Capitalismo: Boa Palavra para Má Coisa

março 7th, 2010

http://c4ss.org/content/1992

Postado por Kevin Carson em 6 de março de 2010 em Commentary

O editor do The Freeman, Sheldon Richman, falando na George Mason University, suscitou a questão de o que os libertários convencionais querem dizer quando chamam um país de “capitalista.” O que qualifica um país como “capitalista”?

Muitos países com índices relativamente baixos de liberdade econômica (inclusive aqueles classificados como “em sua maior parte não livres”) são convencionalmente considerados “capitalistas,” e assim referidos na propaganda neoliberal que os compara, mostrando-se favorável a eles, a países não capitalistas como Cuba. E as cabeças falantes na CNBC e os escribas da imprensa corporativa comumente se referem a “nosso sistema capitalista,” embora ele nem sequer remotamente se aproxime de um livre mercado.

Assim, no uso comum, entre libertários do establishment e aqueles que passam por intelectuais convencionais do “livre mercado,” qualquer país que não tenha adotado o socialismo marxiano como ideologia oficial é “capitalista.”

Com base nessas observações, Richman conclui que o “capitalismo,” na prática, “designa um sistema no qual os meios de produção, de jure, são de propriedade privada.”

Interessante que Murray Rothbard conta um incidente no qual Ludwig von Mises tornou essa distinção, ou algo parecido com ela, explícita. Ele perguntou a Mises: Dado que há tal espectro de graus possíveis de estatismo, desde o estatismo total ao mercado totalmente livre, e dado que nenhum país se situa em qualquer desses dois extremos, o que você vê como a característica definidora que divide sociedades  essencialmente capitalistas das essencialmente não capitalistas? A resposta de Mises: a existência de um mercado de ações. Uma sociedade com um mercado de bens de capital(*) é essencialmente capitalista.

(*) capital goods – Bens de capital, ou bens capitais. Parece que a resposta de Mises a Rothbard confunde duas coisas diferentes.  Na terminologia marxiana esses bens dizem respeito, originariamente, a meios ou fatores de produção – ver http://en.wikipedia.org/wiki/Capital_goods e, em português, http://pt.wikipedia.org/wiki/Bem_capital Por outro lado, há, presumo que na área financeira, uma definição com terminologia muito diferentes da marxiana – bens de capital são “ações de ativos físicos ou financeiros capazes de gerar renda.” http://www.powerhomebiz.com/Glossary/glossary-C.htm

Como já destaquei no passado – um ponto ao qual Richman se refere em sua palestra – é bastante estranho “capitalismo” ter sido adotado como palavra convencional para designar uma sociedade baseada na propriedade privada e na liberdade de troca. Não há nenhum motivo óbvio, ao se procurar um nome para uma economia na qual todos os fatores de produção sejam, em tese, iguais e se insiram na livre contratação como iguais, para que o capital seja singularizado especificamente, para efeito de ênfase especial. A escolha de “capitalismo” sugere algum programa ideológico especial, como se o sistema fosse posto a funcionar graças ao, pelo e para o capital, considerado distintamente em relação aos outros fatores de produção.

A assunção não verbalizada implícita no chamar-se um país “economicamente não livre” e no entanto ainda assim capitalista é a seguinte: um país não livre economicamente só deixa de ser capitalista quando a perda de liberdade econômica interfere na capacidade das pessoas ricas de se tornarem mais ricas graças a retorno proveniente de terra e capital. Enquanto a falta de liberdade econômica limitar precipuamente a liberdade de os pobres escaparem da pobreza, mas os ricos conseguirem enriquecer-se no estilo da United Fruit Company da Guatemala ou dos clientes de Jack Abramoff nas Ilhas Marianas, ela recebe o selo de aprovação capitalista de Boa Administração Caseira.

A resposta de Mises a Rothbard acima – deixando-se de lado o fato de confundir um “mercado de bens de capital” com um mercado de investimentos financeiros(*) em firmas – implica em que, não importa o quanto não livre economicamente, um país no qual a maioria das empresas tenha proprietários ausentes detentores da concentração de riqueza, e a maior parte do trabalho seja contratado por salários por esses proprietários ausentes, receberá a chancela de “capitalista.” Presumivelmente um país no qual a riqueza seja tão amplamente distribuída e o autoemprego e a propriedade cooperativa sejam formas de organização tão precípuas que o comércio de ações seja de importância marginal recairá no lado “socialista” da linha de Mises – mesmo sem haver quaisquer constrições de regulamentação das transações de mercado e do livre movimento de preços.

(*) equity – http://www.powerhomebiz.com/Glossary/glossary-E.htm#E

Esse é um conjunto de prioridades muito revelador: o “capitalismo,” por oposição ao “socialismo,” não é definido pelo grau de liberdade econômica enquanto tal; é definido por uma estrutura institucional particular desproporcionalmente em benefício de uma classe particular de agentes do mercado.

Como evidência de que algumas formas de falta de liberdade são mais importantes do que outras, consideremos a proclividade de alguns direitistas ao dizerem “O autoritarismo de Pinochet foi lamentável, mas pelo menos ele tornou o Chile mais livre economicamente.” Pouco importam questões “menores” como se a reversão de uma reforma agrária e a devolução de terra das pessoas que a haviam trabalhado para uma oligarquia fundiária representaria um passo no sentido de “liberdade econômica.” Consideremos tão somente a supressão autoritária, por Pinochet, do movimento trabalhista: se tivessem sido os donos do capital, e não os vendedores de força de trabalho, os torturados e desaparecidos, ou encontrados em valas com seus rostos desfigurados, duvido que eles dissessem a mesma coisa. É uma estranha diferenciação tratar a repressão dos donos de um fator de produção como econômica, mas dos donos de outro fator como apenas “política.”

Essa assunção subjaz à maioria dos comentários convencionais de “livre mercado” na imprensa corporativa e nos canais noticiosos corporativos: mesmo quando eles explicitamente se referem a “nosso sistema de livre mercado” em termos inquestionávies, em realidade se referem a um sistema no qual a maioria dos empreendimentos empresariais é oficialmente vista como “privada.” Pouco importa o quanto um sistema de regulamentação vigente seja estatista; desde que exercido precipuamente por agentes “privados,” e a maioria do dinheiro passe pelas mãos de tais agentes “privados,” e não pelo Tesouro dos Estados Unidos, tratar-se-á de um sistema de “livre mercado.” Daí  o tipo de programa de “livre mercado” que vemos em lugares como a Heritage e o Instituto Adam Smith pela “privatização” de funções do governo mediante contratação delas a “empresas privadas,” mesmo quando a essas empresas garantido lucro a expensas do contribuinte.

E, a propósito, aqueles que objetam a tudo isso como forma de jogo sujo semântico deveriam lembrar-se de que Mises e Rand foram responsáveis, a partir dos anos 1920, pela deliberada reabilitação de “capitalismo” como termo de apologética pró-mercado. Antes da época de Mises, “capitalismo” era usado por economistas políticos convencionais para descrever o sistema efetivo de economia política sob o qual viviam – isto é, o capitalismo histórico.

“Capitalismo,” em suma, é a palavra mais honesta para o mercado sem liberdade sob o qual vivemos. É um sistema de, por e para os donos do capital; enquanto ele preservar essa característica precípua, será “capitalista,” pouco importando o quanto o mercado não seja livre.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

A Corrida Para Escapar do Naufrágio do Navio do Estado

fevereiro 24th, 2010

http://c4ss.org/content/1893

Postado por Thomas L. Knapp em 19 de fevereiro de 2010 em Commentary

Anteriormente nesta semana o Senador dos Estados Unidos Evan Bayh (Democrata de Indiana) tornou-se o mais recente de um bando de ocupantes de cargos no Congresso anunciando aposentadoria. Verifica-se, este ano, tendência claramente crescente, tanto de Republicanos quanto de Democratas, de subitamente comunicar que adorariam “passar mais tempo com suas famílias” e “buscar outras oportunidades” em vez de ficar em Washington por mais dois ou seis anos.

São ratazanas, nadando para distanciar-se de um navio que afunda. E quem poderia culpá-los?

O estado estadunidense está submergindo — seu convés inundado com $12 triliões de dólares em dívida vencida não paga, afundando sob as ondas de dezenas de triliões de pagamentos futuros prometidos mas sem fundos, cercado de outros navios similares contra os quais gastou décadas disparando aleatoriamente seus canhões (ou ameaçando fazê-lo).

A geração posterior à da explosão demográfica já entendeu, há décadas, que nunca verá seus prometidos benefícios da “Previdência Social.”

A ideia de que a “dívida nacional” um dia será paga tornou-se, no ano passado, objeto de zombaria pública descarada. O estado que é o maior credor do governo dos Estados Unidos, a China, está dando sinais de sua perda de interesse em continuar a agir como financiador dos políticos dos Estados Unidos.

Finalmente, de ano para ano, os políticos se vêem apanhados entre a Cila de sua própria relutância em viver dentro dos meios extremamente amplos à sua disposição e a Caríbdis de seu terror das consequências de anunciar que pretendem extrair pela força meios ainda maiores de um público irritado (e falido).

Senhoras e senhores, os Estados Unidos estão em estado de revolução incipiente.

Não fiquem, entretanto, entusiasmados em demasia. Como muitas gravidezes, muitas revoluções abortam antes de ser sequer notadas, quanto mais levadas até o fim e dadas à luz. A impendente implosão do governo dos Estados Unidos — que, permitam-me qualificar aqui, poderá estar ainda a alguns anos à frente, não depois de amanhã — é uma oportunidade de obtenção de liberdade, não garantia de que esta cairá em nosso colo.

Estados afundados são, quase sempre, rapidamente içados, bombeados, feitos reflutuar e aquinhoados com novas bandeiras. E em muitos, talvez na maioria dos casos, são até as mesmas ratazanas as que nadam de volta para retripulá-los. Amiúde estas conseguem que alguma porção da “água de dívida” dos antigos administradores seja de novo bombeada para sua custódia antes da zarpagem, visto que os credores da nova tripulação são, de modo geral, as mesmas pessoas junto às quais a tripulação anterior contraiu a dívida que afundou o navio da última vez.

E, em todos os casos, a tripulação do navio finge simultaneamente estar agindo em nome de, e ter direito divino de comando sobre …. você!

Ela operará o navio, mas você financiará a viagem, querendo ou não.

Ela administrará a dívida, mas você pagará tal dívida, se não quiser ser lançado no calabouço.

