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Postado por Kevin Carson em 5 de dezembro de 2009 em Commentary
Em minha coluna anterior, argumentei que o melhor modo de combater o estado não é trabalhar a partir de dentro do sistema para mudar as leis, e sim tornar o estado irrelevante por meio de nossos próprios esforços estigmérgicos fora a dele: mediante lembrar às pessoas de que elas não precisam de permissão para ser livres; mediante o desenvolvimento de novos meios de burlar o estado e viver fora de sua autoridade; e mediante solapar a legitimidade do estado na consciência popular.
Na presente coluna desejo lidar especificamente com o desenvolvimento de novos modos de burlar a vigilância do estado e seus mecanismos de coerção tornando-os irrelevantes para o modo que escolhamos de viver nossas vidas.
Os estados dizem ter todos os tipos de poder que são completamente incapazes de fazer cumprir. Não importa quantas leis tributárias estejam nos códices se a maior parte do comércio utilizar algum tipo de moeda criptografada e invisível ao estado. Sem a capacidade de coerção no tocante aos poderes que alega ter, esses próprios poderes alegados tornam-se praticamente tão relevantes quando os éditos do Imperador Norton(*).
(*) Joshua Abraham Norton, inglês morador em São Francisco, Califórnia, declarou-se Imperador dos Estados Unidos e, subsequentemente, Protetor do México. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Emperor_Norton
Bom exemplo é o efeito dos sites torrent(1), dos servidores proxy(2) e da criptografia sobre a lei de copyright. Praticamente toda obra musical ou filme ficará disponível para download grátis tão logo a versão patenteada apareça no mercado, e qualquer pessoa que se dê ao trabalho de aprender a técnica adequada poderá fazer o download grátis sem qualquer risco. Quanto mais o estado reprimir os desavisados, mais a população majoritária ver-se-á estimulada a usar anonimadores(3) de web e a darknet(4), e a aceitar seu uso como procedimento padrão.
(1)http://pt.wikipedia.org/wiki/BitTorrent
(2)http://pt.wikipedia.org/wiki/Proxy
(3)http://pt.wikipedia.org/wiki/Proxy#Proxy_an.C3.B4nimo
(4)http://pt.wikipedia.org/wiki/Darknet
O conceito de estigmergia, ao qual referi-me anteriormente, é de novo relevante aqui: o surgimento de ordem por meio de esforços de indivíduos e pequenos grupos autônomos, cada qual coordenando seus esforços com o todo maior tal como percebido por eles, sem qualquer autoridade coordenadora central.
É a forma de organização que governa o movimento de software de código aberto, particularmente a comunidade de design de Linux descrita no livro de Eric Raymond “A Catedral e o Bazar.” Inovações discretas são desenvolvidas, independentemente, pelos indivíduos autosselecionados mais interessados no problema e com melhores condições de atacá-lo, e em seguida tornadas disponíveis para todo mundo por meio da cultura de rede. No dizer de Michel Bauwens, nas hierarquias corporativas provavelmente 80% das pessoas trabalhando num problema específico pouco se importam com ele, enquanto, numa rede de pares(*), 100% das pessoas trabalhando em qualquer problema estão fazendo aquilo por estarem apaixonadamente comprometidas. E as melhores soluções são então adotadas independentemente, por indivíduos e pequenos grupos, por meio de processo estigmérgico similar. A organização estigmérgica aproveita o talento no tratamento dos problemas, e universaliza a adoção das melhores soluções tão depressa quanto possível, sem os custos de transação(**) da ação coletiva convencional.
(*) http://pt.wikipedia.org/wiki/P2P
(**) http://pt.wikipedia.org/wiki/Custo_de_transa%C3%A7%C3%A3o
John Robb, do blog Guerrilheiros Globais, aplica o modelo de Raymond à “insurgência de código aberto” e à Guerra de Quarta Geração. Na resistência em rede, células distintas usam independentemente seu próprio juízo no fazer uso maximamente eficaz das ferramentas e informações disponíveis no domínio público. O Iraque da al Qaeda não empreende todos os tipos de esforço organizacional centralizado para assegurar-se de que ninguém se mexa sem um “Simon diz(*)” da Autoridade Executiva Principal. Um pequeno grupo concebe um modo mais barato e eficaz de Dispositivo Explosivo Improvisado – IED, coloca-o na rede, e dentro de uma semana todas as pequenas células desconexas o terão adotado para si próprias e concebido a melhor maneira de usá-lo.
(*) http://es.wikipedia.org/wiki/Sim%C3%B3n_dice
E, de acordo com Cory Doctorow, é exatamente desse modo que o movimento de compartilhamento de arquivos funciona. Os gênios das companhias de gravação, ao conceberem sua Gestão de Direitos Digitais – DRM(*), acharam que ela só precisava ser boa o bastante para frustrar a pessoa média. Os prejuízos com o punhado de geninhos da informática que conseguiriam descobrir como craqueá-la seria desprezível, desde que a pessoa média não tivesse acesso ao processo. Na verdade, porém, os geninhos da informática, ao descobrir como vazar as defesas, proporcionam o efeito de demonstração(**) para todo mundo mais.
(*) http://pt.wikipedia.org/wiki/Drm
(**) http://en.wikipedia.org/wiki/Demonstration_effect
Tais esforços independentes usando a forma de rede são incrivelmente eficazes na distribuição de ferramentas e informações levando-as até onde elas sejam mais eficazes. E fazem-no sem a necessidade de todo mundo rezar pela mesma cartilha antes de uma pessoa poder dar um passo à frente de outra. Esta é a essência da cultura de rede: ela remove todos os incríveis custos de transação e as ineficiências burocráticas que no passado eram exigidas para que qualquer coisa fosse feita.
O melhor modo de enfraquecer qualquer autoridade injusta é mostrar aos outros, independentemente, como resistir a ela: descobrir os melhores meios de invalidar o poder dela sobre você de tal maneira que você possa torná-la irrelevante para sua vida, e em seguida propagar o conhecimento dessa técnica por toda parte.
Penosamente fazer com que todo mundo reze pela mesma cartilha, antes de permitir que qualquer pessoa dê o primeiro passo, é o caminho para a irrelevância. O benefício central da cultura de rede é ela ter eliminado os enormes custos de transação da coordenação de esforços via gigantescas organizações burocráticas.
O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.