpados de sedição real, e mesmo que sua retórica contrária ao governo seja, tecnicamente, discurso protegido, eles ainda assim são moralmente culpados por criarem uma atmosfera que facilita a sedição ao “deslegitimar sistematicamente a própria ideia de governo dos Estados Unidos.” Eles “desadministram e desfinanciam” o governo quando no poder, recusam-se a participar de boa fé do governo quando fora do poder, tentam “subverter o processo democrático,” e recorrem a retórica polarizadora que torna o país ingovernável.
Tudo isso, diz Robinson, é “sedição em câmera lenta, solapamento corrosivo gradual da autoridade e da capacidade do governo de administrar o país.” E mais, tem estado “no cerne da política deles retroceder completamente a Goldwater.”
Em outras palavras, a despeito de todas as ressalvas dela, Robinson considera até aqueles engajados no nível de Goldwater de retórica contrária ao governo – mesmo que não técnica e legalmente – pelo menos moralmente culpados de sedição.
Mais: mesmo o uso da linguagem de “revolta popular” é um apelo à sedição. Robinson pretende que os “Progressistas” tracem uma linha na areia, e demandem das vozes contrárias ao Governo Hipertrofiado da Direita Republicana que ou explicitamente confessem sua intenção de derrubar o governo dos Estados Unidos pela força (e “vão em frente, e enfrentem as acusações”), ou parem completamente de usar a linguagem de revolta popular. “Ou eles são estadunidenses, comprometidos com trabalhar de boa fé dentro do processo democrático para criar nosso futuro comum, ou são sediciosos de intenção ou de fato – e portanto inimigos do estado, pura e simplesmente.”
Creio que a expressão em verdade buscada por Robinson é “libelo sedicioso”: linguagem que tende a difamar, desacreditar, criticar, impugnar, confundir, desafiar ou questionar o governo, suas políticas, ou suas autoridades. E esse é claramente o tipo de linguagem, oriunda da Direita, que Robinson trata de sediciosa em espírito. Nisso ela se coloca em boa companhia com inimigos anteriores da sedição: conservadores puritanos, de perucas polvilhadas, como John Adams, e os Legionários e Esquadrões Vermelhos sabe-nada(*) que prendiam em massa os Trabalhadores Industriais do Mundo(**) e os socialistas durante a Histeria da Guerra no governo de Woodrow Wilson. Ambos foram responsabilizados por colocar em dúvida a legitimidade do estado, usando linguagem que o colocavam em descrédito, solapando-lhe a autoridade moral indispensável para levar a efeito suas políticas e, em alguns casos, obstando-lhe diretamente a execução dessas políticas.
(*)http://pt.wikipedia.org/wiki/Know_Nothing
(**)http://en.wikipedia.org/wiki/Wobbly
No livro infantil “Por Que Mamãe é Democrata(*),” mundo suburbano(**) da maioria dos liberais da corrente majoritária, aparentemente, as fronteiras do discurso permissível não sedicioso são bastante limitadas. Não é preciso desviar-se muito do raso centrismo com odor de baunilha, gerencial-profissional, para ser-se qualificado como extremista – pelo menos quando os liberais estão no poder.
(*) Livro para crianças que explica o Partido Democrático dos Estados Unidos para crianças. Os personagens principais são mamãe esquilo e dois filhos esquilinhos. Cada página explica um princípio dos Democratas, relacionando-o com uma ação da mamãe. Cada princípio é acompanhado de uma ilustração colorida dos três personagens, sempre sorrindo. Ao fundo, são usados seres humanos para ilustrar o conceito oposto (isto é, os efeitos negativos das políticas dos Republicanos). http://en.wikipedia.org/wiki/Why_Mommy_is_a_Democrat
(**)http://en.wikipedia.org/wiki/Suburban_World_Newspapers
Como as coisas mudaram. Em agosto de 2006 Keith Olbermann, em resposta à sugestão de Rumsfeld de que os críticos da guerra do Iraque eram “desleais,” advertiu que o país estava ameaçado de “um novo tipo de fascismo”: “Esta é uma Democracia. Ainda. Por vezes, por pouco…. A confusão é acerca de se este Secretário de Defesa, e sua Administração, estão na prática concretizando o que eles dizem os terroristas buscam: A destruição de nossas formas de liberdade…”
Isso soa grandemente sedicioso. Ele não estava apenas discordando da sabedoria da política do governo; estava atacando os próprios motivos e intenções daqueles no controle do estado, acusando-os de promover a destruição de nossas formas de liberdade. Agora Olbermann espalha a palavra “traição” praticamente cada vez que a gente sintoniza o programa dele.