Se você a deixar em paz, o ciclo apenas continuará a repetir-se e você e seus filhos ou seus netos ainda continuarão escravizados nas galés da próxima vez em que esse Navio dos Amaldiçoados escorregar para debaixo das ondas.

Não podemos fazer uma revolução num navio sem condições de navegar. Não importa quantas vezes permitamo-nos ser ludibriados para flutuar nesse tipo de navio, um navio de escravos, o final continuará sendo o mesmo, e o próximo capítulo terá exatamente o mesmo texto do capítulo anterior.

Nenhuma nova bandeira transformará um Navio do Estado num Navio da Liberdade. É hora de seguir o exemplo das ratazanas só até certo ponto — pular do navio! — e não além. Uma vez na praia, em vez de juntarmo-nos às ratazanas no projeto de içamento/reflutuação/nova bandeira, precisamos começar a construir nossos próprios navios menores, mais ágeis, com melhores condições de navegação: Barcos nossos, sem capitães e sem ratazanas.

O Analista de Notícias do C4SS Thomas L. Knapp é ativista libertário de longa data e autor da Escrita do Artigo Opinativo Libertário Writing the Libertarian Op-Ed, livrinho eletrônico o qual partilha os métodos subjacentes a seus mais de 100 artigos publicados na mídia majoritária impressa. Knapp publica o Sumário de Notícias da Revista Racional Rational Review News Digest, um apanhado diário de notícias e comentários para o movimento da liberdade.

Os Defensores dos Mercados Desimpedidos Deveriam Adotar o “Anticapitalismo”

janeiro 30th, 2010

http://c4ss.org/content/1738

Postado por Gary Chartier em 2010 em Feature Articles

[O membro do Painel Consultivo do C4SS Gary Chartier fará a apresentação a seguir na Associação de Educação da Empresa Privada Association of Private Enterprise Education na sessão de Anticapitalismo de Livre Mercado durante a Conferência Anual em Abril. Versão PDF desta apresentação está disponível para download PDF version of this presentation is available for download.]

I. Introdução

Os defensores dos livres mercados têm bom motivo para identificar sua posição como uma espécie de “anticapitalismo.”[1] Para explicar por que, distingo três significados em potencial de “capitalismo” antes de sugerir que as pessoas comprometidas com os livres mercados devam opor-se ao capitalismo em meus segundo e terceiro sentidos. Em seguida, ofereço alguns motivos para usar “capitalismo” como rótulo para alguns dos esquemas sociais aos quais os defensores do livre mercado deveriam objetar.

II. Três Sentidos de “Capitalismo”

Há pelo menos três sentidos distinguíveis de “capitalismo”:[2]

capitalismo-1

sistema econômico caracterizado por direitos de propriedade e trocas voluntárias de bens e serviços.

capitalismo-2

sistema econômico caracterizado por uma relação simbiótica entre grandes empresas e governo.

capitalismo-3

domínio — de locais de trabalho, da sociedade e (se houver um) do estado — pelos capitalistas (isto é, por número relativamente pequeno de pessoas que controla a riqueza passível de ser investida e os meios de produção).[3]

Capitalismo-1 é apenas mercado desimpedido; portanto, se “anticapitalismo” significasse oposição ao capitalismo-1, “anticapitalismo de livre mercado” seria um oxímoro. Contudo, os proponentes do anticapitalismo de livre mercado não se opõem ao capitalismo-1; objetam, isso sim, ou ao capitalismo-2 ou tanto ao capitalismo-2 quanto ao capitalismo-3.[4]

Muitas pessoas parecem trabalhar com definições que combinam elementos desses distintos sentidos de “capitalismo.” Tanto entusiastas quanto críticos do capitalismo parecem, demasiado amiúde, usar essa palavra no sentido de algo como “sistema econômico caracterizado por direitos pessoais de propriedade e trocas voluntárias de bens e serviços — e portanto, previsivelmente, também dominado por capitalistas.” Creio haver bom motivo para questionar a assunção de que o domínio por pequeno número de pessoas ricas seja, em qualquer sentido, característica provável do livre mercado. Tal domínio, sugiro, só é provável quando força e fraude tolhem a liberdade econômica.

III. Por que Capitalismo-2 e Capitalismo-3 São Incompatíveis com Princípios do Livre Mercado

A. Introdução

Capitalismo-2 e capitalismo-3 são ambos incompatíveis com princípios de livre mercado: capitalismo-2 por envolver interferência direta na liberdade de mercado, capitalismo-3 por depender de tal interferência — tanto passada quanto em andamento — e por opor-se frontalmente ao compromisso geral com a liberdade que subjaz ao apoio à liberdade de mercado em particular.

B. Capitalismo-2 Envolve Interferência Direta na Liberdade de Mercado

Capitalismo-2 é claramente incompatível com capitalismo-1, e bem assim com livre mercado. No capitalismo-2, os políticos interferem nos direitos pessoais de propriedade e nas trocas voluntárias de bens e serviços para enriquecerem-se e a seus eleitores, e as grandes empresas influenciam os políticos a fim de fomentar interferência nos direitos pessoais de propriedade e nas trocas voluntárias a fim de enriquecerem-se e a seus aliados.

C. Capitalismo-3 Depende de Interferência Passada e em Andamento na Liberdade de Mercado

Há três maneiras pelas quais capitalismo-3 pode ser entendido como incompatível com capitalismo-1, e bem assim com mercado desimpedido. A primeira depende de uma visão plausível, embora contestável, do funcionamento dos mercados. Chamemos essa visão de Mercados Solapam Privilégio – Markets Undermine Privilege (MUP). De acordo com a MUP, num mercado desimpedido, ausentes os tipos de privilégio de que gozam os (geralmente bem relacionados) beneficiários do poder estatal no capitalismo-2, a riqueza seria amplamente distribuída e empresas grandes e hierárquicas revelar-se-iam ineficientes e não sobreviveriam.

Tanto por a maioria das pessoas não gostar de trabalhar em ambientes de trabalho hierárquicos quanto por organizações mais horizontais, mais ágeis, serem muito mais viáveis do que as grandes e desajeitadas quando sem apoio do governo às grandes empresas, a maioria das pessoas, num livre mercado, trabalharia como empreiteira independente ou em parcerias ou cooperativas. Haveria muito menos grandes empresas, as que ainda existissem não seriam tão grandes quanto as mastodontes corporativas dos dias de hoje, e a riqueza societária estaria amplamente dispersa entre vasto número de pequenas firmas.

Outros tipos de privilégio para os politicamente bem relacionados que tendem a tornar e manter as pessoas pobres — pensemos no licenciamento ocupacional e nas leis de zoneamento, por exemplo — estariam ausentes de um livre mercado.[5] Portanto as pessoas comuns, até mesmo aquelas no sopé da escala econômica, mais provavelmente gozariam de nível de segurança econômica que tornar-lhes-ia possível optar pela não aceitação de emprego em ambientes de trabalho desagradáveis, inclusive em grandes empresas. E como uma sociedade livre não teria como característica um governo com o pretenso direito, menos ainda capacidade, de interferir nos direitos pessoais de propriedade e nas trocas voluntárias, aqueles que ocupam o topo da escala social no capitalismo-3 não teriam como manipular políticos para obter e manter riqueza e poder num livre mercado, e portanto a propriedade dos meios de produção não ficaria concentrada em poucas mãos.

Além da permanente interferência na liberdade de mercado, a MUP sugere que o capitalismo-3 não seria possível sem atos de injustiça praticados no passado em grande escala. E há extensa evidência de maciça interferência nos direitos de propriedade e liberdade de mercado, interferência que tem levado ao empobrecimento de enorme número de pessoas, na Inglaterra, nos Estados Unidos, e em outros lugares.[6] Os defensores do mercado desimpedido deveriam, pois, objetar ao capitalismo-3 pelo fato de os capitalistas só serem capazes de dominar em virtude de violações em larga escala, sancionadas pelo estado, de legítimos direitos de propriedade.

D. Apoio ao Capitalismo-3 é Incompatível com Apoio à Lógica Subjacente ao Apoio à Liberdade

Capitalismo-3 poderia ser entendido como incompatível com capitalismo-1 à luz da lógica subjacente ao apoio aos mercados desimpedidos. Sem dúvida algumas pessoas são a favor dos direitos pessoais de propriedade e das trocas voluntárias — capitalismo-1 — neles próprios, sem tentar integrar o apoio ao capitalismo-1 num entendimento mais amplo da vida humana e da interação social. Para outras, contudo, o apoio ao capitalismo-1 reflete um princípio subjacente de respeito à autonomia e à dignidade pessoais. Aqueles que têm essa visão — defensores do que chamarei de Liberdade Abrangente – Comprehensive Liberty (CL) — desejam ver as pessoas livres para se desenvolver e florescer como escolherem, de acordo com suas próprias preferências (desde que não agridam outras pessoas). Os proponentes da CL valorizam não apenas a liberdade de não sofrerem agressão como, também, liberdade de não sofrerem o tipo de pressão social que as pessoas podem exercer pelo fato de elas ou outras pessoas terem-se lançado à, ou beneficiado da, agressão, bem como a liberdade de não sofrerem pressão social não agressiva mas irrazoável — talvez mesquinha, arbitrária — que constranja as opções das pessoas e sua capacidade de delinear a própria vida como desejarem.

Valorizar diferentes tipos de liberdade enfaticamente não é o mesmo que aprovar os mesmos tipos de remédio para agressões a esses diferentes tipos de liberdade. Embora os defensores da CL, em sua maioria, não sejam pacifistas, eles não desejam ver as argumentações decididas na ponta do cano de armas de fogo; inequivocamente, opõem-se à violência agressiva. Assim, eles não acham que indignidades mesquinhas justifiquem reações violentas. Ao mesmo tempo, entretanto, reconhecem não fazer sentido ser a favor da liberdade como valor geral e, ao mesmo tempo, tratar agressões não violentas à liberdade das pessoas como triviais. (Portanto, são a favor de um espectro de reações não violentas a tais agressões, inclusive constrangimento público, listas negras, greve, protestos, negação de certificados voluntários, e boicotes.)[7]

A CL proporciona, pois, motivo adicional para oposição ao capitalismo-3. As pessoas comprometidas com CL, em sua maioria, consideram a MUP muito plausível e, portanto, inclinar-se-ão a pensar o capitalismo-3 como produto do capitalismo-2. Contudo, o entendimento da liberdade como valor multidimensional que pode ser sujeitado a agressões tanto violentas quanto não violentas proporciona bom motivo para oposição ao capitalismo-3 mesmo se — o que é altamente improvável — esse ocorresse de modo completamente isolado do capitalismo-2.

