Ação Política Reformista como Diversão, Parte Um

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Postado por Kevin Carson em 31 de março de 2010 em Feature Articles

Durante o fim de semana vi uma espécie de evento do Partido do Café(*) na área de DC tendo como destaques Annabel Park e outros organizadores do movimento.

(*) O Movimento do Partido do Café diz que o governo não é inimigo do povo, e sim expressão da vontade do povo. http://www.coffeepartyusa.com/ Já o Partido do Chá é um grupo desiludido de cidadãos dos Estados Unidos que opõe-se cegamente a qualquer política legislativa ou de governo que vejam como esquerdista. http://www.urbandictionary.com/define.php?term=tea%20party Ver também a Festa do Chá de Boston, em http://pt.wikipedia.org/wiki/Festa_do_Chá_de_Boston

Tenho de reconhecer, aparentava ser um punhado de gente bastante fina. Obviamente, depois do ano que passou, não é preciso muito para alcançar esse padrão. Não ridicularizava pessoas com doença de Parkinson, nem gritava “crioulo” e “bicha,” nem dava, de modo geral, a ridícula impressão de gente prestes a começar a falar em línguas estranhas e a cortar cabeças de serpentes.

Finas ou não, fiquei com a clara impressão de tais pessoas melhor poderem ser descritas com uma única expressão: os reformistas políticos(*). Se há um tema dominante em todas as observações de Park e de outros líderes do movimento naquele palco, é engajamento e participação cívicos. Uma – esqueço o nome dela – citou o que Churchill disse acerca da democracia: É o pior sistema que existe, exceto os demais. O processo político é tudo o que temos, disse ela, e, portanto, temos de participar dele e assegurar-nos de que funcione o melhor possível. Ao longo do encontro, ouvi a mesma ideia geral reafirmada por diferentes pessoas: O governo não é bom nem mau, e sim uma ferramenta – e nossa responsabilidade é zelar para que seja usada para o bem.

(*) Goo-goos – de Good Government Guys, ‘os caras do bom governo,’ grupos políticos de uma época em que os governos municipais, nos Estados Unidos, eram dominados por caciques políticos; os goo-goos apoiavam candidatos que lutariam por reforma política. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Goo-goos e também http://en.wikipedia.org/wiki/Machine_politics

O pessoal do Partido do Chá pode acreditar que Obama nasceu no Quênia, ou que ele é, secretamente, muçulmano ou marxista. Alimenta, porém, uma crença com a qual concordo: não confia no governo. Isso não significa que eu endosse as besteiras acerca de helicópteros negros ou vagões fechados brancos. Mesmo nesse nível, porém, creio ser seguro dizer que os limites entre o tipo de arrepiante autoritarismo burocrático que vimos experimentando ao longo dos últimos trinta anos de guerras variadas contra drogas e terror e uma ditadura plena são muito menos nítidos do que a maioria das pessoas pensa ser.

Mesmo, porém, estipulando que a maioria das pessoas envolvidas na elaboração de políticas de governo seja bem-intencionada (o que provavelmente é verdade), e deixando de lado minhas objeções morais, como libertário, à iniciativa da força, acredito que tornar o governo o veículo principal para o atingimento dos objetivos de alguém é embarcar em canoa furada.

Um dos sujeitos no evento do Partido do Café parecia sugerir esse tipo de coisa, embora eu ache que ele não tenha alcançado plenamente as implicações do que dizia. Ele questionou o centrismo do movimento do Partido do Café, argumentando que – longe de simplesmente desejar encontrar um meio-termo entre os “extremos” da esquerda e direita – a maior parte das pessoas do movimento estava horrorizada com a tomada do sistema político pelas corporações e era crítica em relação à liderança Democrática da esquerda. E destacou o quanto era terrível, penosa a luta para participar do governo ou exercer controle sobre ele em qualquer sentido significativo sem tratar do papel estrutural do poder corporativo no sistema político. As pessoas poderiam empenhar-se de alto a baixo em eleger candidatos “progressistas” – Obama e Pelosi são provavelmente os mais “progressistas” presidente e líder da maioria eleitos em toda uma geração, e detêm a mais ampla maioria que os Democratas provavelmente deterão durante referida extensão de tempo – mas ainda funcionam dentro de uma estrutura estabelecida pelas corporações que financiam suas campanhas e fornecem a maior parte do aconselhamento “especializado” para as equipes deles na elaboração de legislação.

Acho que aquele sujeito tinha em mente uma “solução” baseada no financiamento público das campanhas, ou algo da espécie. Se, porém, ele acha que isso acabaria com a natureza corporativa de nosso sistema político, está tristemente equivocado. Concedo que isso poderia levar a uma forma de servidão corporativa um pouquinho mais tolerável por nós servos, como o modelo europeu ocidental de democracia. E dada uma escolha entre duas formas de estatismo, serei o primeiro a admitir preferir aquele que pese menos em meu cangote. Eu preferiria ter seis semanas de férias e atendimento grátis de saúde do que viver na espécie de república de banana de exploração do trabalho insalubre objeto dos sonhos eróticos de pessoas como Dick Armey e Tom Delay.

Todavia, se aquele amigável crítico esquerdista do movimento do Partido do Café acha que o modelo europeu de social-democracia é menos corporativo ou menos capitalista do que o modelo Reagan-Thatcher, está – mais uma vez – tristemente equivocado. Assim como nosso sistema estadunidense, o modelo continental europeu é um sistema de poder baseado numa conivência entre o governo hipertrofiado centralizado e a grande empresa centralizada. A facção de capital organizado que o controla é um pouco mais esclarecida e humana do que aquela que controla nossa república de banana, e tem muito mais sensatez quando se trata de seus interesses de longo prazo, mas essas são praticamente as únicas diferenças. Como já disse, a principal diferença entre o modelo social-democrático ou liberal corporativo do Novo Pacto e o modelo Reagan-Thatcher é que a fação de capital organizado que controla o primeiro é como o fazendeiro humano que acredita poder obter mais trabalho de seus animais no longo prazo se cuidar bem deles; a facção que controla o último é como o Jones da Revolução dos Bichos, achando mais lucrativo fazê-los trabalhar até à morte e substituí-los.

Independentemente, porém, do quanto sejam humanos nossos senhores, é insensato acreditar que a participação política os tornará menos senhores nossos. O estado, em sua essência, é uma máquina receptiva a controle pelos que estão dentro, e a coalizão dos que estão dentro que o controla sempre vencerá pelo cansaço, no longo prazo, qualquer tentativa de controle democrático externo.

Continuem ligados.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

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