Só de passagem, é espantoso como Olbermann et al têm refletido a Direita, ao desradicalizar a Revolução Estadunidense e sua esteira, transformando-a em apenas outra guerra patriótica no estrangeiro contra a Grã-Bretanha em vez de uma derrubada sediciosa da legítima autoridade do governo aqui no país. Independentemente do que diz Chris Matthews, a Bandeira de Gadsden(*) não estava apenas direcionada para um “inimigo externo,” em contraste com o governo aqui dentro do país. E independentemente do que diz Mark Potok, as observações de Jefferson acerca da Árvore da Liberdade e o sangue dos tiranos(**) não se referia apenas a participação no processo político para mudar o governo.
(*)http://pt.wikipedia.org/wiki/Bandeira_de_Gadsden
(**)”A árvore da liberdade precisa ser regada, de tempos em tempos, com o sangue dos patriotas e dos tiranos.” http://www.quotedb.com/quotes/2074
O problema do padrão de libelo sedicioso de Robinson é ele atingir-me perto demais do lugar onde habito na Esquerda. Vejam bem, eu constantemente me empenho – e as pessoas que mais admiro na Esquerda também se empenham – em lançar dúvida sobre a legitimidade e a autoridade moral do estado.
Por exemplo: se vocês lerem os livros de William Blum e Noam Chomsky acerca da história da política externa dos Estados Unidos, torna-se bastante claro que as atrocidades e crimes contra a humanidade não foram apenas “equívocos” ou “excessos” por vezes ocorridos na execução de uma política cujo objetivo precípuo fosse o de promover a paz e a liberdade humanas; os objetivos das políticas elas próprias eram crimes contra a humanidade. As políticas externas do governo dos Estados Unidos ao longo do século 20 e até hoje foram as políticas de um estado de classe – um estado funcionando como comissão executiva da classe dominante corporativa. As guerras do governo dos Estados Unidos foram, todas elas, conduzidas no interesse precípuo de um sistema corporativo de ordem mundial. Nas palavras de Howard Zinn “sempre houve, como há até hoje, profundo conflito de interesse entre o governo e o povo dos Estados Unidos.” Ora, se isso não legitima o solapamento da autoridade moral do governo dos Estados Unidos, não sei o que o faria.
Quando o Major General Smedley Butler, do Corpo de Marines dos Estados Unidos, reformado, disse ter sido um leão de chácara de alto nível, um escroque, um potenciador global dos interesses corporativos estadunidenses, ou ele se enquadra no padrão de Robinson de “equivalente moral de sedição” ou ninguém o faz.
E por falar em Zinn, a História do Povo dos Estados Unidos dele é plena, do início ao fim, de exemplos de como o governo dos Estados Unidos tem funcionado não como instrumento para “todos nós trabalharmos juntos,” não como instrumento do “interesse nacional” ou do “bem-estar geral,” mas como um estado de classe cujo principal propósito tem sido o de permitir às pessoas donas do país usarem em proveito próprio aqueles que vivem e trabalham nele.
Glen Greenwald, escrevendo acerca do recente vídeo do WikiLeaks de tropas estadunidenses jovialmente chacinando civis no Iraque, destacou que a chacina não foi “uma aberração”: “foi o esperado, procedimento operacional padrão, foi aquilo que fazemos em guerras, invasões e ocupação. A única coisa rara na matança do helicóptero Apache é sabermos a respeito e vermos no vídeo o que aconteceu(*).”
(*)http://www.collateralmurder.com/
E como nos casos anteriores, nos quais “maçãs podres” como William Calley ou Lynndie England levaram a culpa, os verdadeiros criminosos – os verdadeiros monstros – são homens de fala mansa, despretenciosos, com unhas das mãos tratadas em manicure, sentados em escritórios de mobília de bom gosto, nos mais altos níveis do poder. Não vejo como alguém possa reconhecer isso publicamente sem discrepar do padrão de Robinson de libelo sedicioso.
Porque o fato substantivo é, o governo dos Estados Unidos tem perseguido objetivos perversos, tem servido ao desejo de homens mal-intencionados em busca de riqueza não ganha pelo trabalho, e tem deixado uma trilha monstruosa de sangue e devastação ao fazê-lo. O governo dos Estados Unidos tem mentido para e manipulado o povo estadunidense guerra após guerra a fim de enfrentar “ameaças” externas fabricadas, quando a real “ameaça” que tinha em mente era a ameaça ao poder corporativo global. Ele tem derrubado governos democraticamente eleitos cujo maior crime foi a reforma agrária. Ele tem apoiado golpes militares e torturadores militares, inclusive a cadeia dominó de golpes que Kissinger instigou na América do Sul, e proporcionado ajuda fraternal a esquadrões da morte terroristas, com o sangue de milhões de pessoas inocentes nas mãos de todos os presidentes estadunidenses desde pelo menos meados do século 20.