IV. Por Que os Defensores do Mercado Desimpedido Deveriam Chamar o Sistema ao Qual se Opõem de “Capitalismo”

Os proponentes dos mercados desimpedidos, e portanto do capitalismo-1, poderiam obviamente referir-se ao capitalismo-2, pelo menos, como “capitalismo de estado” ou “capitalismo corporativo” ou “corporatismo.” Todavia, “as palavras são entendidas conforme as outras palavras que trazem em sua companhia”;[8] portanto há bons motivos para os defensores dos livres mercados, especialmente aqueles comprometidos com a CL, identificarem aquilo a que se opõem simplesmente como “capitalismo.”

1. Para Enfatizar a Indesejabilidade Específica do Capitalismo-3.

Rótulos tais como “capitalismo de estado” e “corporatismo” captam o que há de errado no capitalismo-2, mas não refletem adequadamente o problema do capitalismo-3. Mesmo se, como parece plausível, o domínio pelos capitalistas requerer uma explicação política — uma explicação em termos do comportamento inadequado independente dos políticos e da manipulação dos políticos pelos líderes empresariais[9] — vale objetar a esse domínio das grandes empresas além de questionar a simbiose empresas-governo. Na medida em que aqueles que possuem e gerem as grandes empresas são amiúde rotulados de “capitalistas,” identificar o que a que os proponentes da liberdade se opõem como “capitalismo” ajuda a salientar adequadamente a crítica deles ao capitalismo-3.

2. Para Diferençar os Proponentes dos Livres Mercados dos Entusiastas Vulgares do Mercado.

A bandeira “capitalista” é amiúde agitada entusiasticamente por pessoas que parecem inclinadas a confundir apoio aos livres mercados com apoio ao capitalismo-2 e ao capitalismo-3 — ignorando talvez a realidade da natureza problemática de ambos, talvez até comemorando o capitalismo-3 como adequado, à luz do pretensamente admirável caráter dos titãs dos negócios. Opor-se ao “capitalismo” ajuda a assegurar que os defensores dos livres mercados não sejam confundidos com tais proponentes vulgares de liberdade-para-a-elite-no-poder.

3. Para Resgatar o “Socialismo” para os Radicais do Livre Mercado.

“Capitalismo” e “socialismo” são caracteristicamente vistos como formando um par antagônico. Contudo, foi precisamente o rótulo de “socialista” que um proponente radical dos livres mercados, Benjamin Tucker, se atribuía quando essas palavras eram apaixonadamente debatidas e definidas.[10] Tucker claramente não via conflito entre seu intenso compromisso com os livres mercados e sua filiação à Primeira Internacional. Isso porque ele entendia o socialismo como assunto dizendo respeito a libertar os trabalhadores da opressão de aristocratas e executivos de negócios, e ele — plausivelmente — acreditava que acabar com os privilégios conferidos às elites econômicas pelo estado seria o modo mais eficaz — e mais seguro — de atingir a meta libertadora do socialismo. Opor-se ao capitalismo ajuda a sublinhar o importante lugar de radicais como Tucker na linhagem do movimento contemporâneo da liberdade e proporcionar aos atuais defensores da liberdade uma lógica persuasiva para capturarem o rótulo socialista dos socialistas de estado. (Isso é especialmente apropriado porque os defensores da liberdade acreditam que a sociedade — pessoas conexas cooperando livre e voluntariamente — e não o estado deveria ser vista como a fonte das soluções para os problemas humanos. Portanto, eles podem ser razoavelmente ditos serem favoráveis ao socialismo não como um tipo de, e sim como uma alternativa a, o estatismo.[11] Adotar anticapitalismo sublinha o fato de os mercados desimpedidos oferecerem um modo de atingimento das metas socialistas — promovendo a outorga de poder aos trabalhadores e a ampla dispersão da propriedade e do controle dos meios de produção — mediante uso dos meios de mercado.

4. Para Expressar Solidariedade para com os Trabalhadores.

Se a MUP estiver correta, a capacidade das grandes empresas — do “capital” — para maximizar a satisfação de suas preferências mais plenamente do que os trabalhadores são capazes de maximizar a satisfação das suas é uma função da simbiose empresas-estado incompatível com os princípios do mercado desimpedido. E, como questão de apoio à CL, há amiúde motivo adicional para perfilar-se com os trabalhadores quando eles são intimidados, mesmo não agressivamente. Na medida em que os chefes aos quais os trabalhadores se opõem são amiúde chamados de “capitalistas,” de tal modo que “anticapitalismo” soa como rótulo bastante natural para a oposição deles a esses chefes, e na medida em que os mercados desimpedidos — em contraste com capitalismo-2 e capitalismo-3 — aumentariam dramaticamente as oportunidades para os trabalhadores simultaneamente delinearem os contornos de suas próprias vidas e experimentarem significativamente maiores prosperidade e segurança econômica, a adoção de “anticapitalismo” é o modo de sinalizar claramente solidariedade em relação aos trabalhadores.[12]

5. Para Identificar-se com as Legítimas Preocupações do Movimento Global Anticapitalista.

Professar “anticapitalismo” é também uma forma de identificar-se com as pessoas comuns do mundo que expressam sua oposição ao imperialismo, ao crescente poder das corporações multinacionais em suas vidas, e a sua própria crescente vulnerabilidade econômica mediante chamarem seu inimigo de “capitalismo.” Talvez algumas delas endossem descrições teóricas não rigorosas de suas circunstâncias de acordo com as quais seja realmente um sistema de mercado desimpedido — capitalismo-1 — o que deva ser entendido como estando por trás do a que elas se opõem. Para muitas delas, contudo, objetar ao “capitalismo” realmente não significa opor-se aos livres mercados; significa usar um rótulo conveniente oferecido por críticos sociais que estejam dispostos — diferentemente de defensores da liberdade que demasiado a miúdo têm-se lamentavelmente recusado a fazê-lo — a ficar ao lado delas no desafio às forças que parecem decididas a infelicitar suas vidas e a de outras pessoas. Os defensores da liberdade têm oportunidade de ouro de construir terreno comum com essas pessoas, concordando com elas quanto à injustiça de muitas das situações que elas enfrentam e, ao mesmo tempo, proporcionando explicação, baseada na liberdade, dessas situações, e soluções assentadas na liberdade para os problemas que elas envolvem.

V. Conclusão

Há trinta e cinco anos, o grande herói libertário Karl Hess escreveu: “Perdi minha fé no capitalismo” e “Resisto a este estado-nação capitalista,” observando haver “apostatado da religião do capitalismo.”[13] Distinguir três sentidos de “capitalismo” — a ordem do mercado, a parceria empresas-governo, e o domínio dos capitalistas — ajuda a esclarecer por que alguém, como Hess, podia coerentemente estar comprometido com a liberdade e ao mesmo tempo expressar apaixonada oposição a algo chamado “capitalismo.” Faz sentido os defensores do mercado desimpedido oporem-se tanto à interferência na liberdade do mercado por parte de políticos e líderes empresariais quanto ao domínio social (agressivo ou não) dos líderes empresariais. E faz sentido para eles chamarem aquilo a que se opõem de “capitalismo.” Fazê-lo chama a atenção para as raízes radicais do movimento da liberdade, enfatiza o valor de entender-se a sociedade como uma alternativa ao estado, sublinha o fato de os proponentes da liberdade objetarem a restrições à liberdade tanto agressivas quanto não agressivas, assegura que os defensores da liberdade não sejam confundidos com pessoas que usam a retórica do mercado para escorar um statu quo injusto, e expressa solidariedade entre os defensores dos livres mercados e os trabalhadores — bem como em relação às pessoas comuns do mundo todo que usam “capitalismo” como rótulo sucinto para o sistema mundial que constrange sua liberdade e atrofia suas vidas. Os defensores do mercado desimpedido deveriam adotar “anticapitalismo” para expressar de modo sucinto e ressaltar seu compromisso pleno com a liberdade e sua rejeição de alternativas falsas que usam o discurso acerca de liberdade para ocultar aquiescência a exclusão, subordinação e privação.

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[1]For “freed markets,” see William Gillis, “(The Freed Market),” Human Iterations (n.p., July 31, 2007) «http://williamgillis.blogspot.com/2007/07/freed-market-one-of-tactics-ive-taken.html» (Jan. 2, 2010); for “free market anti-capitalism,” see Kevin A. Carson, Mutualist Blog: Free Market Anti-Capitalism (n.p.) «http://mutualist .blogspot.com» (Dec. 31, 2009).

[2] Cp. Charles Johnson, “Anarquistas por La Causa,” Rad Geek People’s Daily (n.p., March 31, 2005) «http:// radgeek.com/gt/2005/03/31/anarquistas_por/» (Dec. 31, 2009); Roderick T. Long, “POOT MOP Redux,” Aus tro-Athenian Empire (n.p., June 22, 2009) «http://aaeblog.com/2009/06/22/pootmop-redux/» (Dec. 31, 2009); Fred Foldvary, “When Will Michael Moore Nail Land Speculators?,” The Progress Report (n.p., Oct. 19, 2009) «http:// www.progress.org/2009/fold635.htm» (Jan. 18, 2010). “Capitalism” in Johnson’s third sense refers to “boss-directed labor,” while Long’s parallel expression, “capitalism-2,” de notes “control of the means of production by someone other than the workers — i.e., by capitalist owners.” Foldvary’s final proposal is “exploitation of labor by the big owners of capital.” I am inclined to think that many of those who em ploy the pejorative sense of “capitalism” intend it to encompass the dominance by bosses of all social in stitutions, and not just workplaces, though they doubtless see societal dominance and workplace dominance as connected. At any rate, supposing that they do may provide a slender justification for dis tinguishing my typology from the ones offered by Johnson, Long, and Foldvary.

[3]While capitalism-2 obtains whenever business and the state are in bed together, under capitalism-3 business is clearly on top.

[4]It is unclear when “capitalism” was first employed (the Oxford English Dictionary identifies William Make peace Thackeray as the earliest user of the term: see The Newcomes: Memoirs of a Most Respectable Family, 2 vols. [London: Bradbury 1854–5] 2:75). By contrast, “capitalist” as a pejorative has an older history, appearing at least as early as 1792, and figuring repeatedly in the work of the free-market socialist Thomas Hodgskin: see, e.g., Popular Political Economy: Four Lectures Delivered at the London Mechanics Institution (London: Tait 1827) 5, 51-2, 120, 121, 126, 138, 171 (“greedy capitalists”!), 238-40, 243, 245-9, 253-7, 265; The Natural and Artificial Right of Property Contrasted: A Series of Letters, Addressed without Permission to H. Brougham, Esq. M.P. F.R.S. (London: Steil 1832) 15, 44, 53, 54, 67, 87, 97-101, 134-5, 150, 155, 180. The pejorative use occurs nearly eighty times throughout the thirty-odd pages of Hodgskin’s Labour Defended against the Claims of Capital, or, The Unproductiveness of Capital Proved (London: Knight 1825).

