Postado por Kevin Carson em 2 de abril de 2010 em Commentary, Feature Articles
Em meu comentário anterior desta série, sugeri que o estado, em razão de sua própria natureza, era receptivo a ser controlado principalmente por grupos de pessoas internas a ele.
Isso se deve, em parte, à “Férrea Lei da Oligarquia” enunciada no início do século 20 por Robert Michels, em Partidos Políticos: a tendência, independentemente do padrão de democracia formal segundo o qual os grupos são eleitos, dos delegados acumularem poder em detrimento de seus diretores, de grupos mais elevados concentrarem poder a despeito de sua responsabilidade teórica em relação aos grupos mais inferiores, e das equipes permanentes acumularem poder em detrimento das autoridades eleitas.
Isso é inevitável, já por sermos primatas geneticamente programados para participação em grupos de caçadores-coletores de poucas dezenas de pessoas. Às pessoas, em sua maioria, depois de dedicarem sua atenção a família, trabalho, amigos e bairro, resta pouca energia para acompanhar eventos políticos. Por outro lado, a área de políticas É o trabalho, e constitui a maior parte, do círculo social daqueles que se encontram dentro, administrando a máquina do governo. Assim, pois, as pessoas que administram a máquina cotidianamente sempre gozam de vantagem em energia, atenção, informação e controle da agenda em relação àqueles, de fora, perante quem são nominalmente responsáveis.
E, como questão de simples geometria interpessoal, é quase impossível um grande grupo de pessoas exercer coletivamente autoridade sobre um pequeno grupo de formuladores de políticas. Isso é algo que só pode ser feito por indivíduos e pequenos grupos, entrando regularmente em contato pessoal direto com os formuladores de políticas. Assim, o sistema está predisposto a evoluir num conjunto interconexo de pequenas elites.
Isso continuaria sendo verdade mesmo que o dinheiro fosse tirado da política.
Há uma escola chamada de “Marxismo Estruturalista” a qual argumenta que, mesmo quando o governo é confessadamente esquerdista ou “progressista” e pretende governar a economia no interesse dos trabalhadores e consumidores e em detrimento das grandes corporações, esse governo ainda assim ver-se-á compelido, por motivos estruturais, a servir precipuamente aos interesses das grandes empresas. Dada a estrutura da economia, os círculos mais altos de formulação de políticas do estado serão fortemente influenciados por mensurações tais como crescimento do PIB, níveis de emprego, níveis de investimento e assim por diante. Eles serão atraídos quase automaticamente para políticas que promovam a lucratividade e a estabilidade da economia corporativa, como mandatária para promoção do pleno emprego e da prosperidade. Esses incentivos serão reforçados mesmo quando um governo consciamente esquerdista ressinta-se dessa necessidade, por coisas tais como a ameaça de fuga de capital internacional. Assim ocorre com pessoas como Lula da Silva no Brasil, que têm sido atraídas para a centro-esquerda e integradas, na maior parte, numa estrutura neoliberal global. Immanuel Wallerstein argumenta, a partir daí, que mesmo regimes socialistas de estado como a URSS foram funcionalmente integrados no sistema mundial capitalista mais amplo.
A dinâmica da informação também entra em cena. Mesmo se os políticos “progressistas” não dependerem das grandes empresas para financiamento de suas campanhas, os planejadores e regulamentadores econômicos ainda assim continuarão dependendo das indústrias regulamentadas como sua principal fonte de dados. A menos que a administração do estado crie uma estrutura administrativa diretamente paralela à economia corporativa, e mande todo o seu pessoal fazer Mestrado em Administração de Empresas como preparação para atuar como “autoridades políticas” monitorando as hierarquias corporativas a partir de dentro, as informações das quais o estado depende para traçar a política econômica será gerada principalmente internamente às grandes corporações. E mesmo o mais “progressista” aparato regulamentador tenderá a ser cooptado para dentro de um complexo regulamentador-regulamentado dominado pelos partidos “de oposição” que compartilham da mesma cultura organizacional dos homens brancos vestidos de terno, e compartilham das mesmas assunções implícitas (o que C. Wright Mills chamou de “realismo lunático”) acerca do que é realisticamente possível. Praticamente tudo o que é defendido pela esquerda descentralista e libertária ficará fora da mesa desde o início, excluído pelas assunções funcionais inconscientes tanto dos regulamentadores quanto dos regulamentados.
E tudo isso ignora o fato de que os “progressistas” que controlam a Casa Branca e o Congresso não são em absoluto realmente de esquerda ou anticorporativos. Longe de representarem um poder que contrabalance as grandes empresas, como argumentei na parte anterior, eles realmente representam apenas a facção mais “progressista” das próprias grandes empresas, desejosa de tratar seus trabalhadores mais humanamente para obtenção de lucros garantidos oriundos do estado.
Assim, será extremamente difícil (se não impossível) mudar a estrutura fundamental de nosso sistema enquanto aliança entre o estado centralizado e a corporação gigante por meio do processo político. Havendo eleito o Presidente e o Congresso mais “progressistas” possível, o povo estadunidense ainda vê a política econômica sendo formulada pelos suspeitos usuais de Goldman Sachs e do Banco da Reserva Federal de New York, a política de copyright digital escrita por RIAA e MPAA etc. Mesmo se dezenas de milhões de pessoas estivessem dispostas a remar contra a corrente e fazer carreira de tempo integral em ativismo, no minuto em que a atenção delas pervagasse ou sua energia oscilasse os suspeitos usuais estariam esperando à mesa para retomar o controle das coisas.
Assim, se a política e a reforma forem as únicas variáveis em jogo, estaremos fritos.
O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.