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Postado por Kevin Carson em 30 de novembro de 2009 em Commentary
Há muito debate, nos círculos libertários, acerca de coisas tais como o valor e o papel adequado da política eleitoral, e se deveríamos tentar mudar as leis a partir de dentro do sistema. Numa lista de discussão por email que frequento, o grupo yahoo LibertarioEsquerdista2, tal debate foi recentemente suscitado por Michael Bindner, da Esquerda Cristã, o qual argumentou pela necessidade de um único grande movimento de libertários e descentralistas — a fim de, entre outras coisas, enfrentar realisticamente a existência do estado, e obter liberdade para todos em vez de deixar algumas pessoas para trás.
Quanto ao valor de esforços políticos desse tipo sou agnóstico ou mesmo levemente favorável. Concorrer a cargos como esforço educacional (e qualquer pessoa que veja uma candidatura Libertária ou Verde em nível nacional como qualquer coisa que não apenas um esforço educacional estará precisando de mais ajuda do que sou capaz de proporcionar a ela) pode expor o público a ideias novas e estimular pessoas a questionar a opinião tradicional que elas ouvem dos candidatos dos grandes partidos. Grupos de pressão fazendo lobby para debilitar os tipos mais danosos de ação do estado (bom exemplo é a ação política da Fundação Fronteira Eletrônica para enfraquecer o regime de copyright digital) podem, por vezes, ser eficazes. Contudo, não vejo nenhum sentido em libertários tentarem obter cargos dentro do estado com vista a “combater o sistema a partir de dentro.” O esforço organizado para pressionar o estado a partir de fora e debilitar leis opressoras pode valer alguma coisa — desde que visto como esforço secundário, um modo de dar uma força em prol de contrainstituições cuja construção deveria ser nosso esforço precípuo.
E o foco em assegurar a liberdade precipuamente por meio de organização política — organizando “um só grande movimento” para assegurar que todo mundo esteja concorde, antes de qualquer um dar um passo antes do outro — encarna todos os piores defeitos da cultura organizacional do século 20. Do que precisamos, em vez disso, é de tirar proveito dos recursos da cultura de rede. A cultura de rede, em sua essência, é estigmérgica(*): isto é, um efeito de “mão invisível” resulta de diversos esforços de indivíduos e de pequenos grupos trabalhando independentemente. Tais agentes independentes podem ter a intenção de coordenar seus esforços com um movimento mais amplo, e de levar em consideração as ações de outros atores, mas fazem-no sem qualquer aparato específico de coordenação estabelecido em cima e acima de sua autoridade independente. Em outras palavras, precisamos de um movimento que funcione como a Wikipedia no que ela tem de melhor, ou como desenvolvedores de produtos de código aberto que talham independentemente produtos modulares para uma plataforma comum.
(*) Em espanhol: http://es.wikipedia.org/wiki/Estigmergia
Em minha opinião a melhor maneira de mudar as leis, em termos práticos, é por meio da construção de contrainstituições e por meio de atividade contraeconômica fora do controle do estado: em outras palavras, tornar as leis tão irrelevantes e impossíveis de serem feitas cumprir, por meio de nossos esforços fora do estado, que até o estado seja obrigado a fazer concessões à realidade.
Parece-me que o estatismo finalmente acabará não como resultado de qualquer fracasso súbito e dramático, mas como efeito cumulativo de uma longa série de pequenas coisas. Os custos de aculturar os indivíduos de modo a adotarem o ponto de vista do estado a respeito do mundo, e de dissuadir maioria de pessoas suficientemente grande de desobedecer quando elas estiverem suficientemente certas de não estarem sendo vigiadas resultará numa morte por mil cortes(*). Da perspectiva daqueles que estão no controle, cada vez mais atividades do estado simplesmente custarão mais (em termos não apenas de dinheiro mas de puro aporrinhamento mental) do que valem. Em outras palavras, a decadência da hegemonia ideológica e a diminuição da viabilidade da capacidade de reprimir farão com o estado o que o compartilhamento de arquivos(**) está fazendo com a Associação das Indústrias de Gravação dos Estados Unidos.
(*) Death by a thousand cuts, ou slow slicing, era um método de execução, na antiga China, por meio do qual o condenado era morto por meio de uma faca, com a qual eram tirados pedaços de partes específicas do corpo durante extenso período de tempo. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Slow_slicing e, em português, http://pt.wikipedia.org/wiki/Morte_por_mil_cortes
(**)http://pt.wikipedia.org/wiki/Compartilhamento_de_arquivos
Há até a real possibilidade de, mesmo antes dos custos totais tornarem-se absolutamente proibitivos do ponto de vista do benefício líquido de usarem-se os meios políticos acima dos econômicos, as elites no controle serem devoradas a partir de dentro por desânimo. Roderick Long, do Instituto Molinari(*), sugere, ademais, que antes de se chegar a esse ponto as elites provavelmente ficarão divididas entre si.
(*) O Instituto Molinari é a instituição anarquista da qual o Centro por Uma Sociedade sem Estado é um projeto. Ver http://praxeology.net/molinari.htm
O esforço “político” de melhor custo-benefício é simplesmente fazer as pessoas entenderem que não precisam da permissão de ninguém para serem livres. Começar a dizer a elas, imediatamente, que a lei é de cumprimento impossível, e disseminar conhecimento tão largamente quanto possível acerca dos modos mais eficazes de violá-la. Divulgar exemplos de maneiras pelas quais podemos viver nossas vidas do modo como desejemos, com instituições criadas por nós próprios, por baixo do radar do aparato de repressão do estado: sistemas de moeda local, clínicas grátis, meios de proteger comunidades de sem-teto contra assédio, e assim por diante. Esforços educacionais para solapar a legitimidade moral do estado, campanhas educacionais para mostrar a impossibilidade de fazer cumprir a lei, e esforços para desenvolver e disseminar meios de contornar o controle do estado, são todas coisas melhor feitas de modo estigmérgico.
O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.