Quando o governo dos Estados Unidos atua do lado das más intenções, eu alegremente admito estar do lado daqueles que obstruem e subvertem a execução de suas políticas criminosas. Quando os Trabalhadores Industriais do Mundo organizaram os estivadores da Costa Oeste para obstruírem o embarque de material para o Iraque, aplaudi-os. E se ou Bush ou Obama tivessem lançado ataque militar contra Irã ou Venezuela, eu teria desejado que os mísseis Queimadura de Sol afundassem todas as frotas de porta-aviões levando-as para o piso do oceano.
Esse é o problema: não conheço nenhum padrão de libelo sedicioso, de solapamento da legitimidade e da autoridade moral do governo dos Estados Unidos, que não pegue na rede eu, Chomsky, Zinn e Greenwald, juntamente com todos aqueles direitistas.
Vivemos num estado de classe, num sistema de domínio de classe, e a máquina do estado corporativo serve aos interesses desse domínio de classe. “Moderados” e “centristas,” por definição, são aqueles que aceitam esse sistema como fundamentalmente legítimo em todos os seus aspectos essenciais, e só querem reformular as bordas do domínio corporativo, sem alterar sua natureza fundamental.
Recuso-me a aceitá-lo como legítimo, ou jogar dentro das regras respeitando as linhas do discurso aceitável traçadas por Robinson.
Se é para haver sedição, então tirem o máximo proveito dela.
Adendo. Jesse Walker, da Revista Razão, chamou minha atenção para essa citação de Sara Robinson (de “Estados Unidos Fascistas: Teremos Já Chegado Lá?”):
“Durante todos os anos tenebrosos da Administração Bush, os progressistas acompanharam com horror as proteções constitucionais desvanecerem-se, a retórica nativista ampliar-se, o discurso de ódio transformar-se em intimidação e violência, e o presidente dos Estados Unidos açambarcar para si poderes só reclamados pelos piores ditadores da história. Com cada novo ultraje, o pequeno punhado de nós que nos tornamos especialistas em cultura e política da direita ouvíamos mais uma vez de leitores preocupados: É isso então? Tornamo-nos, finalmente, um estado fascista? Já chegamos lá?”
Acusar a administração Bush de apossar-se de poder ditatorial, conspirando numa aliança fascista com elementos terroristas de camisas pardas da população, etc…. Soa-me claramente sedicioso. Certamente parece algo que envenenaria a água do poço, e solaparia a autoridade moral do governo e a capacidade deste de governar. E soa como algo que ela chamaria de sedicioso se Michelle Bachmann dissesse isso a respeito de Obama.
Talvez, contudo, dependa de quem esteja fazendo a acusação, ou de a acusação ser “verdadeira” ou não, em vez de da substância material e o tom da acusação ela própria. TBSVFUL? (Tudo Bem Se Você For Um Liberal)?
Para constar, eu temia que a administração Bush estivesse entusiasticamente apossando-se de poderes ditatoriais, e de os elementos demográficos que avançaram para formar a base do Partido do Chá fossem realmente mais propensos à retórica eliminatorista, ao autoritarismo e à violência do que os Democratas liberais. Creio que, numa coluna anterior, os descrevi como aparentemente com probabilidade de cortar a cabeça de serpentes e falar em línguas estranhas.
E, para constar, acho Obama muito menos assustador do que Bush. Ele vem mantendo inalterada a maior parte do aparato burocrático de poder executivo ditatorial, e tem mostrado muito menos entusiasmo em desmantelá-lo depois da eleição do que antes. Contudo, parece bastante menos envolvido do que Bush e especialmente Cheney, se entendem o que digo – especialmente em comparação com Cheney, que realmente parece totalmente propenso a afirmar reivindicações ditatoriais como Carlos I antes da Guerra Civil. E, como aludi antes, acho as pessoas que participam de “reuniões comunitárias” a respeito de “fascismo” e “marxismo” e “painéis de eutanásia(*)” bastante desagradáveis.
(*)http://en.wikipedia.org/wiki/Death_Panel#Rationing_of_care
Tudo isso porém é irrelevante. Se acusações de determinada natureza são exorbitantes, são-no para todo mundo. Ou a Sra. Robinson precisa alterar suas definições de “extremismo” e “sedição” para permitir ataques amplos às intenções básicas e à fidedignidade daqueles que controlam o estado, ou será vítima de seu próprio petardo.
O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.