[5]For a devastating critique of rules — often supported by politicians beholden to wealthy and well connected people who expect to benefit from them — that systematically make and keep people poor, see Charles Johnson, “Scratching By: How Government Creates Poverty As We Know It,” The Freeman: Ideas on Liberty 57.10 (Dec. 2007): 33-8 (Foundation for Economic Education) «http://www.thefreemanonline.org/featured/scratching-by-how-government-creates-poverty-as-we-know-it/» (Jan. 2, 2010).

[6]Cp. Albert Jay Nock, Our Enemy the State (New York: Morrow 1935); Kevin A. Carson, “The Subsidy of History,” The Freeman: Ideas on Liberty 58.5 (June 2008): 33-8 (Foundation for Economic Education) «http:// www.thefreemanonline.org/featured/the-subsidy-of-history/» (Dec. 31, 2009); Joseph Stromberg, “The American Land Question,” The Freeman: Ideas on Liberty 59.6 (July-Aug. 2009): 33-8 (Foundation for Economic Education) «http://www.thefreemanonline.org/featured/the-american-land-question/» (Dec. 31, 2009).

[7]Cp. Charles Johnson, “Libertarianism through Thick and Thin,” Rad Geek People’s Daily (n.p., Oct. 3, 2008) «http://radgeek.com/gt/2008/10/03/libertarianism_through/» (Dec. 31, 2009); Kerry Howley, “We’re All Cultural Libertarians,” Reason (Reason Foundation, Nov. 2009) «http://reason.com/archives/2009/10/20/are-property-rights-enough» (Dec. 31, 2009).

[8]I became acquainted with this phrase thanks to Nicholas Lash, Believing Three Ways in One God: A Reading of the Apostles’ Creed (Notre Dame, IN: U of Notre Dame P 1992); see, e.g., 12. But it appears, I have subsequently discovered, to have a legal provenance and to be a rough translation of the Latin phrase noscitur a sociis.

[9]See, e.g., Kevin A. Carson, “Another Free-for-All: Libertarian Class Analysis, Organized Labor, Etc.,” Mutualist Blog: Free-Market Anti-Capitalism (n.p., Jan 26, 2006) «http://mutualist.blogspot.com/2006/01/another-free-for-all-libertarian-class.html» (Jan. 18, 2010); Sheldon Richman, “Class Struggle Rightly Conceived,” The Goal Is Freedom (Foundation for Economic Education, July 13, 2007) «http://fee.org/articles/in-brief/the-goal-is-freedom-class-struggle-rightly-conceived/» (Jan. 18, 2010); Roderick T. Long, “Toward a Libertarian Theory of Class,” Social Philosophy and Policy 15.2 (Sum. 1998): 303-49; Wally Conger, Agorist Class Theory: A Left Libertarian Approach to Class Conflict Analysis (n.p., n.d.) (Agorism.info, n.d.) «www.agorism.info/AgoristClassTheory.pdf» (Jan. 18, 2010).

[10]See Benjamin R. Tucker, “State Socialism and Anarchism: How Far They Agree and Wherein They Differ,” Instead of a Book: By a Man Too Busy to Write One (New York: Tucker 1897) (Fair-Use.Org, n.d.) «http:// fair-use.org/benjamin-tucker/instead-of-a-book/» (Dec. 31, 2009). Cp. Kevin A. Carson, “Socialist Def in i tional Free-for-All: Part II,” Mutualist Blog: Free Market Anti-Capitalism (n.p., Dec. 8, 2005) «http://mutualist.blogspot .com/2005/12/socialist-definitional-free-for-all_08.html» (Dec. 31, 2009); Brad Spangler, “Re-Stating the Point: Rothbardian Socialism,” BradSpangler.Com (n.p., Oct. 10, 2009) «http://bradspangler.com/blog/archives/1458» (Dec. 31, 2009); Gary Chartier, Socialist Ends, Market Means: 5 Essays (Tulsa, OK: Tulsa Alliance of the Libertarian Left 2009) (Center for a Stateless Society, Aug. 31, 2009) «http://c4ss.org/wp-content/uploads/2009/08/ Garychartier_forprint_binding .pdf» (Dec. 31, 2009).

[11]Thanks to Sheldon Richman for helping me to see this point.

[12]Cp. Sheldon Richman, “Workers of the World Unite for a Free Market,” The Freeman: Ideas on Liberty (Foundation for Economic Education, Dec. 18, 2009) «http://www.thefreemanonline.org/tgif/workers-of-the-world-unite/» (Dec. 31, 2009).

[13]Karl Hess, Dear America (New York: Morrow 1975) 3, 5. Even more bluntly, Hess writes: “What I have learned about corporate capitalism, roughly, is that it is an act of theft, by and large, through which a very few live very high off the work, invention, and creativity of very many others. It is the Grand Larceny of our particular time in history, the Grand Larceny in which a future of freedom which could have followed the collapse of feudalism was stolen from under our noses by a new bunch of bosses doing the same old things” (1).

O Escritor Colaborador do C4SS Gary Chartier é Professor Associado de Direito e Ética de Negócios e Reitor Associado da Escola de Administração de Empresas da La Sierra University. É autor de Justiça Econômica e Lei NaturalEconomic Justice and Natural Law (Cambridge University Press 2009), A Analogia do AmorThe Analogy of Love (Imprint Academic 20007), e, no prelo, A Consciência de Um Anarquista – The Conscience of an Anarchist, bem como de artigos em publicações incluindo Periódico de Estudos Jurídicos de OxfordOxford Journal of Legal StudiesTeoria JurídicaLegal Theory, Estudos ReligiousReligious Studies, e o Periódico de Filosofia SocialJournal of Social Philosophy. Ele tem doutoramenteo pela Universidade de Cambridge e Juris Doctor pela Universidade da Califórnia em Los Angeles.

Alimentem Pessoas, Não Políticos

janeiro 27th, 2010

http://c4ss.org/content/1797

Postado por Darian Worden em 26 de janeiro de 2010 em Commentary

Andre Bauer, Governador Adjunto da Carolina do Sul e candidato a governador, fez uma menção que deveria terminar no rol de citações famosas de políticos.

Ao falar acerca de o governo oferecer merenda escolar, disse: “Minha avó não era mulher altamente instruída mas, quando eu era pequenino, disse-me para não dar comida a animais desgarrados. Sabem por quê? Porque eles procriam. Você estará facilitando o problema se der a um animal ou a uma pessoa amplo suprimento de comida. Eles se reproduzirão, especialmente aqueles que não pensam muito mais do que naquilo. Então, o que você tem de fazer é desestimular esse tipo de comportamento. Eles não tomarão a iniciativa de fazê-lo.”

Bauer depois sugeriu o estímulo ao desempenho estudantil mediante dizer-se às pessoas “Vejam, se vocês receberem bens ou serviços do governo, passarão a ter de dar algo em retorno.”

Se você precisar recorrer à descrição de seres humanos como se eles fossem outros tipos de animais, estará provavelmente ocultando o fato de que sua argumentação não tem substância e terá na melhor das hipóteses relação tangencial com a realidade. Tenho sido conhecido por referir-me a certos indivíduos como porcos, mas não tento dizer às pessoas que elas na realidade pensam do mesmo modo que animais da fazenda.

A pobreza, tal como a conhecemos, é robustecida pela autoridade. O estado claramente funciona para apoiar aqueles que venham a compartilhar influência com ele. Visto que os pobres têm pouca influência nos círculos de formulação de políticas além da exercida por defensores profissionais, eles são geralmente vistos como peões ou descartes que, se quiserem ter alguma colher de chá(*), alistar-se-ão na instituição militar.

(*) free lunch – Literalmente, almoço grátis, refeição grátis. Essa expressão refere-se a uma tradição outrora comum em tabernas (saloons) nos Estados Unidos. Esses estabelecimentos ofereciam almoços ‘grátis,’ variando de bastante rudimentares a consideravelmente sofisticados, desde que o beneficiado consumisse pelo menos uma bebida. O almoço oferecido normalmente era mais caro do que uma única bebida, mas o dono da taberna apostava na probabilidade de o cliente acabar bebendo dois ou mais drinques e na probabilidade de essa prática compensar a falta de consumo em outras horas do dia. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Free_lunch

Como anarquista, sou decididamente contra todos os programas do estado. A raiz do problema, porém, não está em algumas pessoas serem obrigadas a pagar a refeição de outras. A raiz do problema é que a autoridade arruína a oportunidade econômica, vira de cabeça para baixo a competição entre fornecedores, e diz às fileiras inferiores para obedecer ou pagar, enquanto inventa para elas novas exigências a serem por elas satisfeitas. A raiz do problema é que os autoritários vêem as outras pessoas como meios para a realização de seus desejos de comando.

Toda vez que um político como Bauer ganha fama com novos projetos do governo, o visível é o glamour e glória da obra ou da moralização. O que se procura ocultar é os indivíduos empurrados para as margens da economia, ao seus bairros serem destruídos e seus meios de vida serem subtraídos.

Quando o governo assume maior controle de que modelos de negócios são permitidos e de que escolhas são aceitáveis, constrói barreiras mais altas para entrada no mercado. O governo protege corporações que roubarão qualquer coisa de qualquer pessoa se entender que isso aumentará seus lucros por mais tênue seja a margem. Em seguida o governo pune aqueles que, depois de serem apanhados contornando as barreiras a entrada no mercado, não têm condições de contratar os melhores advogados.

A ação direta, efetuando mudanças sem ser autorizado ou sem observar os canais estabelecidos, é o modo de pensar na solução. Não é meu papel decidir que riscos outras pessoas deverão correr, e sim pensar em quem a autoridade protege e serve. Praticamente todas as pessoas podem praticar algum tipo de ação direta para melhorar o mundo. O tipo de construção de comunidade fomentado pela ajuda mútua (compartilhamento de recursos físicos, trabalho e conhecimento para benefício mútuo) poderá melhorar a vida de grande número de pessoas. Também o fará o expressar, pelo menos privadamente, solidariedade em relação àqueles apanhados ao tentarem subverter o establishment e assumir o controle de suas próprias vidas.

