Postado por Thomas L. Knapp em 17 de abril de 2009 em Commentary
Mais cedo esta semana, dezenas de milhares de estadunidenses se reuniram — por todo o país, em grandes e pequenas cidades — para protestos de “Chá de Senhoras(*)” contra altos impostos, gastos perdulários do governo e assistencialismo às empresas(*).
(*) Um Tea Party, Festa do Chá, Reunião de Chá, é uma reunião muito formal de senhoras para tomar chá à tarde, embora cavalheiros possam também ser convidados. A expressão pode também referir-se ao Boston Tea Party, um protesto dos colonos estadunidenses, em 16 de dezembro de 1773, depois que as autoridades da cidade se recusaram a devolver três cargas de chá tributado à Grã-Bretanha. Em outras colônias os colonos haviam conseguido impedir o desembarque de chá tributado oriundo da Grã-Bretanha, mas em Boston o governador da coroa britânica, Thomas Hutchinson, recusou-se a permitir que o chá fosse devolvido à Grã-Bretanha. Os colonos, então, subiram aos navios e destruíram as cargas, jogando o chá na enseada de Boston. Todo o protesto foi a propósito da Lei do Chá – Tea Act, aprovada pelo Parlamento britânico em 1773. Os colonos objetaram a essa lei por diversos motivos, especialmente por acharem que ela violava o direito constitucional deles de serem tributados apenas pelos seus próprios representantes eleitos. Ver Wikipedia, ‘Tea party’ e ‘Boston Tea Party’.
Digo “dezenas de milhares” por ser o que a mídia majoritária diz. Se o Chá de Senhoras de St. Louis fosse típico, o número nacional seria mais provavelmente de “centenas de milhares.”
Apesar das alegações da esquerda estatista, vi poucos indícios de que esses eventos fossem de natureza “Republicana” ou que fossem manifestações “astro-turf” (”grama artificial(*)”). Eles foram transpartidários, ecléticos, inclusive. Foram, em uma palavra, lindos.
(*) fake grassroots – Falsos movimentos de base. AstroTurf é grama artificial usada para nela se praticarem alguns esportes. Grassroots, raízes de grama, é expressão usada para significar base popular: um grassroots movement é um movimento nascido das pessoas comuns, e não de líderes.[Longman]
Se a energia dos participantes dos Chás de Senhoras puder ser concentrada em torno de uma mensagem libertária proba, populista, o potencial para modificação maciça no panorama político é muito real.
90% dos cartazes no Chá de Senhoras de St. Louis foram contra o estado — “Acabem com o Banco Central – Fed!” “Rejeitem a Dívida!” “Impostos são roubo!” — e se implementássemos 90% do que esses cartazes pediram, teríamos percorrido 90% do caminho rumo a uma sociedade sem estado.
Mas … Garçon(*)! Há uma mosca em meu chá!
(*) O Aulete registra ‘garção’ e ‘garçom’, reconhecendo, entretanto, que a forma francesa ‘garçon’ é a que mais se usa no Brasil.
Os outros 10% dos cartazes, mais do que simplesmente deixarem escapar o ponto essencial, distorceram a mensagem. Os cartazes de “protejam as fronteiras”. Os cartazes defendendo novos esquemas tributários (em sua maioria defendendo impostos ”equânimes” e impostos “fixos”). Os cartazes acusando o Presidente Obama de cortar os gastos do governo em “defesa nacional” (infelizmente, a proposta de orçamento feita por ele inclui aumento do financiamento para “defesa”).
O movimento do Chá de Senhoras tem que fazer-se completamente antipolítico e antiestatal. Caso contrário haverá um natimorto … ou acabará, na verdade, promovendo o aumento do estado.
Não estou dizendo que o movimento do Chá de Senhoras tenha que adotar uma ideologia explicitamente anarquista. Isso seria esplêndido, mas não é nem provável nem absolutamente necessário. O que estou dizendo é que se o movimento cair na esparrela do pensamento político tradicional, as mandíbulas dessa armadilha fechar-se-ão em torno dele e o tornarão ineficaz.
