Libertários pela Ciência Reles

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Postado por Kevin Carson em 22 de dezembro de 2009 em Commentary

Recentemente a comunidade de ciência do clima sofreu uma espécie de constrangimento com o “Climagate”: os servidores da Unidade de Pesquisa Climática foram hackeados, sendo abertos milhares de emails cobrindo um período de escrutínio de mais de treze anos. Alguns desses emails, se não solapando a validade de toda a pesquisa de aquecimento global, pelo menos mostram alguns cientistas do clima à nada lisonjeira luz de deturpar dados para promover um resultado politicamente predeterminado.

Os defensores do aquecimento global, contudo, não têm o monopólio do abuso político da ciência.

Engraçado como os mesmos libertários que euforicamente arremetem contra a “ciência reles” quando ela serve a uma agenda que eles vêem como hostil são tão ciosos dela quando ela confirma seus próprios preconceitos.

Bom exemplo é a alegada responsabilidade de Rachel Carson por milhões de mortes de malária, como resultado do papel dela na proibição do DDT. A revista neconservadora FontPage acusou-a de “genocídio ecológico,” e um personagem de uma obra de ficção de Michael Crichton foi a ponto de dizer que ela matou mais gente do que Hitler. O website CienciaReles.Com – JunkScience.Com (!) tem inclusive um relógio de contagem de mortes por malária com o rosto de Rachel Carson.

Infelizmente, trata-se de uma dessas coisas que todo mundo sabe não ser assim. Eis aqui algumas das falhas da versão recebida da história:

1)  Todas as diversas proibições nacionals do DDT deixaram alguma falha na erradicação de mosquitos quando outros meios disponíveis eram inferiores ao DDT. O uso controlado de DDT para erradicação de mosquitos é inteiramente legal.

2)  O DDT, nos anos 1960, já estava perdendo sua eficácia na erradicação de mosquitos porque os mosquitos estavam-se tornando resistentes a ele.

3)  O DDT apresentava numerosos efeitos colaterais que superavam sua eficácia limitada como pesticida. Mais importante, e como a maioria dos pesticidas sintéticos, ele também envenenava a cadeia alimentar acima dos mosquitos. Isso significava, entre outras coisas, que matava os inimigos naturais dos mosquitos, e assim tornava-se necessária quantidade cada vez maior de DDT para obterem-se os mesmos resultados anteriores. Nesse processo, também causava significativos danos colaterais. Por exemplo, matando as vespas parasitárias que anteriormente contribuíam para manter reduzida a população de lagartas comedoras de palha, o DDT indiretamente causou uma epidemia de colapso de telhados. Outro exemplo: envenenava lagartixas que comiam os mosquitos e que, por sua vez, envenenavam os gatos que comiam as lagartixas, daí resultando uma epidemia de ratos.

A lorota pode ser rastreada retrospectivamente pelo menos a uma campanha de Roger Bate, economista de direita que trabalhou para diversos institudos de pesquisa interdisciplinar. Ele pessoalmente conduziu diversas iniciativas de financiamento no mundo corporativo, vendendo sua campanha de propaganda como um estilete enfiado entre as costelas do movimento ambientalista. “O movimento ambientalista,” disse ele, “tem sido bem-sucedido na maioria de suas campanhas na medida em que tem sido ‘politicamente correto.’” O DDT oferecia o potencial de usar as vantagens anteriores do movimento ambientalista contra ele, exultava ele: “a mescla correta de correção política (. . . negros oprimidos) e argumentos (o ecoimperialismo [está] solapando o futuro deles).”

Ron Bailey, repórter de ciência da revista Razão, foi precoce e entusiástico adotador, regurgitando a lenda urbana na maioria de seus artigos em 2002 (ele apresentava link para um artigo baseado quase inteiramente na obra de Roger Bates).

Catar e escolher evidência com base nas implicações de sua veracidade, e não em sua validade ou não, é má coisa —independentemente do “lado” de que venha.

No caso do aquecimento global antropogênico, a oposição reflexa de muitos libertários é tão arrogante em relação à verdade quanto os sujeitos que exultam com o Climagate acusam de ser os defensores do aquecimento global.

O fato de tais libertários sentirem-se compelidos a assumir a posição estratégica que assumem em relação ao aquecimento global diz muito acerca da visão básica do mundo deles. É uma visão do mundo que compartilha muita coisa em comum, ironicamente, com a do Democrata liberal médio.

Tal processo de raciocínio é mais ou menos o seguinte:

Se o aquecimento global for verdade, os libertários estão perdidos porque, como implicação direta, segue-se a necessidade do estatismo. Se o aquecimento global for verdade, provará que os Democratas liberais estão certos: o livre mercado tem resultados desastrosos em pelo menos um particular, e o estado é necessário em pelo menos esse caso para corrigir o fracasso do mercado. Em outras palavras, dada a premissa do aquecimento global, os libertários dessa cepa vêem o argumento em favor do governo hipertrofiado como algo que legitimamente decorre de tal premissa, de modo naturlal. Então, o aquecimento global não pode estar acontecendo. QED.

Engraçado.  Sinto-me bastante amigável em relação à tese do aquecimento global antropogênico, e não vejo em absoluto o aquecimento global como representando fracasso do mercado. Vejo-o como fracasso do governo. Se removêssemos todas as externalidades criadas pelo governo promotoras de inputs para consumo de energia e de transporte, e protegêssemos a indústria de combustíveis fósseis da responsabilidade plena por danos extracontratuais cometidos no curso de suas operações, o aquecimento global, para começo de conversa, nunca teria representado problema. O livre mercado não é o problema, e sim a solução.

Talvez, porém, alguns libertários vejam o livre mercado como algo que precisa de ser protegido da verdade.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

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