Toda vez que as necessidades de uma pessoa são supridas a partir de fora do sistema é rompida uma barreira conducente à destruição do sistema. A criação de organizações antiautoritárias ajudará as pessoas a se tornarem mais autônomas. Poderá também tornar o mundo mais participativo e mais responsivo aos desejos de mais indivíduos.

As observações de Bauer a respeito de seres humanos desgarrados traem uma atitude que os políticos geralmente insinuam jeitosamente: a de o valor de um indivíduo consistir em sua capacidade de satisfazer às demandas da autoridade. Para os anarquistas, cada indivíduo existe para seu próprio benefício, e a liberdade de cada indivíduo só precisará ser restringida se o indivíduo infringir a igual liberdade de outra pessoa. Os anarquistas substituem exigências autoritárias por respeito por indivíduos não invasivos e pela compreensão de que um mundo melhor só poderá existir se o construirmos.

Darian Worden é escritor anarquista individualista com experiência em ativismo libertário. Sua ficção inclui Traga uma Arma de Fogo para o Dia de Aula Bring a Gun To School Day e, a ser publicado, Guerra Comercial Trade War. Seus ensaios e outras obras podem ser vistos em seu website pessoal his personal website. Ele também tem um programa de rádio na internet, Pensar a Liberdade, em PatriotRadio.com.

janeiro 10th, 2010

http://c4ss.org/content/1659

O Anarquismo Agostiniano de Chomsky

Postado por Roderick Long em 7 de janeiro de 2010 em Feature Articles

[ed: O ensaio a seguir, pelo Presidente do Instituto Molinari Dr. Roderick Long foi originalmente publicado num blog hoje extinto, A Arte do Possível.]

Noam Chomsky é talvez o anarquista mais conhecido dos Estados Unidos. Há nisso, porém, certa ironia: pois, do mesmo modo que Santo Agostinho certa vez orou prayed “Concede-me castidade e continência, mas não ainda,” o objetivo de Chomsky é na verdade a anarquia, mas não ainda.

O motivo de Chomsky para o “não ainda” é um poderoso governo central ser atualmente necessário como baluarte contra o poder da elite corporativa; assim, pois, não será seguro extingir e nem mesmo reduzir o estado antes de primeiro usarmos o estado para acabar com o poder da elite corporativa:

“No longo prazo, acredito que o poder político centralizado deveria ser eliminado e dissolvido e em última análise decrescido para nível local, com federalismo e associações e assim por diante. Por outro lado, por ora, eu gostaria de fortalecer o governo federal. O motivo é, vivemos neste mundo, não em algum outro mundo. E neste mundo há enormes concentrações de poder privado tão próximas da tirania e do totalitarismo quando qualquer coisa que os seres humanos já tenham concebido.

Há apenas um modo de defender direitos já conseguidos, ou de expandir sua abrangência em face desses poderes privados, e é manter a única forma de poder ilegítimo de alguma maneira responsável diante do público e que o público, na verdade, pode influenciar.” — Você Diz que Deseja uma Devolução — You Say You Want a Devolution

Ora bem, a noção de Chomsky do estado como baluarte crucial contra “concentrações de poder privado” poderá inicialmente parecer de difícil compreensão, dado que – como a própria pesquisa de Chomsky já confirmou repetidamene – o estado tem sido historicamente o principal possibilitador de tais concentrações. O que, contudo, Chomsky parece querer dizer não é tanto o estado agir hoje como baluarte, e sim poder vir a ser tornado tal baluarte; quando a gente está diante de um opositor muito mais forte (o poder privado), melhor fará em agarrar a espada e em usá-la contra ele do que simplesmente em destruir a espada.

“O governo está longe de ser benévolo – isso é verdade. Por outro lado, ele é pelo menos parcialmente passível de ser levado a prestar contas, e poderá ser tornado tão benévolo quanto o tornemos.

O que não é benévolo (o que é, na verdade, extremamente nocivo) é algo que você não mencionou – o poder das empresas, o qual é altamente concentrado e, hoje, altamente transnacional. O poder das empresas está muito longe de ser benévolo e é completamente não passível de prestação de contas. É um sistema totalitário com enorme efeito em nossas vidas. É também o principal motivo de o governo não ser benévolo.” — Do Controle de Armas de Fogo  — On Gun Control

Há aqui duas assunções das quais desejo discordar.

Primeiro, Chomsky assume que a influência das empresas privadas sobre o governo é “o principal motivo do governo não ser benévolo.” Por que cargas d’água ele acredita isso? O poder monopolista tende a convidar ao abuso, estejam aqueles que dirigem esse poder principalmente dentro ou principalmente fora do aparato do estado. Se Chomsky acha que o governo poderia ser de tal modo inofensivo sem perversos capitalistas puxando os cordões, por que deseja ele aboli-lo, mesmo no longo prazo?

Segundo, Chomsky assume que o poder do estado é “parcialmente passível de prestar contas,” enquanto o poder das empresas é “completamente não passível de prestar contas.” Ora, para começo de conversa, não está claro para mim se a prestação de contas do poder do estado está aqui sendo contrastada com o poder das empresas efetivamente existente, tornado possível pelo estado ou, pelo contrário, com a prestação de contas do poder das empresas como seria sem o apoio governamental. Se, porém, é o primeiro, então o contraste, mesmo se correto, não proporcionaria base para resistir-se à extinção do estado; o fato de  X + Y ser mais perigoso do que X em si próprio não é bom motivo para defender X. O contraste é relevante para uma defesa do estado só se as empresas, sem apoio do estado, ainda fossem menos passíveis de prestar contas do que o estado. E aqui parece óbvio que o estado – mesmo um estado democrático – é muito menos passível de prestação de contas do que empresas genuinamente privadas.

Afinal de contas, uma empresa pode só pode apropriar-se do trabalho e/ou do patrimônio das pessoas caso estas concordem em entregá-los, enquanto o governo pode tomá-los pela força. Obviamente podemos tentar, pelo voto, tirar nossos atuais representantes do cargo, mas apenas em intervalos de múltiplos anos, e apenas se convencermos 51 % de nossos vizinhos a fazer a mesma coisa; enquanto que poderemos terminar nosso relacionamento com uma empresa em qualquer tempo, e sem obter outras pessoas que façam o mesmo. Ademais, cada candidato oferece um pacote fechado de políticas, enquanto, na empresa privada, podemos escolher, digamos, as verduras da Mercearia A e as carnes da Mercearia B.

David Friedman deixa claro o contraste:

“Quando um consumidor compra um produto no mercado, pode comparar marcas alternativas. … Quando elegemos um político, compramos apenas promessas. … Podemos comparar Fords, Chryslers e Volkswagens 1968, mas ninguém será jamais capaz de comaprar a administração Nixon de 1968 com as administrações Humphrey e Wallace do mesmo ano. É como se tivéssemos apenas Fords de 1920 a 1928, Chryslers de 1928 a 1936, e então tivéssemos que decidir que firma fará o melhor carro para os próximos quatro anos….

Não apenas o consumidor tem melhor informação do que o eleitor, como também ela é de maior uso para ele. Se eu investigar marcas alternativas de carros … decidir qual é a melhor para mim e comprá-la, obtenho-a. Se eu investigar políticos alternativos e votar acordemente, obtenho aquilo no que a maioria votar. …

Imaginemos comprar carros do modo como compramos governos. Dez mil pessoas ajuntar-se-ão e concordarão em votar, cada uma no carro que prefira. Qualquer seja o carro vencedor, cada uma das dez mil terá de comprá-lo. Não valerá a pena para ninguém fazer qualquer esforço sério para descobrir qual o melhor carro; o que quer que eu decida, meu carro estará sendo escolhido para mim pelos outros membros do grupo. … É assim que sou obrigado a comprar produtos no mercado político. Não apenas não posso comparar os produtos alternativos, como não valeria a pena, para mim, fazer isso mesmo que eu pudesse.” — O Mecanismo da Liberdade — The Machinery of Freedom

A “prestação de contas” fornecida pelo governo democrático parece risível em comparação com a prestação de contas oferecida pelo mercado. A principal função do voto, parece, é tornar a população mais dócil mediante convencê-la de estar, de alguma forma, no controle.

Nada disso deveria ser novo para Chomsky, o qual, afinal de contas, já destacou ele próprio:

“No presente estado de coisas, o processo eleitoral é só questão de a população ter permissão para escolher, de vez em quando, entre representantes praticamente idênticos do poder empresarial. Isso é melhor do que ter um ditador, mas é uma forma muito limitada de democracia. A maior parte da população entende isso e nem sequer participa. … E naturalmente as eleições são quase completamente compradas. Nas últimas eleições para o Congresso, 95 por cento dos vitoriosos na eleição gastaram mais do que seus opositores, e as campanhas foram esmagadoramente financiadas pelas corporações.” — A Outra Revolução de Chomsky — Chomsky’s Other Revolution

Bem, sim, exatamente. Então qual é a base da fé de Chomsky no estado democrático?

Chomsky poderia objetar que minha defesa da prestação de contas pelo mercado ignora o fato de tal “prestação de contas” envolver votar usando dólares, de tal modo que os ricos têm mais votos do que os pobres – enquanto num estado democrático todo mundo tem voto igual. Contudo, mesmo se deixarmos de lado a dependência causal das disparidades existentes de renda na intervenção sistemática do estado – bem como o fato de o governo, ao controlar a direção dos recursos não de sua propriedade, potencializar o poder dos ricos magnifies the power of the wealthy – ainda assim permanece sendo verdade que, por menos dólares que uma pessoa tenha, quando vota com esses dólares recebe alguma coisa em troca, enquanto quando alguém vota com votos não recebe em troca nada do que buscava, a menos que ocorra de votar com a maioria. O que é menos democrático – um sistema no qual a eficácia do voto de alguém varia na proporção dos recursos da pessoa, ou um no qual 49% da população não tem voto absolutamente nenhum?

Chomsky dificilmente será desconhecedor de o que chama de “poder empresarial” depender crucialmente da intervenção do governo – visto tanto ter feito para documentar esse relacionamento. Como observa ele:

“Qualquer forma de poder concentrado, qualquer seja ele, não desejará ficar sujeito a controle democrático ou, aliás, à disciplina do mercado. Setores poderosos, inclusive as corporações, opõem-se naturalmente ao funcionamento da democracia, do mesmo modo que se opõem ao funcionamento dos mercados, no tocante a eles próprios, pelo menos.” — Reflexões Acerca da Democracia — Reflections on Democracy (ênfases acrescentadas)

Ora, portanto, se a elite corporativa está de tal modo aterrorizada com o livre mercado, por que Chomsky se mostra tão relutante em arrastá-la para ele?