Consideremos a natureza do governo. O estado funciona, para todos os propósitos práticos, como um organismo quase biológico. Como qualquer organismo, sua primeira prioridade, seu objetivo essencial, é o de preservação e crescimento próprios. Como qualquer organismo, o estado só pode fazer as coisas que faz se continuar a existir.
Do mesmo modo que os esquilos armazenam nozes(*) para quando chegar o inverno, e os ursos acumulam uma camada de gordura para sustentá-los durante a hibernação, o estado acumula as exigências de poder político que os eleitores fazem, para efeito do frio dia futuro quando terá que justificar o uso do poder enquanto tal(**). O exercício do poder político é o “alimento” do estdo. Sem a capacidade de exercer poder político, o estado definha … e, no fim, morre.
(*) acorns – Acorn é a noz do carvalho. Ver ilustração em http://www.merriam-webster.com/art/dict/acorn.htm
(**) Eis aqui uma idéia interessante. Quem cobra poder político do estado é o eleitor. O estado, então, ‘acumula’ essa cobrança ao longo do tempo e, no momento azado, usa o poder político justificando-o a partir da cobrança feita pelo eleitor.
Por favor não confundam esta afirmação com a afirmação de que qualquer indivíduo específico encarna a “consciência” do estado. O estado não possui nenhuma das duas acepções de consciência(*). Possui, entretanto, facsímiles dessas duas acepções — facsímiles nele embutidos por seus criadores. O estado foi criado por estatistas. Sua estrutura e modo de funcionamento refletem os valores de seus criadores.
(*) ‘The state possesses neither consciousness nor conscience,’ nem consciousness nem conscience. Consciousness é a condição de estar cônscio de alguma coisa, de estar acordado e saber o que se passa em torno de si e dentro de si (como na frase ‘ele perdeu a consciência’, ‘he lost consciousness’, ou ‘ele recuperou a consciência’, ‘he regained consciousness’. É, também, como esclarece o Merriam-Webster, a preocupação com alguma causa social ou política. Conscience é a parte da mente de uma pessoa que lhe diz se o que ela está fazendo é moralmente bom ou mau, portanto o senso de moralidade das ações, por exemplo ‘it was his guilty conscience that made him offer to help’, ‘foi a consciência culpada dele que o fez oferecer-se para ajudar’. [Merriam-Webster, Longman]
Pelo fato de o estado tratar as exigências de poder político como “alimento,” tais exigências por parte de qualquer novo movimento popular tornar-se-á inevitavelmente o foco das interações de tal novo movimento com o estado. O movimento será digerido. Aquelas partes dele que constituem “alimento” serão usadas — e aquelas partes dele que não constituírem alimento serão excretadas.
A mensagem central dos participantes do Chá de Senhoras é uma mensagem contrária ao estado. Se a pureza dessa mensagem central puder ser mantida, o movimento do Chá de Senhoras entrará na sociedade vista como corpo político como um vírus com o potencial de causar dano ao — potencialmente até de matar o, embora com pouca probabilidade de sucesso — estado.
Se, por outro lado, a mensagem do Chá de Senhoras for contaminada por “alimento do estado” — reorientações insignificantes do esquema tributário, exigências de as linhas imaginárias de integridade traçadas no solo pelos políticos serem reforçadas coercitivamente, promessas de a já morbidamente obesa instituição de “defesa” ganhar outra porção de sobremesa — então essa contaminação oferecerá ao estado as calorias de que ele precisa para acabar com a febre do Chá de Senhoras.
O Analista de Notícias – News Analyst do C4SS Thomas L. Knapp é experiente ativista libertário e autor de A Elaboração do Artigo de Fundo Libertário Writing the Libertarian Op-Ed, um livrinho que compartilha os métodos presentes nos mais de 100 artigos de fundo dele na mídia impressa. Knapp publica o Sumário de Notícias da Rational Review Rational Review News Digest, um resumo de notícias diárias e comentários para o movimento da liberdade.