A Preservação da Ideologia Após o Abandono do Dogma

http://c4ss.org/content/1948

Postado por Darian Worden em 26 de fevereiro de 2010 em Feature Articles

A ideologia determina as metas da ação e dá-nos um modo coerente de entender as coisas. Quando, porém, tornamo-nos excessivamente dogmáticos – quando exigimos rigidamente um modo específico de pensar – perdemos a capacidade de trocar nossas ideias com pessoas que pensarão diferente a respeito delas. O pensamento dogmático quase assume o papel do sectarismo religioso.

A história do marxismo é excelente exemplo de filosofia tornando-se dogma. Em vez de tomar algumas percepções do marxismo e desenvolvê-las, muitos marxistas agiram como se qualquer coisa não descrita em termos marxistas fosse inválida. Ao o marxismo popular desdobrar-se em seitas de leninismo, stalinismo, trotskysmo e maoismo, a devoção fanática à Única Interpretação da Verdade virou material para humor negro.

Quando o dogma decreta que alguém tem de ajuntar-se atrás de certo líder, as pessoas ficam hipnotizadas ou alienadas. Isso pode ser visto em relação a políticos ao longo da história.

A campanha de Ron Paul e movimentos relacionados fizeram muito bem – pessoas que não o faziam antes estão examinando ideias libertárias (embora dizer que “não fosse isso, não o teriam feito” seja ir longe demais), resultou muito ativismo enérgico e pensamento libertário, e a posição conservadora que Paul mantém goza da capacidade de levar muita gente preocupada, de tendência direitista, numa direção mais libertária. Embora, porém, Paul desempenhe papel na obtenção da liberdade, ele não é a encarnação da solução. E é ridículo criticar pessoas por elas terem destacado as coisas autoritárias que ele fez.

Os defensores de uma sociedade sem estado não estão imunes ao pensamento dogmático.

Você poderá enfrentar hostilidade imediata se disser que o princípio da agressão zero (“nenhuma pessoa pode tomar a iniciativa de força contra outra”) ou da autopropriedade (“você é dono de si próprio”) não são as melhores maneiras de expressar crença na liberdade individual. Para tais pessoas inflexíveis, bons pensamentos só podem nascer da única base boa possível e, se alguém não aceitar essa base, é porque esse alguém só pode estar escondendo algum plano secreto para oprimi-las.

Alguns anarquistas de mercado relutam em aceitar ideias não expressas no palavreado que Murray Rothbard (ou talvez Samuel Konkin) as expressariam. E ser bom rothbardiano significa ser bom libertário. Ao mesmo tempo, a maioria das pessoas fora de determinados círculos sociais não se fazem ideia de quem é Rothbard.

Obviamente, o horror e o entendimento voluntarioso de todos os lados diante de diferentes definições de “propriedade,” “capitalismo” e “socialismo” são bem conhecidos de qualquer pessoa que tenha despendido tempo em fóruns antiestado da internet.

Se você procurar o suficiente dentro do anarquismo social, fatalmente encontrará problemas similares. Espere grandiosos comunicados esotéricos e escritos que provavelmente arremedam os Situacionistas (um grupo que enfatizava a criatividade como parte da atividade revolucionária).

O exibicionismo moral é outro elemento religioso que a política poderia dispensar. É ótimo se você não pagar tributos, ou se você viver autossuficientemente ou seja lá o que for. Contudo, talvez a sua escolha não seja a melhor escolha para todo mundo. Talvez outros possam fazer mais pela liberdade em seus papéis (há toda aquela coisa da divisão do trabalho). O modo pelo qual um indivíduo enfrenta o inimigo deveria depender das habilidades, do temperamento e da situação do indivíduo envolvido.

Se seu único soldado de plástico for o Cara da Bazuca, seu exército será uma lástima.

Como acima já observado, o dogma pode transformar nossos pensadores úteis em perigosas piadas. “Como posso desenvolver a obra com que essa pessoa nos presenteou?” é uma pergunta mais sensata do que “Como posso ser mais parecido com essa pessoa?”

“Como pode essa teoria ajudar-me em assuntos de minha vida?” é modo mais útil de olhar para as coisas do que “Como posso mudar minha vida para viver essa teoria à qual me atrelei?”

Não é possível à ação realizar um objetivo coerente sem uma ideologia coerente. Discutir coisas com pessoas que estejam interessadas, tentar interessar pessoas que não estejam interessadas, e criar nossas próprias interpretações são importantes para tornar útil a ação.

Quando, porém, o objetivo é a liberdade, quanto mais dogmática for uma ideologia, menos coerente será, e menos eficaz será a ação. A liberdade envolve satisfazer diversos desejos com o menor número possível de restrições à liberdade. A homogeneidade que o pensamento dogmático semeia não é conducente a esse objetivo.

Uma abordagem ideologicamente informada, mas não dogmática, a pessoas com ideias diferentes consistiria em trabalhar em conjunto com elas quando fazê-lo seja benéfico, e tentar influenciar as ideias delas sem temer que as ideias delas influenciem você.

Muitas pessoas estão entendendo a necessidade de alternativas à ordem estatal-capitalista. Elas podem estar procurando-as em Ron Paul, nos Partidos do Chá, no movimento contra a guerra, na violação da lei, ou onde mais seja. Certamente há certas pessoas com as quais jamais valerá a pena lidar, mas poderá ser encontrada base para cooperação e discussão em relação a pessoas que estejam pensando nas coisas de maneira diferente da de você. E não é a cooperação voluntária entre pessoas de interesses diferentes importante elemento funcional da anarquia? Não é expor-se e tentar entender novas ideias importante maneira de aperfeiçoar as suas próprias?

Espero que alguma espécie de rótulo de “pós-dogma” não se torne um novo dogma. Em vez de cruzadas e expurgos, espero que este ensaio estimule pessoas a pensar a respeito de maneiras de identificar e superar tendências indesejáveis. Não temos como eliminar de nós próprios o pensamento inflexível. Poderemos ser capazes de ser mais introspectivos e mais dispostos a encontrar terreno comum com outros pontos de vista. Nunca, porém, devemos perder nossos valores num pluralismo sem sentido que os autoritários possam explorar.

Darian Worden é escritor anarquista individualista com experiência em ativismo libertário. Sua obra de ficção inclui Traga Uma Arma de Fogo para o Dia de Aula Bring a Gun To School Day e, a ser publicado, Guerra Comercial Trade War. Seus ensaios e outras obras podem ser vistas no website pessoal dele his personal website. Ele também é anfitrião de um programa de rádio na internet, Pensar a Liberdade, em PatriotRadio.com.

Share

Leave a Reply

You must be logged in to post a comment.