Talvez o ponto de vista de Chomsky seja o de, embora o governo seja necessário para criar essas concentrações de poder privado, não é necessário para mantê-las e, portanto, suprimir o estado a esta altura do jogo deixaria o poder empresarial intacto. Não é um ponto de vista insensato, mas carece de argumentação. Afinal de contas, a intervenção sistemática do governo em favor das grandes empresas não é algo que simplesmente aconteceu na Era Dourada ou na Era Progressista ou no Novo Pacto; continua, maciça e crescentemente. Eu não afirmaria (na verdade, tenho negado denied) que o poder privado depende única e exclusivamente do apoio do estado; é, porém, difícil acreditar que o apoio do estado seja simplesmente supérfluo, como terá de ser se a remoção de tal apoio do estado não debilitar apreciavelmente o poder das empresas.

Chomsky disse (em Resposta a Oito Perguntas Acerca do Anarquismo Answers to Eight Questions on Anarchism) que, embora ele esteja “substancialmente de acordo com pessoas que se consideram anarcocapitalistas em todo um espectro de questões,” e também “admire o compromisso dessas pessoas com a racionalidade,” vê todavia a versão do livre comércio segundo o anarquismo como “um sistema doutrinário que, se um dia implementado, levaria a formas de tirania e opressão com poucas contrapartes na hisória humana.” Por quê? Porque “a ideia de ‘livre contrato’ entre o potentado e seu súdito esfaimado é uma piada de mau gosto.”

Essa argumentação, todavia, é flagrantemente circular. Chomsky está assumindo o próprio ponto em disputa – isto é, que, sem intervenção do governo em favor dos ricos, a economia seria dividida em “potentados” e “súditos esfaimados.” Ora bem, é verdade que os própiros anarquistas de mercado (por motivos explicados em outro lugar elsewhere, prefiro evitar a expressão “anarcocapitalista”) por vezes – equivocadamente, em meu modo de entender – descreveram essa economia ideal como muito parecida com os papéis da distribuição de riqueza e do trabalho em nossa economia presente, menos o estado. Por que, entretanto, Chomsky acredita neles? Se o estado realmente está intervindo maciça e sistematicamente em favor do “potentado” e contra o “súdito esfaimado” – como Chomsky tem de admitir que está, visto que a pesquisa dele explicitamente põe à mostra exatamente isso – por que cargas d’água espera ele esse desequilíbrio de poder permanecer sem modificação uma vez essa intervenção cesse?

Não apenas subestima Chomsky os recursos da anarquia como, também, parece superestimar a utilidade do estado. Ele escreve como se, embora o estado esteja fazendo muita coisa ruim hoje, tudo isso pudesse ser mudado se mais pessoas votassem corretamente. Ora, é bem verdade que pessoas votando diferentemente podem fazer diferença no tocante a o quanto o governo seja ruim. (Se alemães em número suficiente tivessem votado de modo diferente em 1932, poderiam ter tido um regime menos pavoroso.) Ainda assim, no frigir dos ovos, o que há de errado com um monopólio não é o fato de pessoas erradas estarem administrando-o, e sim – deixando-se de lado sua injustiça intrínseca – tal monopólio trazer consigo perversidades em termos de incentivos e informação impossíveis de evitar (exceto pela remoção da fonte do problema, o monopólio, e aí o que se terá não mais será um estado).

Política para Antipolíticos

janeiro 4th, 2010

http://c4ss.org/content/1607

Postado por Thomas L. Knapp em 30 de dezembro de 2009 em Commentary

Você já ouviu isto antes, estou certo:

“Se você não votar, depois não poderá reclamar.”

“Não votar significa um voto para o vencedor e para as políticas do vencedor. Se você não gosta dele e delas, deverá ter votado no outro candidato.”

Essas pequenas porções de sabedoria convencional estão baseadas na asserção — por vezes explícita, por vezes apenas implícita — de que não votar é o mesmo que consentir com as escolhas feitas por aqueles que votam. Essa mesma sabedoria convencional geralmente atribui a decisão de não votar a “apatia.”

Não tentarei dizer a você se deverá ou não votar. Há suficiente discordância razoável a respeito, dentro do movimento por uma sociedade sem estado. Se vocês estiverem interessados nos argumentos, sugiro lerem, de uma parte, “Uma Pequena Introdução ao Não Votar”  “A Short Introduction to Non-Voting” de Carl Watner e, de outra, “O Problema do Partido Libertário” “The Problem of the Libertarian Party” de Murray N. Rothbard, que constitui o capítulo quatro de seu ensaio “Konkin, Acerca da Estratégia Libertária” “Konkin on Libertarian Strategy.”

Votar ou não é uma decisão pessoal. Se você, porém, decidir não votar, eu gostaria de sugerir que torne tal decisão mais significativa mediante transformá-la em pedaço de matéria fecal antipolítica dentro da tigela de ponche político. Ou, para fazer-me mais claro, você deveria fazer todo esforço possível para tornar seu não-voto interpretado como pretende seja ele interpretado, em vez de simplesmente permitir ficar inconteste a assertiva da sabedoria convencional de “consentimento tácito.”

A sabedoria convencional diz que não votar em ninguém é “votar no vencedor.”

A sabedoria convencional diz que se alguém não votar, será provavelmente porque não se importa.

Defenda sua própria posição!

Declare clara e publicamente que sua decisão de não votar, se tiver de ser considerada como representando um voto, deverá ser vista como um voto em NINGUÉM. E, ademais, insista em que esse voto em ninguém deva ser … contado!

Você não é apático. Apenas não gosta de nenhum dos candidatos. Você não acredita que qualquer deles possa representar você, ou deva ser visto como fazendo-o. Você não consente em ser governado ou representado, pelo menos não por qualquer das pessoas candidatas à função de governar ou representar você.

Em qualquer eleição dada, esses votos em NINGUÉM — votos não colocados na urna por eleitores registrados, não colocados na urna por aqueles qualificados para votar que tenham optado por não se registrar, e não colocados na urna por aqueles proibidos de votar pelas lei eleitorais — geralmente constituiriam, se contados, pelo menos uma pluralidade e usualmente a maioria de todos os votos.

Seus pretensos representantes, naturalmente, de caso pensado espertamente ignorarão você, e irão em frente com seu papel de fingir representar você, se puderem safar-se ao fazer isso.

Se você não permitir que eles se safem — se você e outros não-eleitores fizerem algum alarido real deixando claro que aqueles sujeitos não são “seus representantes” de acordo com qualquer definição razoável — poderá ser divertido. Já ouviram o ganido do cão ladrão de ovos quando o fazendeiro o surpreende perto do galinheiro e descarrega no traseiro dele cartuchos cheios de sal grosso? É muito parecido com o som que um político emite quando forçado a contender com a afirmação de que seus “serviços” não são nem necessários nem desejados. Pessoalmente, acho esse som particularmente mavioso.

Se você não votará, declare publicamente antes de cada eleição principal que não votará. Escreva uma carta para o editor. Telefone para um programa interativo de rádio. Comente no web site de seu jornal local abaixo de um artigo acerca da próxima eleição.

Depois da eleição, prossiga do mesmo modo: “Das 400.000 pessoas residentes neste distrito, mais de 300.000 não votaram no candidato X. Mais de 200.000 votaram em NINGUÉM. O candidato ‘vencedor’ recebeu apoio de menos de 25% de seus alegados eleitores em potencial. Se isto é realmente uma democracia, não deveria aquele assento ficar vazio durante o mandato? Essa é a vontade não ambiguamente declarada da maioria, afinal de contas.”

Não, você não “vencerá” uma eleição dessa maneira — o sistema está estruturado para impedir isso a todo custo — mas não é esse o ponto. Se você se abstiver de votar como expressão de sua rejeição de tal sistema, o próximo passo será usar essa expressão como uma ferramenta de exacerbação. Erga sua voz a fim de outros como você poderem ouvi-la e agregar-se!

O Analista de Notícias do C4SS Thomas L. Knapp é ativista libertário de longa data e autor da Escrita do Artigo Opinativo Libertário Writing the Libertarian Op-Ed, livrinho eletrônico o qual partilha os métodos subjacentes a seus mais de 100 artigos publicados na mídia majoritária impressa. Knapp publica o Sumário de Notícias da Revista Racional Rational Review News Digest, um apanhado diário de notícias e comentários para o movimento da liberdade.

Libertários pela Ciência Reles

dezembro 26th, 2009

http://c4ss.org/content/1568

Postado por Kevin Carson em 22 de dezembro de 2009 em Commentary

Recentemente a comunidade de ciência do clima sofreu uma espécie de constrangimento com o “Climagate”: os servidores da Unidade de Pesquisa Climática foram hackeados, sendo abertos milhares de emails cobrindo um período de escrutínio de mais de treze anos. Alguns desses emails, se não solapando a validade de toda a pesquisa de aquecimento global, pelo menos mostram alguns cientistas do clima à nada lisonjeira luz de deturpar dados para promover um resultado politicamente predeterminado.

Os defensores do aquecimento global, contudo, não têm o monopólio do abuso político da ciência.

Engraçado como os mesmos libertários que euforicamente arremetem contra a “ciência reles” quando ela serve a uma agenda que eles vêem como hostil são tão ciosos dela quando ela confirma seus próprios preconceitos.

Bom exemplo é a alegada responsabilidade de Rachel Carson por milhões de mortes de malária, como resultado do papel dela na proibição do DDT. A revista neconservadora FontPage acusou-a de “genocídio ecológico,” e um personagem de uma obra de ficção de Michael Crichton foi a ponto de dizer que ela matou mais gente do que Hitler. O website CienciaReles.Com – JunkScience.Com (!) tem inclusive um relógio de contagem de mortes por malária com o rosto de Rachel Carson.

Infelizmente, trata-se de uma dessas coisas que todo mundo sabe não ser assim. Eis aqui algumas das falhas da versão recebida da história:

1)  Todas as diversas proibições nacionals do DDT deixaram alguma falha na erradicação de mosquitos quando outros meios disponíveis eram inferiores ao DDT. O uso controlado de DDT para erradicação de mosquitos é inteiramente legal.

2)  O DDT, nos anos 1960, já estava perdendo sua eficácia na erradicação de mosquitos porque os mosquitos estavam-se tornando resistentes a ele.

3)  O DDT apresentava numerosos efeitos colaterais que superavam sua eficácia limitada como pesticida. Mais importante, e como a maioria dos pesticidas sintéticos, ele também envenenava a cadeia alimentar acima dos mosquitos. Isso significava, entre outras coisas, que matava os inimigos naturais dos mosquitos, e assim tornava-se necessária quantidade cada vez maior de DDT para obterem-se os mesmos resultados anteriores. Nesse processo, também causava significativos danos colaterais. Por exemplo, matando as vespas parasitárias que anteriormente contribuíam para manter reduzida a população de lagartas comedoras de palha, o DDT indiretamente causou uma epidemia de colapso de telhados. Outro exemplo: envenenava lagartixas que comiam os mosquitos e que, por sua vez, envenenavam os gatos que comiam as lagartixas, daí resultando uma epidemia de ratos.

A lorota pode ser rastreada retrospectivamente pelo menos a uma campanha de Roger Bate, economista de direita que trabalhou para diversos institudos de pesquisa interdisciplinar. Ele pessoalmente conduziu diversas iniciativas de financiamento no mundo corporativo, vendendo sua campanha de propaganda como um estilete enfiado entre as costelas do movimento ambientalista. “O movimento ambientalista,” disse ele, “tem sido bem-sucedido na maioria de suas campanhas na medida em que tem sido ‘politicamente correto.’” O DDT oferecia o potencial de usar as vantagens anteriores do movimento ambientalista contra ele, exultava ele: “a mescla correta de correção política (. . . negros oprimidos) e argumentos (o ecoimperialismo [está] solapando o futuro deles).”

Ron Bailey, repórter de ciência da revista Razão, foi precoce e entusiástico adotador, regurgitando a lenda urbana na maioria de seus artigos em 2002 (ele apresentava link para um artigo baseado quase inteiramente na obra de Roger Bates).

Catar e escolher evidência com base nas implicações de sua veracidade, e não em sua validade ou não, é má coisa —independentemente do “lado” de que venha.

No caso do aquecimento global antropogênico, a oposição reflexa de muitos libertários é tão arrogante em relação à verdade quanto os sujeitos que exultam com o Climagate acusam de ser os defensores do aquecimento global.

O fato de tais libertários sentirem-se compelidos a assumir a posição estratégica que assumem em relação ao aquecimento global diz muito acerca da visão básica do mundo deles. É uma visão do mundo que compartilha muita coisa em comum, ironicamente, com a do Democrata liberal médio.

Tal processo de raciocínio é mais ou menos o seguinte:

Se o aquecimento global for verdade, os libertários estão perdidos porque, como implicação direta, segue-se a necessidade do estatismo. Se o aquecimento global for verdade, provará que os Democratas liberais estão certos: o livre mercado tem resultados desastrosos em pelo menos um particular, e o estado é necessário em pelo menos esse caso para corrigir o fracasso do mercado. Em outras palavras, dada a premissa do aquecimento global, os libertários dessa cepa vêem o argumento em favor do governo hipertrofiado como algo que legitimamente decorre de tal premissa, de modo naturlal. Então, o aquecimento global não pode estar acontecendo. QED.

Engraçado.  Sinto-me bastante amigável em relação à tese do aquecimento global antropogênico, e não vejo em absoluto o aquecimento global como representando fracasso do mercado. Vejo-o como fracasso do governo. Se removêssemos todas as externalidades criadas pelo governo promotoras de inputs para consumo de energia e de transporte, e protegêssemos a indústria de combustíveis fósseis da responsabilidade plena por danos extracontratuais cometidos no curso de suas operações, o aquecimento global, para começo de conversa, nunca teria representado problema. O livre mercado não é o problema, e sim a solução.

Talvez, porém, alguns libertários vejam o livre mercado como algo que precisa de ser protegido da verdade.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

Estamos Espreitando o Grande Irmão

dezembro 18th, 2009

http://c4ss.org/content/1546

Postado por Kevin Carson em 15 de dezembro de 2009 em Commentary

Amy Goodman, do Democracia Agora, foi parada em 25 de novembro a caminho de Vancouver, onde deveria falar num evento beneficente em favor de estações de rádio públicas. Guardas de fronteira armados pilharam o carro dela (e documentos e disco rígido de laptop), e interrogaram-na por noventa minutos. A linha de questionamento deles tendeu fortemente para o tema das observações por ela planejadas em aparecimentos públicos em Vancouver e Vitória. Pareciam especialmente preocupados (para não dizer obcecados) com ela poder fazer comentários negativos acerca das Olimpíadas de Inverno de 2010 em Vancouver.

Goodman na verdade teve dificuldade em entender do que os valentões estavam falando. De início, ela pensou que eles estavam preocupados, por algum motivo, com o recente esforço de Obama para promover Chicago como anfitriã olímpica. Quando eles explicaram a preocupação deles com as Olimpíadas de Inverno em Vancouver, a resposta dela foi “Oh, eu não havia pensado nisso.” Em suas observações subsequentes acerca do evento, ela deu toda indicação de que as pífias Olimpíadas de Inverno deles eram a última coisa na mente dela.

Bem, se ela não tiver pensado nelas antes, certamente tê-lo-á feito agora — e bem assim milhões de outras pessoas que não fora o ocorrido não teriam dado maior atenção ao assunto. A tentativa dos valentões da fronteira de suprimir comentários negativos acerca das Olimpíadas de Inverno foi praticamente tão ineficaz — e cômica — quanto a tentativa de Basil Fawlty de evitar falar acerca da guerra(*).

(*)http://en.wikipedia.org/wiki/Basil_Fawlty

Numa entrevista para o Globo, ela disse que planejava discutir o incidente na fronteira em seus aparecimentos públicos. “Naturalmente,” isto é, “se estiver tudo bem para a polícia da fronteira.”

Esse é um exemplo clássico do Efeito Streisand em funcionamento. Tentativas de suprimir publicidade negativa levam a publicidade negativa muito pior — muitas casas decimais pior.

Em vez de número relativamente pequeno de pessoas ouvirem o que Goodman pensa das Olimpíadas de Inverno, número muito grande de pessoas ouvirá acerca de guardas da fronteira tentando calar-lhe a boca no tocante a ditas Olimpíadas. Como disse Keith Olbermann, se eles estão preocupados com Goodman deixá-los constrangidos, é bastante contraproducente oferecer a ela um roteiro para o espetáculo do dia seguinte. Não apenas os valentões da fronteira fizeram mais para causar publicidade negativa acerca das Olimpíadas de Inverno do que Goodman poderia jamais ter sonhado em causar (assumindo-se que ela estivesse entediada o suficiente para dar qualquer atenção ao assunto), como, no processo, por iniciativa própria, fizeram-se parecer um punhado de paspalhos incompetentes.

É apenas mais um exemplo da dificuldade que as antigas hierarquias do estado e das corporações estão tendo para ajustar-se a um mundo interligado em rede. Vemo-las constantemente sendo pegas de surpresa pela publicidade negativa. Elas ainda estão aculturadas a um mundo de difusão unidirecional de comunicações com cubos de distribuição centralizados, de alto custo, onde um discreto telefonema ou um almoço com a pessoa certa pode abafar perfeitamente as coisas. Estão apenas começando a perceber que esse mundo se foi para sempre.

Toda tentativa de arrancar pela raiz a má publicidade passando a lábia em algum controlador de conteúdo explode na cara de ambos. E por mais que isso se repita, nunca perde a graça. Imaginando as caras dos administradores da Trafigura(*) e daqueles palhaços da fronteira canadense, dei gargalhadas do modo que as dava ao ver Elmer Fudd(**) depois de uma espingarda explodir na cara dele.

(*)http://www.trafigura.com/#3sko6RTPz8P4

(**)http://en.wikipedia.org/wiki/Elmer_Fudd

Hoje em dia podemos conversar uns com os outros e replicar informação infinitamente (ou quase isso), com custos de transação próximos de zero. Não apenas eles não nos conseguem fazer calar, como as tentativas que fazem nesse sentido apenas causam mais constrangimento. Toda tentativa de suprimir um documento vazado acaba circulando na Internet. Todo espancamento pela polícia termina no YouTube. Eles não conseguem mais esconder.

Como diz Sheldon Richman, ao comentar uma coluna anterior acerca do Efeito Streisand, “Estamos de olho no Grande Irmão.”

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.

“Avante,” Marchar

dezembro 9th, 2009

http://c4ss.org/content/1505

Postado por Thomas L. Knapp em 5 de dezembro de 2009 em Commentary

Esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda, direita, esquerda … quem consegue ver a diferença nos dias que correm? O partido no poder — qualquer seja ele — faz política na base do precedente, não da ideologia. Antigos programas são preservados, talvez “reformados.” O partido de oposição luta de unhas e dentes contra novos programas — então mantém-nos e expande-os ao deixar a oposição e assumir o poder. O governo torna-se maior, nunca menor e, como o discurso do Presidente Barack Obama em West Point na última terça-feira revela, os políticos apresentam pelo menos tanta probabilidade (se não mais) de dobrar a aposta nas ideias ruins de seus predecessores, e bem assim em quaisquer boas ideias desgarradas que possam acidentalmente ter sido incluídas no programa.

A guerra do governo dos Estados Unidos no Afeganistão entrou em seu nono ano sem nenhuma luz no fim do túnel. Até agora, seus frutos incluem mais de 800 mortos dos Estados Unidos e aproximadamente 1.500 da “coalizão,” e nada menos de 30.000 civis afegãos mortos.

Vinda à existência em função do hórrido resultado imprevisto e indesejável(*) da arrogância da política externa estadunidense, a guerra caracteriza não um recuo, e sim a sacramentação dessa arrogância. Ela foi equivocada desde o início: Logo que seus objetivos excederam ou se desviaram da liquidação do aparato de comando e de controle da al Qaeda — como sucedeu desde o começo — ficou praticamente garantido que nem aquele objetivo nem qualquer outro seria atingido. E nem o foram.

(*) blowback – Efeito, resultado ou conjunto de repercussões não antevisto e não desejado. – Merriam-Webster.

Aí surge Obama, com um plano de “reforço” de mais 30.000 soldados dos Estados Unidos no Afeganistão (havendo já dobrado o tamanho da força dos Estados Unidos ali no ano anterior, sem qualquer resultado), com custo de $30-$45 milhões de dólares, numa promessa de “começar a acabar” com a guerra daqui a dois anos, em torno do 10o. aniversário da própria.

Os que estão surpresos não deveriam estar. Apesar de toda a conversa de Obama como “candidato da paz” em 2008, o fato é que ele se mostrou belicoso em toda oportunidade, prometendo expandir a guerra no Afeganistão e talvez até estendê-la para mais além, para dentro do Paquistão. Fez ambas as coisas, e logo agora na semana passada aprovou expansão do programa de aviões não tripulados de “assassínio por controle remoto” dos Estados Unidos no Paquistão, esperando levá-lo além da província do Waziristão e para dentro do Baluquistão.

O problema da política no concernente à política externa é nenhum político acreditar poder dar-se ao luxo de parecer “fraco” ao concorrer ao cargo. E todo político, com a possível exceção de um presidente em segundo mandato, está sempre concorrendo a um cargo. Obama teve que mostrar-se mais falcão do que John McCain — e do que George W. Bush — para ser eleito. No cargo, ele tem que ser mais falcão tanto do que seu predecessor quanto do que todo opositor Republicano em perspectiva, a fim de ser reeleito.

O único tipo de ocasião em que um “candidato da paz” tem probabilidade de chegar à Sala Oval é quando a nação está exausta por causa da, e desencantada com a, guerra … situação à qual o sistema está engrenado para chegar inevitável, mas mas vagarosamente. Richard Nixon conseguiu ser eleito em 1968 como candidato da “paz com honra,” num momento em que os Estados Unidos haviam óbvia e irreversivelmente sido derrotados no conflito do Vietnã. Ainda assim, ele estendeu o conflito por mais quatro anos a fim de não ser visto como “fraco”.

Os incentivos da política apontam, todos, para a guerra, ou pelo menos para a constante disposição de fazer guerra.

Posto que a política — tanto interna quanto internacionalmente— é, em última análise, nada mais do que uma luta por território entre gangues de rua, é apenas natural que o jingoísmo leve a melhor e a vantagem vá antes de tudo para o candidato “homem forte.” Política é algo a propósito de força. Um “candidato da paz” bona fide é aproximadamente tão viável quanto Madre Teresa no processo de seleção para líder da família criminosa Gambino.

A tendência belicosa existente na política é fertilizada e aguada pela batelada de dinheiro derramado no processo político por empreiteiros de “defesa” e outros parasitas do trato digestivo do sistema capitalista de estado. Eles gastam muito dinheiro tentando enfiar vocês e o patrimônio de vocês numa das extremidades daquele trato na expectativa de os ossos descarnados de vocês saírem pela outra extremidade. No Iraque e no Afeganistão, eles até agora esfolaram vocês em cerca de um trilião de dólares, acima e além das mais de 5.000 vidas de estadunidenses diretamente tomadas.

Até políticos “da corrente majoritária” tiveram ocasião de advertirem-nos dos perigos em que esse sistema implica, como fez Dwight D. Eisenhower em seu discurso de despedida em 1960. O que eles não estão dispostos a admitir — e com o que precisaremos em algum momento nos atracar — é que esses perigos são inerentes, congênitos, inevitáveis e progressivos. Podemos ter política, ou podemos ter paz. Não podemos ter ambas.

O Analista de Notícias do C4SS Thomas L. Knapp é ativista libertário de longa data e autor da Escrita do Artigo Opinativo Libertário Writing the Libertarian Op-Ed, livrinho eletrônico o qual partilha os métodos subjacentes a seus mais de 100 artigos publicados na mídia majoritária impressa. Knapp publica o Sumário de Notícias da Revista Racional Rational Review News Digest, um apanhado diário de notícias e comentários para o movimento da liberdade.

Tornar o Estado Irrelevante, Segunda Parte: Contorno

dezembro 7th, 2009

http://c4ss.org/content/1503

Postado por Kevin Carson em 5 de dezembro de 2009 em Commentary

Em minha coluna anterior, argumentei que o melhor modo de combater o estado não é trabalhar a partir de dentro do sistema para mudar as leis, e sim tornar o estado irrelevante por meio de nossos próprios esforços estigmérgicos fora a dele: mediante lembrar às pessoas de que elas não precisam de permissão para ser livres; mediante o desenvolvimento de novos meios de burlar o estado e viver fora de sua autoridade; e mediante solapar a legitimidade do estado na consciência popular.

Na presente coluna desejo lidar especificamente com o desenvolvimento de novos modos de burlar a vigilância do estado e seus mecanismos de coerção tornando-os irrelevantes para o modo que escolhamos de viver nossas vidas.

Os estados dizem ter todos os tipos de poder que são completamente incapazes de fazer cumprir. Não importa quantas leis tributárias estejam nos códices se a maior parte do comércio utilizar algum tipo de moeda criptografada e invisível ao estado. Sem a capacidade de coerção no tocante aos poderes que alega ter, esses próprios poderes alegados tornam-se praticamente tão relevantes quando os éditos do Imperador Norton(*).

(*) Joshua Abraham Norton, inglês morador em São Francisco, Califórnia, declarou-se Imperador dos Estados Unidos e, subsequentemente, Protetor do México. Ver http://en.wikipedia.org/wiki/Emperor_Norton

Bom exemplo é o efeito dos sites torrent(1), dos servidores proxy(2) e da criptografia sobre a lei de copyright. Praticamente toda obra musical ou filme ficará disponível para download grátis tão logo a versão patenteada apareça no mercado, e qualquer pessoa que se dê ao trabalho de aprender a técnica adequada poderá fazer o download grátis sem qualquer risco. Quanto mais o estado reprimir os desavisados, mais a população majoritária ver-se-á estimulada a usar anonimadores(3) de web e a darknet(4), e a aceitar seu uso como procedimento padrão.

(1)http://pt.wikipedia.org/wiki/BitTorrent

(2)http://pt.wikipedia.org/wiki/Proxy

(3)http://pt.wikipedia.org/wiki/Proxy#Proxy_an.C3.B4nimo

(4)http://pt.wikipedia.org/wiki/Darknet

O conceito de estigmergia, ao qual referi-me anteriormente, é de novo relevante aqui: o surgimento de ordem por meio de esforços de indivíduos e pequenos grupos autônomos, cada qual coordenando seus esforços com o todo maior tal como percebido por eles, sem qualquer autoridade coordenadora central.

É a forma de organização que governa o movimento de software de código aberto, particularmente a comunidade de design de Linux descrita no livro de Eric Raymond “A Catedral e o Bazar.” Inovações discretas são desenvolvidas, independentemente, pelos indivíduos autosselecionados mais interessados no problema e com melhores condições de atacá-lo, e em seguida tornadas disponíveis para todo mundo por meio da cultura de rede. No dizer de Michel Bauwens, nas hierarquias corporativas provavelmente 80% das pessoas trabalhando num problema específico pouco se importam com ele, enquanto, numa rede de pares(*), 100% das pessoas trabalhando em qualquer problema estão fazendo aquilo por estarem apaixonadamente comprometidas. E as melhores soluções são então adotadas independentemente, por indivíduos e pequenos grupos, por meio de processo estigmérgico similar. A organização estigmérgica aproveita o talento no tratamento dos problemas, e universaliza a adoção das melhores soluções tão depressa quanto possível, sem os custos de transação(**) da ação coletiva convencional.

(*) http://pt.wikipedia.org/wiki/P2P

(**) http://pt.wikipedia.org/wiki/Custo_de_transa%C3%A7%C3%A3o

John Robb, do blog Guerrilheiros Globais, aplica o modelo de Raymond à “insurgência de código aberto” e à Guerra de Quarta Geração. Na resistência em rede, células distintas usam independentemente seu próprio juízo no fazer uso maximamente eficaz das ferramentas e informações disponíveis no domínio público. O Iraque da al Qaeda não empreende todos os tipos de esforço organizacional centralizado para assegurar-se de que ninguém se mexa sem um “Simon diz(*)” da Autoridade Executiva Principal. Um pequeno grupo concebe um modo mais barato e eficaz de Dispositivo Explosivo Improvisado – IED, coloca-o na rede, e dentro de uma semana todas as pequenas células desconexas o terão adotado para si próprias e concebido a melhor maneira de usá-lo.

(*) http://es.wikipedia.org/wiki/Sim%C3%B3n_dice

E, de acordo com Cory Doctorow, é exatamente desse modo que o movimento de compartilhamento de arquivos funciona. Os gênios das companhias de gravação, ao conceberem sua Gestão de Direitos Digitais – DRM(*), acharam que ela só precisava ser boa o bastante para frustrar a pessoa média. Os prejuízos com o punhado de geninhos da informática que conseguiriam descobrir como craqueá-la seria desprezível, desde que a pessoa média não tivesse acesso ao processo. Na verdade, porém, os geninhos da informática, ao descobrir como vazar as defesas, proporcionam o efeito de demonstração(**) para todo mundo mais.

(*) http://pt.wikipedia.org/wiki/Drm

(**) http://en.wikipedia.org/wiki/Demonstration_effect

Tais esforços independentes usando a forma de rede são incrivelmente eficazes na distribuição de ferramentas e informações levando-as até onde elas sejam mais eficazes. E fazem-no sem a necessidade de todo mundo rezar pela mesma cartilha antes de uma pessoa poder dar um passo à frente de outra. Esta é a essência da cultura de rede: ela remove todos os incríveis custos de transação e as ineficiências burocráticas que no passado eram exigidas para que qualquer coisa fosse feita.

O melhor modo de enfraquecer qualquer autoridade injusta é mostrar aos outros, independentemente, como resistir a ela: descobrir os melhores meios de invalidar o poder dela sobre você de tal maneira que você possa torná-la irrelevante para sua vida, e em seguida propagar o conhecimento dessa técnica por toda parte.

Penosamente fazer com que todo mundo reze pela mesma cartilha, antes de permitir que qualquer pessoa dê o primeiro passo, é o caminho para a irrelevância. O benefício central da cultura de rede é ela ter eliminado os enormes custos de transação da coordenação de esforços via gigantescas organizações burocráticas.

O Associado de Pesquisas do C4SS Kevin Carson é autor mutualista e anarquista individualista contemporâneo cuja obra escrita inclui Estudos em Economia Política Mutualista Studies in Mutualist Political Economy e Teoria da Organização: Uma Perspectiva Anarquista Individualista Organization Theory: An Individualist Anarchist Perspective, ambos disponíveis grátis online. Carson também tem escrito para diversas publicações e blogs da internet, inclusive Just Things, The Art of the Possible, the P2P Foundation e seu próprio Blog Mutualista Mutualist Blog.